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Correio da Manhã

Política
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DESCONCERTO DE ESTADO

Catorze das mais altas figuras políticas nacionais estiveram ontem reunidas, em Conselho de Estado, com o Presidente da República.
7 de Fevereiro de 2003 às 00:00
O assunto era sério, falou-se de guerra, conflitos entre nações e as suas consequências para Portugal, mas, ao cabo de cinco horas de debate, o comunicado oficial, lido pelo secretário do Conselho de Estado, Laplaine Guimarães, não podia ser mais sucinto e adequado ao segredo destas reuniões : “O Presidente da República transmitiu aos senhores conselheiros a sua intenção de poder continuar a beneficiar do acompanhamento do Conselho de Estado face ao evoluir da questão do Iraque”.

Quer isto dizer que Sampaio reuniu o seu órgão político de consulta para no final dizer que poderá haver mais Conselhos de Estado sobre o mesmo assunto. Ou seja, a conversa foi “muito interessante”, conforme declarou pouco tempo depois o primeiro-ministro, Durão Barroso, mas não se chegou a um consenso sobre a posição única que Portugal deve ter sobre a matéria. O País, de facto, não está a falar a uma só voz, as divergências entre o Presidente e o primeiro-ministro mantêm-se, assim como entre os conselheiros de Estado.

No final da reunião, e à entrada de um jantar nas instalações do Parlamento com Mota Amaral, e com o primeiro-ministro, Sampaio voltou a reiterar que qualquer acção militar contra o Iraque deve ser feito no quadro da ONU . Sampaio não deixou, todavia, de considerar importante a atitude da Administração norte-americana de ter escolhido o Conselho de Segurança como fórum de apresentação das provas. O Presidente referia-se às ‘provas’, ou denúncias, apresentadas por Colin Powell na quarta-feira, facto que poderia ser determinante para mudar o rumo dos acontecimentos e, portanto, do entendimento de alguns conselheiros de Estado. Se tal aconteceu, não se sabe, porque o silêncio foi total por parte de todos conselheiros, obrigados que estão ao sigilo. Admite-se todavia grandes divisões, conforme avançámos na nossa edição de ontem. Note-se que nem todos os conselheiros de Estado estiveram presentes. Ao todo são 18, mas faltaram quatro: João Jardim, João Cravinho – tal como o CM ontem noticiou em primeira mão –, aos quais se juntaram Carlos César e Ramalho Eanes. O presidente do Governo Regional dos Açores justificou a sua ausência por estar doente e o antigo presidente da República pelo facto de lhe ter nascido um neto no Porto.

“Portugal só terá a ganhar se falar a uma só voz sobre o conflito internacional entre os EUA e o Iraque” – declarou o secretário-geral do PS e conselheiro de Estado, Ferro Rodrigues, deixando claro que o Conselho de Estado não falou a uma só voz. Tal conclusão se pode retirar também da frase de Sampaio: “Cada um fará o seu melhor para que a unidade do Estado não esteja em causa, sem prejuízo das posições de cada um”.
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