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Correio da Manhã

Política
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É PRECISO VIRAR A PÁGINA

Foram precisas cinco horas para que a Comissão Política do PS aprovasse as sanções políticas e disciplinares aos socialistas envolvidos no chamado caso da Lota de Matosinhos, que culminou com a morte de Sousa Franco.
16 de Setembro de 2004 às 00:00
A discussão esteve longe de ser pacífica e dela resultou a instauração de um processo disciplinar ao funcionário Domingos Ferreira, a proposta de expulsão do partido de António Parada e o impedimento de Narciso Miranda e Manuel Seabra serem candidatos à Câmara de Matosinhos nas próximas autárquicas.
Uma solução que agrada aos três candidatos à liderança do PS, nomeadamente a José Sócrates, apesar dos principais protagonistas neste caso –- o presidente da Câmara de Matosinhos, Narciso Miranda, e o vereador Manuel Seabra – serem seus apoiantes. “Concordo plenamente com a decisão”, disse o candidato ao Correio da Manhã, “sou amigo de ambos, mas entendo que Matosinhos precisa de virar a página”. Sócrates só lamenta que a decisão não tenha sido tomada mais cedo. “É uma decisão política que o partido já podia ter tomado há muito tempo, a solução só podia ser esta”. Manuel Alegre e João Soares já antes tinham defendido que Narciso e Seabra não tinham condições para serem candidatos pelo partido.
Ao que o CM apurou, esta foi também a opinião da maioria dos participantes da reunião da Comissão Política de terça-feira à noite, mas não deixou de constituir surpresa para alguns. Jorge Lacão, que juntamente com Vera Jardim e Almeida Santos, fez parte desta comissão de inquérito, leu o documento na íntegra. Foi mais de uma hora de leitura, durante a qual, segundo uma fonte presente na reunião, “tudo indicava no sentido que Narciso Miranda iria ser poupado neste processo”. O relatório aponta Manuel Seabra como o “instigador” dos incidentes na lota, enquanto Narciso Miranda se terá limitado a reagir. Ou seja, diferentes graus de responsabilidade a que, afinal, acabou por corresponder a mesma sanção política.
Facto que não passou despercebido a alguns socialistas. “O relatório parecia ter sido feito para ilibar o Narciso e, no último momento, parece que foi colocado no pacote”, disse ao CM outra fonte do partido. Houve até quem levantasse dúvidas sobre se o documento não terá sofrido alterações de última hora.
Perante isto, não admira que a votação das sanções tenha sido algo dividida: 14 votos contra, 26 a favor e 5 abstenções. Os “castigados” também não ficaram satisfeitos e a polémica não deverá ficar por aqui. Ainda ontem Narciso Miranda afirmou que tem obra no seu concelho “para outros mandatos”. É preciso lembrar ainda que a escolha dos candidatos às autárquicas cabe à Comissão Nacional do partido e as sanções disciplinares são aplicadas pela Comissão de Jurisdição.
NÃO ACEITO SER BODE EXPIATÓRIO
António Parada, coordenador da secção de Matosinhos, é o militante do PS mais penalizado nas conclusões do inquérito aos acontecimentos da lota.
Militante há 20 anos, António Parada é o gerente em Matosinhos de uma empresa de segurança, em cuja carteira de clientes se inclui a Docapesca. O militante socialista era, assim, de facto, o responsável pelos vigilantes em serviço na lota no dia da visita de Sousa Franco, como, de resto, o era no dia anterior e no dia seguinte. Por isso, o militante socialista não compreende por que o responsabilizam pelos incidentes: “Não quero falar sobre o assunto, ainda não fui notificado e vou defender-me junto da comissão juridiscional. Penso, todavia, que me querem suspender e não expulsar, como tenho ouvido por aí. Apenas lhe digo que estou indignado com a injustiça que me estão a fazer, ao colocarem-me como bode expiatório, o que não aceito”, disse ontem ao CM .
António Parada é bem conhecido em Matosinhos, onde durante anos durante anos foi um incondicional de Narciso Miranda, a quem por diversas vezes carregou literalmente aos ombros em manifestações. Agora, apoiante de Seabra, a sua sorte parece ter mudado.
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