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Correio da Manhã

Política
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EVITEI QUE O ESGANASSEM

“Eu tentei evitar que agredissem o homem. Quanto às imagens que aparecem na televisão... não consigo bem explicá-las”, disse ao CM, Manuel Costa, um dos indiciados por agressão ao deputado Francisco Assis.
21 de Maio de 2003 às 00:00
Manuel Costa é vigilante do condomínio do Centro Comercial Orion, ali a dois passos da Câmara de Felgueiras. Foi um dos que mais colaborou na organização da vigília de sexta-feira. Foi, de resto, o primeiro a chegar, uma hora antes do início da manifestação de apoio a Fátima Felgueiras promovida por “um grupo de munícipes”. Quando chegou o BMW de Rolanda Babo com os papéis de propaganda e as carrinhas com as mesas que recolheriam as assinaturas, ajudou a montar a estrutura. Esteve sempre calmo, mesmo nas conversas que manteve com populares e jornalistas. Por isso, foi surpreendente vê-lo à noite, nas imagens televisivas difundidas pelos vários canais, inflamado, a incentivar e a agredir Francisco Assis com umas valentes sapatadas. As imagens são ilustrativas mas Manuel Costa garante que estão a ser mal interpretadas.
“Eu até apareço noutras imagens a tentar acalmar as pessoas mais exaltadas. Não reparou que eu tinha a mão aberta? Então, bem vê, para agredir utilizaria o punho fechado. Eu aproximei-me do pescoço do homem porque alguém lhe podia puxar pela gravata e esganá-lo”, explica o vigilante.
Da mesma opinião não comunga o sargento Pinto, da GNR de Felgueiras. “Já identificámos os agressores, por aqui conhecemo-nos todos uns aos outros. Todos dizem que protegiam o dr. Francisco Assis, até um deles, que é bombeiro, disse que estava a socorrer. Enfim, cada um diz o que quiser”, afirma o responsável da GNR local, que aguarda de consciência tranquila os inquéritos à actuação da Guarda que “interveio cinco a sete minutos após ter tido conhecimento dos incidentes”.
A mulher de Manuel Costa, Emília, defende o marido. “Líder? Ele não é nenhum líder, antes fosse, só ajudou a montar as mesas. E, além disso, o Assis é que andou a dizer que nós em Felgueiras éramos lixo, não tinha nada que cá vir. Para a próxima ainda vai ser pior. Eu estive lá e o meu marido não agrediu esse senhor. Quem disser o contrário pode ter de haver-se com um processo judicial”, ameaça.
APOIANTES DÃO PASSO ATRÁS
“O nosso grupo tinha outros planos para apoiar a presidente mas agora temos que os reapreciar, reconhece Rolanda Babo, a advogada felgueirense que integrou o núcleo organizativo da vigília de sexta-feira.
Assumindo-se como amiga pessoal de Fátima Felgueiras, confirma que era seu o BMW que a ex--presidente conduziu após a apreensão do Audi pela Polícia Judiciária. “Emprestei e hoje voltava a emprestar”, garante ao CM. A advogada, no entanto, desmente categoricamente notícias que afirmam ter sido acusada de desviar dinheiro do Totta de Felgueiras quando ali trabalhou.
“Eu fui quadro superior do Totta e dirigi sete dependências. Quando entrou o Santander tive um litígio laboral que ainda está em curso”, explica.
Rolanda Babo saiu do Totta há cerca de dois anos e ingressou no departamento jurídico da Câmara de Felgueiras em Julho de 2002 por concurso público, saindo em Janeiro de 2003, quando Fátima Felgueiras foi detida para interrogatório. “Saí porque estava desiludida com o trabalho público”, explica.
Rolanda Babo lamenta os incidentes com Assis “até porque fragilizaram a posição dos organizadores da vigília” .
PSICOLOGIA EXPLICA VIOLÊNCIA
De acordo com os manuais de Psicologia, o comportamento violento de alguns populares em Felgueiras pode ser explicado à luz do chamado “mecanismo de responsabilidade partilhada”. Um fenómeno psico-social que leva a que um determinado indivíduo não se sinta responsável pelo seus actos quando inserido num grupo.
De acordo com Luís Curral, professor da Faculdade de Psicologia de Lisboa, são dois os mecanismos que levam a que uma pessoa normalmente calma e pacata adopte um comportamento completamente diferente quando inserida num grupo violento. Um deles é o chamado mecanismo da “conformidade social”, em que o grupo exerce pressão para que um dos seus membros se comporte de certa maneira. “A
pessoa tem de ter um determinado comportamento para se sentir inserido no grupo e se o grupo for violento, ela também será violenta”, explicou.
Segundo este professor de Psicologia Social, outro dos mecanismos que concorre para este comportamento violento em grupo é o da “responsabilidade partilhada”. O grupo funciona como um todo e a pessoa não se sente responsável pelos seus actos. “Em caso de violência, o agressor não se sente responsável porque a responsabilidade é partilhada”, explica. “Aliás, quando perguntamos a alguém se teve uma participação activa, em 99 por cento dos casos as pessoas dizem que não, independentemente de terem ou não. Há o sentimento de que num grupo não há responsabilidade individual. E quanto maior é o grupo, mais a responsabilidade é diluída”.
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