Barra Cofina

Correio da Manhã

Política
1

Fazer cair Governo é uma “tontice”

O comentador Marcelo Rebelo de Sousa considera que "não é razoável tocar no Governo" de José Sócrates antes das presidenciais de 2011 e durante o actual cenário de crise "financeira e psicológica".
6 de Junho de 2010 às 13:42
Rebelo de Sousa considera "tontice" fazer cair o Governo nesta altura
Rebelo de Sousa considera 'tontice' fazer cair o Governo nesta altura FOTO: Duarte Roriz

O professor universitário falou no sábado à noite perante uma plateia de estudantes portugueses na Casa de Portugal/Residência André de Gouveia, na Cidade Universitária Internacional, onde foi convidado  a proferir uma conferência sobre "Portugal em 2010". Rebelo de Sousa considerou que seria uma "tontice" fazer cair o Governo e que a crise dá "ironicamente" tempo ao novo líder do PSD, Pedro Passos Coelho, para preparar um programa e uma equipa para tentar chegar ao poder "dentro de ano, ano e meio", evitando a ascensão prematura à governação que vitimou, em seu entender, Durão Barroso.

"Admito que, por exemplo, o PSD e o CDS-PP, que não mostraram vontade de viabilizar uma moção de censura, estivessem virados para a viabilizar e,  em conjunto com o BE e o PCP, embora por razões opostas, fizessem cair o  Governo", explicou Marcelo Rebelo de Sousa à agência Lusa. "Com a crise, isso não faz sentido", considerou.

"Neste momento, haver uma crise política seria a chamada cereja no bolo,  porque era os credores dizerem 'eles estão mesmo completamente loucos’. Vão  passar três ou quatro meses à procura de um novo Governo, não é líquido  que esse novo Governo tenha maioria mas é nesse período pior em que se encontram  que eles decidem mesmo reduzir a credibilidade financeira do estado português”, explicou.

"Por muito que isso apeteça a muito boa gente, nomeadamente no partido  a que eu pertenço, acho uma tontice", concluiu.

"A seguir às presidenciais, supondo que a crise financeira foi ultrapassada  e que a crise psicológica está a ser superada, põe-se um problema, que é se a situação do Governo é para durar mais algum tempo ou não. 'O Governo  foi viabilizado por causa da crise, ele deve cessar funções. Que solução virá a seguir' é um tema em aberto mas a bola está do lado do líder do PSD",  frisou Marcelo Rebelo de Sousa.

Entretanto, "não parece crível que de repente o novo Governo socialista  encontre um novo fôlego, com o actual primeiro ministro", comentou.          "O desgaste do Governo socialista é um desgaste anterior à crise, que  é o desgaste do próprio primeiro ministro, por mérito das oposições que  o desgastaram e [também] o auto-desgaste", considerou.

"José Sócrates auto-desgastou-se com intervenções excessivas, com verdades  contraditórias permanentes, com uma dificuldade enorme de explicar às vezes  as coisas mais banais. Nada é simples de explicar com aquele homem", acrescentou.

O professor repetiu diante dos estudantes da Casa de Portugal a mesma  diferença "entre o desejável e o razoável" que ensina aos seus alunos de  Ciência Política. 

"O que era desejável, na minha modesta opinião, era que as eleições  [legislativas de 2009] tivessem dado um resultado diferente, que esse resultado  já tivesse permitido uma alternativa ao poder e que essa alternativa tivesse  maioria", explicou o professor universitário.

"Há em Portugal, por razões opostas, um somatório enorme de pessoas  que só desejam uma coisa, que é a queda do primeiro ministro, com o BE e  PCP de um lado, e o PSD e o CDS-PP do outro", frisou. "Mas formam uma maioria  negativa e uma maioria negativa não serve para governar o país", concluiu. 

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)