Tal como se esperava, as vozes críticas de destacados dirigentes socialistas, como João Soares e Manuel Maria Carrilho, não foram suficientes para forçar a saída de Ferro Rodrigues da liderança do PS. Aconteceu precisamente o contrário, Ferro saiu da reunião da Comissão Nacional de “cabeça erguida” e reforçado, já que todas as propostas apresentadas foram aprovadas quase sem contestação.
As duas únicas moções corajosas, a exigir um congresso extraordinário, foram protagonizadas por dirigentes sem peso político. Fonseca Ferreira, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região de Lisboa; e Barbosa Ribeiro, do PS-Porto, avançaram mas foram derrotados por uma larga maioria (apenas conseguiram 13 votos a favor e 6 abstenções).Os nomes mais sonantes criticaram, mas ficaram quietos. De João Soares e a Manuel Maria Carrilho pode dizer-se que fizeram, como diz o ditado popular, “entradas de leão e saídas de sendeiro”. Ferro fartou-se e respondeu à letra ao ex-presidente da Câmara de Lisboa e ao ex-ministro da Cultura. A ‘descasca’ começou por desafiá-los a candidatarem-se à liderança para adquirirem legitimidade nas críticas que fazem fora dos órgãos próprios do partido; depois passou ao ataque pessoal. “Depois de teres dito isso (que havia uma cabala montada contra o PS), como podes hoje estar a criticar por haver alegadamente uma excessiva colagem do PS e o processo Casa Pia?”, disse Ferro a Soares, acrescentando com ironia: “Acho interessante que tu reclames maior prudência, lucidez e ousadia no partido. Estamos à espera de te ver exibir essa prudência, essa lucidez, essa ousadia no grupo Parlamentar.”
Virou-se depois para Carrilho: “A pessoa que diz que o PS tem de desligar-se do processo Casa Pia é a mesma que relaciona a eventualidade de uma acusação de um procurador (a Paulo Pedroso) à liderança do PS. Não aceito isso, porque é inqualificável.”
A postura de Ferro na Comissão Nacional só podia ser uma de duas: “Ficar de joelhos perante o populismo político e televisivo” ou “de cabeça erguida”. “Nada me faz temer nada, se tivesse medo comprava um cão, mas como é do conhecimento público eu já tenho um cão [de nome Gastão] que até me acompanha para todo o lado”, disse Ferro com alguma graça.
A conclusão se pode tirar é a de que o PS anda ao ritmo do processo judicial da Casa Pia. “Quase todos os dirigentes (líder incluído) dizem que é preciso desligar o partido do processo, mas não há volta a dar, as conversas vão sempre lá parar”, comentou ao CM um dirigente que esteve na Comissão Nacional. Em suma, o que se passa no PS não é uma questão de situação mas uma questão de falta de protagonistas que disputem a liderança.
JORGE COELHO
Jorge Coelho esteve solidário com a liderança de Ferro, mas criticou a opção do secretário--geral de ter estado nos últimos dias em reflexão sobre o seu futuro. "O partido não pode estar mais tempo em reflexão. Tem de avançar e ir para a rua, corrigindo o que está mal", declarou o "ex-número dois" de António Guterres perante a Comissão Nacional.
JOSÉ SÓCRATES
José Sócrates afirmou que, na reunião da Comissão Nacional do PS, "ficaram resolvidas as questões internas, e o partido tem agora disponibilidade para se concentrar na agenda política do País". "Esperava que essas questões internas tivessem ficado resolvidas na reunião da Comissão Política, há alguns dias atrás".
JOÃO SOARES
O ex-autarca de Lisboa criticou a direcção do PS por se ter deixado "amarrar" à "porcaria" (caso Casa Pia), dizendo que Ferro ficou com reduzido espaço de manobra para continuar líder. "Sei que vais ficar. Fico ao menos feliz por ter acertado na minha previsão", comentou Soares, usando um tom irónico.
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