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Correio da Manhã

Política
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Guterres Alto Comissário

António Guterres foi escolhido para ocupar o cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, foi confirmado esta terça-feira. O ACNUR, com sede em Genebra, é a maior agência mundial de apoio aos refugiados, tem um orçamento anual que ronda os mil milhões de dólares e seis mil funcionários espalhados por 115 países com a missão de prestar assistência a 17 milhões de pessoas desalojadas por conflitos armados.
24 de Maio de 2005 às 15:24
O antigo primeiro-ministro de Portugal e actual presidente da Internacional Socialista disputava o cargo com outros quatro candidatos de nacionalidades francesa, australiana, tunisina e dinamarquesa.
A escolha acabou por incidir sobre Guterres, que havia sido entrevistado pessoalmente pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, a semana passada, no âmbito do processo de selecção para o cargo.
Guterres integrou um grupo de oito candidatos ao cargo, três dos quais foram eliminados na primeira ronda de entrevistas de pré-selecção, conduzidas por um painel de funcionários da ONU escolhidos para o efeito. A segunda fase decorreu com entrevistas individuais do candidato com o próprio Kofi Annan.
O antigo primeiro-ministro português e actual presidente da Internacional Socialista contou com o apoio dos governos português e espanhol. Os franceses também poderiam ter apoiado, mas o seu próprio candidato passou à segunda fase. Moscovo emitiu sinais subtis e Washington manteve-se 'na sombra'.
Recorde-se que a opção de se candidatar a este importante cargo da ONU foi tomada pelo próprio Guterres contra a corrente política em Portugal que o apontava como bom candidato à Presidência da República nas eleições de Janeiro próximo. O antigo primeiro-ministro alegou vocação para o cargo na ONU, apoiada, aliás, no facto de ser sócio fundador do Conselho Portugês para os Refugiados.
Guterres saiu triunfante, impondo-se mesmo ao favorito, o tunisino Alto Comissário-adjunto para os Refugiados. O português sucede ao holandês Ruud Lubbers (antigo primeiro-ministro), que se demitiu do cargo de Alto Comissário da ONU para os Refugiados em Fevereiro, na sequência de ter sido alvo de alegações de assédio sexual.
Ao fazer o anúncio da nomeação, esta tarde, o porta-voz do secretário-geral da ONU destacou o facto de Guterres ter sido primeiro-ministro de Portugal de 1995 a 2001, de ter uma extensa carreira académica e política e de ter fundado o Conselho Português para os Refugiados. Nem uma palavra sobre o facto de Guterres ser ainda presidente da Internacional Socialista.
António Guterres conclui hoje uma missão pela Internacional Socialista em Ramallah, nos territórios autónomos palestinianos. O antigo primeiro-ministro socialista deverá chegar ao final do dia a Lisboa.
PERFIL
António Guterres tem 56 anos de idade. Engenheiro de formação (concluiu o curso com 19 valores), foi como político, militante do PS, que fez carreira. Foi membro da Assembleia Parlamentar do Conselho Europeu (1981-83), presidindo à Comissão para a Demografia, Migrações e Refugiados.
Distingui-se como excelente parlamentar em Lisboa e foi eleito primeiro-ministro em 1995. Foi reeleito em 1999 e demitiu-se em 2001, na sequência de maus para o PS resultados em eleições autárquicas.
Após sair da chefia do Governo, Guterres tornou-se num emigrante político, assumindo a presidência da Internacional Socialista. Foi nessa qualidade que, em entrevista concedida em Janeiro, no Fórum Mundial Terra Viva, propôs um Plano Marshall para África.
Condenou o paternalismo e as obrigações sempre subjacentes às ajudas concedidas. E foi mais longe: "Considero uma grande hipocrisia que muitos líderes do chamado Mundo Ocidental recorram à democracia e aos Direitos Humanos para servir os interesses estratégicos dos seus países".
REACÇÕES
"Ele vai cumprir uma missão que é muito importante para o Mundo. É uma missão que ele gostará muito de cumprir. Cada um de nós deve fazer aquilo em que é mais feliz" Jorge Coelho (PS)
"É com alegria que recebemos esta notícia. O século XXI é o século dos refugiados e dos deslocados. É um problema por resolver. É uma tarefa herculea que Guterres tem pela frente" Paulo Castro Seixas (Médicos do Mundo)
"Vai ser um ganho para as Nações Unidas ter uma pessoa com as características pessoais e profissionais que António Guterres tem" Teresa Tito Morais (Conselho Português para os Refugiados)
"Foi escolhido o melhor candidato. Este cargo, a par do de director-geral do Programa da ONU para o Desenvolvimento, são os mais importantes abaixo do de secretário-geral" José Lamego (PS)
"O engenheiro Guterres era, de longe, a figura mais qualificada. Qualquer decisão que não fosse esta seria política e prejudicial para as Nações Unidas" Seixas da Costa (embaixador)
"Significa o reconhecimento da altíssima qualidade intelectual e cívica do candidato. É um grande orgulho para Portugal" Alberto Martins (líder parlamentar do PS)
"Fiquei muito satisfeito. É muito justo. António Guterres vai fazer um lugar muito bom. É uma coisa que ele faz com vocação, com espírito de sacrifício que ele tem. Vai honrar Portugal" Mário Soares (ex-Presidente da República)
"Esta nomeação é positiva e fazemos votos para que o desempenho de António Guterres neste alto comissariado contribua para a reafirmação das Nações Unidas no Mundo" Bernardino Soares (líder parlamentar do PCP)
"Era uma batalha à partida difícil. Portugal não é uma grande potência, um país rico ou com grande experiência anterior na ONU" Diogo Freitas do Amaral (ministro dos Negócios Estrangeiros)
"O que fez sobressair o nosso candidato foi o perfil governamental. Um antigo primeiro-ministro é mais indicado" Diogo Freitas do Amaral (ministro dos Negócios Estrangeiros)
"O perfil político elevado era a chave da nomeação. Foi o ponto central da nossa argumentação e resultou. Não é uma vitória do governo, é uma vitória de Portugal" Diogo Freitas do Amaral (ministro dos Negócios Estrangeiros)
"Congratulo-me com o reconhecimento que esta nomeação pelo Secretario-Geral representa" Durão Barroso (presidente da Comissão Europeia)
"O PSD congratula-se com a escolha do engenheiro António Guterres para o cargo de ACNUR. É mais um português a ocupar um lugar de prestígio" Marques Mendes (PSD)
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