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Correio da Manhã

Política
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Igreja quer salários melhores

A Igreja Católica não concorda com o valor fixado pelo Governo, de 1,5 por cento, para os aumentos salariais da Função Pública, no ano que agora começa.
2 de Janeiro de 2006 às 00:00
D. Jorge Ortiga não concorda com aumentos inferiores à inflação
D. Jorge Ortiga não concorda com aumentos inferiores à inflação FOTO: Secundino Cunha
Apesar de reconhecerem a situação de crise que o País actualmente atravessa, também ao nível das contas públicas, os bispos portugueses entendem que “é sempre negativo obrigar as famílias a ganharem, em termos reais, menos do que no ano anterior”.
D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, disse ao Correio da Manhã que, “apesar de toda a conjuntura desfavorável, o Governo podia certamente ir um pouco mais longe e aproximar os aumentos do valor da inflação prevista”.
“Quando os bens e serviços essenciais, como a alimentação, a água, luz, transportes e outros, sofrem aumentos superiores aos dos salários é natural que as pessoas fiquem preocupadas”, disse o prelado.
Manifestando “uma grande preocupação” com a situação social e económica que as famílias portuguesas atravessam, sobretudo as que têm rendimentos mais baixos, D. Jorge disse que “o Governo deve empenhar-se, sempre e cada vez mais, no combate às desigualdades sociais que teimam em manter-se no nosso país”.
SINDICATOS APLAUDEM
A proposta de aumentos salariais para a Função Pública apresentada na semana passada pelo ministro Teixeira dos Santos causou “um grande mal-estar” no seio da Igreja portuguesa, não apenas devido à perda efectiva de compra por parte dos funcionários públicos, mas também porque esse valor é, regra geral, a referência das empresas privadas, o que resulta em prejuízo para todos os trabalhadores portugueses.
Quem gostou das críticas da Igreja foram os sindicatos que, no entanto, gostavam de ver os bispos a assumirem “oficialmente” uma postura de combate ao Governo, quando se verificam, “como é o caso”, graves injustiças sociais.
De resto, o CM sabe que a próxima Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa vai abordar as grandes questões sociais, como os salários e o emprego.
Para além disso, as 20 dioceses portuguesas realizam no próximo mês de Março uma ‘semana social’, que terá como tema central “o combate efectivo ao desemprego”.
Esta iniciativa já está a ser preparada há cerca de dois meses e assenta nas grandes preocupações manifestadas pelos bispos portugueses para este ano: o desemprego dos jovens e a perda de poder de compra por parte das famílias mais pobres.
CARDEAL CRITICA INVESTIGAÇÃO EM EMBRIÕES
O cardeal patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, manifestou-se ontem, durante a homilia da primeira Missa do ano, contra a investigação em embriões excedentários a propósito da preparação da legislação portuguesa sobre fecundação assistida.
Para D. José Policarpo, a actual preparação da legislação que regule a procriação medicamente assistida em Portugal é “um exemplo preocupante” e “nem todas as descobertas da ciência, aplicadas sem o rigor ético de defesa da dignidade da pessoa humana, são factores de paz”.
Quatro projectos de lei sobre a procriação medicamente assistida foram aprovados em Outubro na Assembleia da República e encontram-se em discussão na especialidade.
Apesar de se praticar desde 1986, a procriação medicamente assistida nunca foi regulamentada em Portugal.
Falando na Basílica dos Mártires, no Dia Mundial da Paz, D. José Policarpo considerou que o processo técnico-científico devia evitar a existência de embriões excedentários (resultantes de tratamentos contra a infertilidade e que não foram implantados no útero).
Em nome da “dignidade do embrião humano”, o cardeal patriarca manifestou-se, nesta matéria, contra “qualquer investigação, por mais promissora que seja”.
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