Histórico socialista apresentou pacote de medidas contra a corrupção que foi travado por José Sócrates.
"Não deixo cair a minha causa por duas coisas: esgotei os meus poderes pessoais e saio com a certeza absoluta, factual, que meti na agenda política um tema que não estava lá, que é fundamental para a Democracia e que não vai sair tão cedo". João Cravinho, que na quarta-feira morreu, aos 88 anos, avisou, no dia em que renunciou ao mandato de deputado, a 24 de janeiro de 2007, que não bastaria a José Sócrates travar o combate à corrupção para que esta deixasse de ser um assunto.
"Ninguém pense que um tema destes é possível fazê-lo desaparecer, é possível escamoteá-lo, dominá-lo como se fosse um tema secundário. Isto é dos temas mais graves e mais importantes do regime democrático”, disse o histórico socialista, confrontado com a intransigência da própria bancada parlamentar em não avançar com o pacote de medidas que apresentou.
Cravinho defendia a criminalização do enriquecimento ilícito e que se colocasse sob suspeita quem declarasse rendimentos que não correspondessem ao património real. "Não estamos na Sicília, nunca fui confrontado com nenhuma ameaça direta. [Mas] fui travado de todas as maneiras e feitios. Não houve a menor vontade política de levar aquilo para a frente. Ponto final parágrafo", concluiu, em 2014.
Nessa altura, tinha já deixado a administração do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento, em Londres, para que tinha sido nomeado pelo Governo de maioria.
Nasceu em Angola, em 1936, e foi ministro da Industria e Tecnologia no Governo provisório de Vasco Gonçalves, em 1975. No ano seguinte, entrou no PS, que representou na Assembleia da República em sete legislaturas, entre 1976 e 2005.
Com a ida de António Guterres para São Bento, ficou depois com a tutela do Equipamento, Planeamento e Administração do Território.
Formado em Engenharia Civil, foi consultor da OCDE, da UNESCO e da Comissão Europeia. Pai de João Gomes Cravinho, ministro com António Costa, coordenou a Comissão Independente para a Descentralização.
"Pautou a sua vida por uma defesa incansável da ética na política e na vida pública, lutando sempre contra a corrupção e desempenhando os mais diversos cargos com desassombro e coragem", recordou o Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa destacou-o como "político multifacetado".
A família confirmou que morreu "tranquilamente em casa".
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