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Correio da Manhã

Política
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JOÃO SOARES: GOSTARIA DE DEFRONTAR SANTANA

João Soares, Deputado do PS, ex-autarca de Lisboa, não quer falar sobre a cidade. ... Até ver. Critica o desempenho da Internacional Socialista e de António Guterres, mas admite apoiá-lo se for o candidato escolhido pelo PS. No entanto, considera que seria estimulante um combate político com Santana Lopes nas eleições presidenciais:
24 de Fevereiro de 2003 às 00:51
Soares mantém o tabu sobre a câmara de Lisboa e ataca o Governo e as campanhas de contra-informação
Soares mantém o tabu sobre a câmara de Lisboa e ataca o Governo e as campanhas de contra-informação FOTO: Pedro Catarino
Correio da Manhã – Há renovação no PS?
João Soares – Eu serei um testemunho suspeito. Sou dirigente do PS. O PS é fiel àquilo que sempre foi.

– Mas não apoiou a manifestação contra a guerra no Iraque.
– Na manifestação contra a guerra estiveram muitos socialistas. Eu tenho pena que o PS não tenha encabeçado a manifestação contra a guerra.

– Então, não concorda com a posição do partido...
– A posição do PS é clara. Por um lado, a condenação de Saddam Hussein, um ditador sanguinário, mas por outro, a condenação daquilo que parece ser, a posição belicista por parte da Administração Bush, que conta com o apoio de alguns outros governos, pelo mundo fora, nomeadamente o Governo português. Isso é que é importante sublinhar. O Governo envolveu-se gratuitamente numa lógica de seguidismo em relação à Administração Bush, que teve consequências nas fracturas que se têm vindo a verificar na União Europeia. E digo isto com a autoridade de ter sido sempre pró-americano ao contrário do primeiro-ministro que foi sempre pró-chinês e anti-americano.

– Há uma perda irreversível para a construção da UE?
– Em Bruxelas, tentou-se coser aquilo que tinha sido rasgado pela imaturidade de alguns governos, entre os quais, o português, que se colocou atrás da Espanha e dos Estados Unidos numa lógica que me parece claramente irresponsável. Obviamente terá consequências.

– O PS precisa de reciclagem?
– O PS tem estado razoavelmente bem. A questão coloca-se a montante, na Internacional Socialista (IS), no Partido Socialista Europeu. A Internacional Socialista tem estado ausente desde o 11 de Setembro, onde seria desejável ter tomado uma posição clara e forte.

– Considera que Guterres tem sido um mau presidente da IS?
– Tem estado aquém daquilo que é desejável e muito abaixo do que pessoalmente pode. Espero que dê uma volta na forma como as coisas têm estado a funcionar na IS.

– Portugal pode ter outro candidato à IS que não seja Guterres?
– Não estou a ver que Portugal pudesse produzir outro candidato. Evidentemente há pessoas com experiência internacional como António Vitorino que poderiam desempenhar algum papel. Mas não creio que isso seja possível no quadro actual da IS. Há uma rede de contactos que parece indicar uma candidatura de António Guterres e que terá o apoio do PS.

– Vitorino poderia ser um bom primeiro-ministro?
– Seguramente que sim. Mas o primeiro-ministro que o PS vai ter tem nome. Chama-se Ferro Rodrigues e tem o meu apoio. E está fora de causa mudar de candidato até às eleições legislativas.

– Que critérios deve ter o PS na escolha do candidato presidencial?
– É cedo para avançar sobre esta matéria. Agora o critério tem de ser o de capacidade pessoal, de notoriedade nacional. Tem de escolher alguém que os portugueses conheçam e que identifiquem em termos de obra realizada.

– Se Guterres se candidatar tem o seu apoio?
– Essa é uma pergunta que não nos leva a lado nenhum. Por princípio, eu apoiarei o candidato do PS. Não creio que ninguém na esquerda tenha condições para se candidatar contra o PS. A questão é saber se ele sente que tem condições, sendo, como é, acusado de ter fugido. Eu acho que sim, até porque, em matéria de fugas, as alternativas de que se fala nos media, Constâncio e Gama, vou ali já venho...

– Mas admite candidatar-se?
– O que eu sempre disse até agora reporta-se a uma eventual candidatura de Santana Lopes. Seria estimulante para mim um combate político nesse quadro.

– E mantém essa posição?
– E mantenho. Eu sou um homem de carácter.

– Como é que se pode combater a suspeição nas autarquias?
– Acima de tudo, há um clima generalizado de desconfiança e falta de auto-estima na sociedade portuguesa introduzido por este Governo. E fazem-no pela lógica de extermínio de político que procuraram introduzir na sociedade portuguesa. Desde o PREC que assistíamos a uma operação destas de propaganda. As pessoas não vêem a Clarks a fechar, a polícia a manifestar-se, simplesmente porque estão submetidas a uma operação de propaganda tipo 'Big Brother' que gera sucessivas nuvens de fumo que ocupam a realidade. E é nessa lógica que as coisas funcionam. Eu falo como alguma autoridade, porque eu próprio fui alvo dessa propaganda.

– A que se deve a sua falta de intervenção no plenário?
– Tenho trabalhado activamente enquanto membro da Comissão de Defesa, mas também no quadro das minhas responsabilidades na asssembleia parlamentar da Organização de Segurança e Cooperação Europeia. Tenho tido intervenções no plenário. No quadro do Iraque fui eu que chamei a atenção para o seguidismo do primeiro-ministro após o encontro com Bush. No PS há um Grupo Parlamentar muito vasto, o maior que um partido da oposição já teve. Há muitas vedetas. Mas eu sou um homem do concreto.

– Há aí alguma crítica?
-- Nenhuma. Nenhuma.

PERFIL

Nome: João Barroso Soares
Idade: 53 anos
Naturalidade: Lisboa
Percurso Académico e Político: Licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa. Deputado entre 1987 e 1989. Renunciou ao mandato para assumir o cargo de vereador da Câmara de Lisboa. Foi eleito deputado ao Parlamento Europeu em 1994, cargo que exerceu até assumir a presidência da autarquia de Lisboa, em 1995. Foi reeleito em 1997. É dirigente nacional do PS, deputado e vice-presidente da Assembleia da OSCE.
Escritor: Publicou várias obras. A mais recente é “Savimbi – Um Sonho Africano”
Particularidades: Tem uma página na Internet onde ataca o Governo – www.joaosaores.net.
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