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Correio da Manhã

Política
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José Sócrates ignora Cavaco

Sorridente e agarrado a um par de muletas – foi assim que José Sócrates entrou ontem no Coliseu do Porto, naquela que foi a sua primeira aparição pública na campanha presidencial para apoiar Mário Soares.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
Aplaudido sem reservas mal apareceu no palco – acompanhado por Elisabete Valente, a jovem de 24 anos militante da JS, que lhe guardou as muletas enquanto discursou e que é conhecida como a “menina da água”, por ser ela quem troca os copos nos comícios – Sócrates passou pouco mais de 15 minutos a dizer que o seu candidato é Soares, não fazendo uma única referência a Cavaco Silva ou a qualquer outro candidato. Mas deixou um recado a Manuel Alegre, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã: “A única forma de a esquerda democrática vencer as eleições é concentrar votos em Mário Soares.”
As cerca de três mil pessoas interromperam de imediato o primeiro-ministro para uma das várias salvas de palmas que sublinharam o discurso que efectuou. De improviso, embora recorrendo a meia dúzia de cábulas que tinha em cima da pequena mesa onde se apoiava, de vez em quando, para descansar a perna esquerda. Logo a seguir ao apelo à desistência dos outros candidatos da esquerda, que nunca chamou pelo nome, fez questão de deixar claro que os socialistas só têm um candidato: “O voto natural do PS é em Mário Soares. O voto em Mário Soares é o voto natural de todos os socialistas (...) Quem tem um candidato como Mário Soares não precisa de falar noutros candidatos.”
Isabel Soares, filha do ex-presidente da República, de imediato começou a bater palmas. Alguns metros ao lado, sentados na primeira fila da plateia, Fernando Gomes e o ministro Augusto Santos Silva seguiram-na, bem como Rosa Mota, desterrada numa das últimas cadeiras.
E para vincar que não gosta de “ambiguidades”, o que valeu nova salva de palmas, Sócrates falou da sua momentânea incapacidade motora: “Se alguém pensou que eu metia baixa nesta campanha, enganou-se. (...) Não é um par de muletas e uma lesão que podem impedir qualquer socialista de votar em Mário Soares.”
Quando Sócrates acabou o discurso, Soares foi ao palco ajudá-lo a descer do pequeno palanque e fez questão de o amparar até aos bastidores, o que criou alguma confusão a Elisabete, pois não sabia para que lado se virar para entregar as muletas sem tropeçar num dos dois. A coisa resolveu-se e Sócrates pôde então sentar-se e assistir a parte do discurso de Soares. Que, pela primeira vez, também não fez uma única menção a Cavaco Silva e quase que provocava algum burburinho na sala quando afirmou que, até ontem, o melhor dia da campanha tinha sido em Coimbra, na noite anterior. Mal se apercebeu de alguma agitação nas cadeiras, corrigiu logo a ideia: “Em Coimbra e aqui no Porto. (...) Este comício, aliás, dá-me a convicção de que vamos ganhar esta batalha.” Noutro ponto do discurso, Soares focou a agitação em torno da Procuradoria-geral da República para assegurar que tem confiança nos magistrados e na Justiça: “É preciso ajudá-los. É preciso acabar com as escutas telefónicas.”
A parte final do discurso foi dedicada ao apelo ao voto: “O nosso grande inimigo é abstenção.”
MELHOR
O passeio sufocante no mercado da Trofa.
PIOR
Soares: “É preciso acabar com as escutas telefónicas”.
PROMESSA
“Prometo fazer cumprir a Constituição”.
SECRETO
Filha. Isabel Soares esteve ontem ao lado do candidato do PS. De bandeira na mão, a filha de Soares tem-se deixado ver poucas vezes na campanha: “Tenho um colégio [Moderno, em Lisboa] para dirigir”, disse, frisando que não tem possibilidades de meter “férias ou baixa” para estar ao lado do pai.
AMIGO DE SOARES VOTA CAVACO SILVA
Soares deu ontem, de manhã, em Santo Tirso, um abraço ao amigo Eurico de Melo, um dos mais conhecidos militantes do PSD que está retirado das lides políticas.
Questionado pelos jornalistas sobre se o facto de ter acedido a deixar-se ver com Soares queria dizer que não votava em Cavaco, Eurico de Melo começou por qualificar a questão como “parva”. Soares sorriu e pediu aos jornalistas para não insistirem em incomodar “o amigo”. Minutos depois, porém, já sem a presença do ex-presidente da República por perto, o “vice-rei” do Norte, como chegou a ser conhecido, garantiu ao CM que vai votar, “como sempre”, no candidato apoiado pelo PSD, ou seja, Cavaco Silva.
Além do encontro com Eurico de Melo, Soares passou ontem a manhã às ordens das “organizações Narciso”. Narciso Miranda, como reconheceu ao CM, teve um “pouco de espaço de manobra” e concebeu, sem falhas, a ida ao mercado da Trofa, onde o candidato do PS teve o maior banho de multidão da campanha. Narciso, aliás, fez mesmo questão de estar constantemente a dar ordens aos seus homens. “Mais alto”, “agora”, “Soares é fixe”, Soares competente a presidente”, foram algumas das palavras que não se cansou de repetir durante quase uma hora.
MARCELO SÓ VÊ UMA SURPRESA
Marcelo Rebelo de Sousa fez ontem um balanço da primeira semana de campanha. Em declarações ao CM, considera que “a única surpresa é a subida de Manuel Alegre em relação a Mário Soares” [nas sondagens]. Insiste que acredita num resultado sem segunda volta porque o eleitorado está estabilizado. “Desde há meses”, argumenta.
A posição de Santana Lopes sobre o cenário de “sarilhos institucionais”, caso Cavaco Silva seja eleito, “não teve eco”, nem influenciou o eleitorado, afirmou o professor de Direito Constitucional. “Nunca teria”, prossegue o antigo líder do PSD, dado que o comentário foi feito num momento em que as sondagens não trazem grandes oscilações.
Questionado pelo CM sobre se Santana Lopes, ao pronunciar-se sobre Cavaco Silva em plena campanha eleitoral, quis responder ao candidato presidencial por este não o ter ajudado nas legislativas, Marcelo teve resposta pronta: “É que óbvio que é”. A polémica em torno das alegadas escutas às mais altas figuras do Estado também inviabilizou, na opinião de Marcelo, qualquer efeito das declarações de Santana Lopes na campanha eleitoral. “Apesar de nada ter a ver com a campanha”, acabou por marcar a semana, concluiu Marcelo.
NOTAS
O MOMENTO DE SAMPAIO
O presidente da República foi eleito há dez anos. Jorge Sampaio preferiu ontem assinalar a data em família a descansar, mas à Rádio Renascença recordou o momento como “naturalmente inesquecível”. Na mesma declaração acrescentou que sentiu orgulho, humildade e que pensou nos portugueses no momento da eleição. Sampaio foi eleito com 53 por cento dos votos.
"CAVACO DO AVESSO"
Alegre referiu-se a Louçã como o “Cavaco do avesso” e sugeriu que o dirigente do BE devia ter sido padre: “parece que errou a vocação”. Alegre reagiu assim às críticas feitas por Louçã às suas acções “em cemitérios e beijando estátuas” . “O dr. Francisco Louçã está a fazer ataques pessoais pouco compatíveis com a ética da esquerda”.
"CAMINHO DO INSULTO"
Louçã considera que “Alegre segue o caminho falso do insulto. Não perco tempo com questões menores. Foi um deslize do meu adversário, mas não vou alimentar a pequenez das rixas. Será que há um candidato que acha que uns votos são bons e os outros apenas ‘votozinhos’? As críticas que lhe fiz foram de natureza política”.
RENDIÇÃO SOCIALISTA
António Silva Meda, militante do PS com o n.º 55937 foi a grande surpresa do almoço no Pavilhão de Gaia organizado por Luís Filipe Menezes. Exibiu o cartão de militante do PS aos cerca de 3 500 convivas e até confessou que “gostava de ser expulso do PS”. O PS classificou o caso de pura encenação e lembrou que Meda já devia ter entregue o cartão.
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