A propósito do lançamento do seu livro “De Olhos Bem Abertos”, Manuel Maria Carrilho diz que Sócrates negou a crise com uma orientação suicida
O livro "De Olhos bem Abertos" que acabou de lançar é um balanço de um ciclo que se encerrou em Portugal também e do início de um novo ciclo. Porque é que sai agora?
Considerei que tem pertinência para o futuro e para o modo de pensar o futuro. É uma avaliação de um ciclo que se fechou. Há um ano publiquei outro livro na mesma editora que se chamava "E agora? Por uma nova república". Os dois livros representam a minha reflexão nestes últimos quatro anos, 2007 até 2011, em que fui seguindo acontecimentos nacionais e internacionais. Foi um período em que aconteceu muita coisa e mudou muita coisa...
Com um olhar muito crítico...
Procurando - e daí talvez o título deste livro - ler e compreender o que está para lá da visão imediata. Do que vemos todos os dias em que temos um fluxo de informação constante sem muitas vezes a poder compreender...
Quando diz que está de "Olhos bem abertos" quer dizer que há muita gente com responsabilidade política e em cargos executivos que está de olhos fechados para a realidade?
Há muita gente de olhos cerrados, de olhos fechados, muitos sonâmbulos, pouca lucidez e pouca realismo na política, pouco conhecimento também... tudo isso não ajuda, porque vivemos uma situação complexa... faz-me muita confusão ver discutir por exemplo a Europa do euro, que tem apenas 10 anos e verificar que a maior parte das análises desconhecem completamente a história destes 10 anos que é muito recente...
Diz que há um excesso de "financês" na política, também em Portugal...
É um dialecto que se generalizou. Com este livro preocupo-me em dar a minha opinião sobre como é que nós chegámos aqui, porque estamos numa situação muito complicada - nós Portugal e a Europa em geral - e como é que podemos sair daqui.
Como é que chegámos aqui?
O "financês" não ajuda, é mais uma consequência deste impasse, do modo como estamos a ler a situação. Chegámos aqui porque desde a revolução fizemos opções certas mas muitas opções estruturais erradas. Divido este período em várias épocas: um período de estabilização da democracia, de 74 a 1986, depois o período do chamado cavaquismo, de 85 até 95 praticamente, aquela década de Cavaco Silva...
Da política de betão como lhe chama?
Sim, mas não só. É uma década muito importante porque é a primeira vez que Portugal tem muito dinheiro de novo. Nós aí reencontramos com as nossas fontes imaginárias, de um financiamento milagroso, encarámos isso de uma forma muito irresponsável, muito adolescente, como uma mesada que nos davam, sem realmente ter projectos para aquele financiamento europeu. Ainda há dias li as contas apresentadas pelo presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, contas feitas da ajuda a Portugal desde 1986 até agora nós temos cerca de 8 milhões de euros por dia.
8 milhões de euros...
Na década de oitenta, o erro foi a grande aposta no betão, uma grande insensibilidade à qualificação, um turismo rudimentar, uma aposta na mão de obra desqualificada ou muito pouco qualificada.
Foram vários erros aliás bem diagnosticados pelo governo de António Guterres, ainda há dias lia o Contrato com os Eleitores e há um conjunto de diagnósticos que ainda hoje se mantém válidos. A questão da qualificação, da denúncia da política do betão, a importância da educação a sério, não é a do facilitismo que depois se seguiu, mas enfim, não vale a pena demorar sobre isso, os governos de Guterres correspondem a um período que teve muitos fracassos, sobretudo porque não teve maioria...
Compara esse período com o dos governos de Sócrates?
Não comparo...
Em relação a Sócrates fala de um deslumbramento tecnológico...
São diferentes. Eu acabei por sair no segundo governo de António Guterres muito desiludido, mas há um dado de facto que temos de reconhecer: foram governos sem maioria. Eu sei a dificuldade imensa de governar estando em minoria. Um governo de minoria é um governo a que tudo pode acontecer...
Tem uma preocupação no livro que é a existência de governos de minoria, que na Europa é impensável...
É impensável. Mas seguiu-se uma década perdida, dois anos de governo de centro-direita muito desorientados, uma saída intempestiva de Durão Barroso, Santana Lopes sem legitimidade. Não é um problema de primeiro-ministro mas de governo pouco legitimidade - e depois o governo de Sócrates que apareceu numa aura e que fez um ou dois anos reformistas, com esboço de algumas áreas importantes, mas que retomou no essencial mais uma inspiração cavaquista do que guterrista...
Ou seja...
Os grandes investimentos, as grandes obras a alavancar o desenvolvimento do país, um certo facilitismo, como Cavaco Silva facilitou o aparecimento sem grandes critérios das universidades. Assistimos a coisas semelhantes depois também no ensino secundário. Há na matriz do pensamento de Sócrates um grande deslumbramento com a finança, esse potencial do capitalismo financeiro que é completamente irmão gémeo do deslumbramento tecnológico. Achar que a tecnologização tem fins em si próprio e que traz em si própria a solução - e não o que são: instrumentos de um desígnio, uma visão ou uma estratégia...
Com os computadores Magalhães por exemplo?
Com os Magalhães passou-se o mais grave. Os professores não precisam de computadores numa aula para nada, nunca o pediram, foi uma operação de propaganda política, em que nunca um instrumento tecnológico deve entrar numa sala de aula sem ser solicitado por um professor. Distribuíram pelo país em condições numa operação propagandística que custou mil milhões de euros, sem nenhuma avaliação.
O deslumbramento de José Sócrates com a finança, tem muito também de relacionamento mais ou menos promíscuo entre as empresas e o Estado, que leva à corrupção dos agentes políticos?
Tudo isso é também facilitado por esta estratégia, de um mercado pequeno, onde justamente os agentes procuram viver das rendas que se vivem nesse mercado interno. Mais uma vez, este modelo económico acabou por criar abcessos de bloqueio ao desenvolvimento e, naturalmente, corrupção. Temos vários exemplos muito claros deste ponto de vista.
E como é se combate a corrupção?
O combate depende mais de vontade política e de meios do que de legislação. A legislação, se não há vontade política, há muitas maneiras de a bloquear. É precisa uma pressão grande, que hoje está a existir, porque a situação económica do país também ajuda a a isso, a um escrutínio... é demagógico mas põem-se a jeito...
O primeiro-ministro José Sócrates pôs-se a jeito e fechou os olhos a alguma promiscuidade entre negócios privados e poder político?
Eu distanciei-me muito cedo do estilo de governação. Em 2007 aconteceram eventos muito importantes, como o caso da licenciatura, mas é um ano que se compõe com o Tratado de Lisboa. Mas, a partir daí, a desorientação foi muito grande e, sobretudo, a partir de 2008. Marco muito esse ano.
Já eram visíveis os sinais da crise..
Eu, como muita gente, escrevi que era visível que o quadro de solução, o paradigma de soluções para o país que o Governo Sócrates tinha, estava em causa pela crise global. Já não era uma questão de opinião saber se o investimento público massivo como se pensava seria ou não. Era simplesmente reconhecer que se tornava com a crise global impossível. Negou-se a crise com uma orientação completamente suicida.
Mas disse isso no PS na altura?
Tudo o que lhe estou a dizer falei com o primeiro-ministro. Sobre o Magalhães, sobre o conúbio público-privado, falei com ele. Nunca pretendi outro papel que este, dou a minha opinião quando me pedem.
Apesar desses sinais tão visíveis da crise, continuou a mesma política?
Por incompreensão e impreparação. Como diz Henrique Neto, Sócrates era um homem profundamente impreparado para a função. O partido escolheu e o país escolheu, eu respeito. O modo como foi negada a crise de 2008 até ao limite do colapso do país, é aí que se vê a preparação de um homem político para enfrentar circunstâncias extraordinariamente difíceis. A primeira característica que mostra a preparação de uma pessoa é a sua abertura. Ao contrário do que muitas vezes se ouve nos media, que a determinação é que é importante, eu penso que depende: se é uma determinação de pura teimosia, de não ser capaz de ouvir os outros, isso traduz em geral é medo, impreparação.
Sócrates era um teimoso ou tinha medo?
No essencial, ele não se sentia seguro. Era uma pessoa que não estava segura das suas opções e adoptou um conjunto de dogmas.
Só ouvia algumas pessoas?
Só ouvia algumas pessoas, é um erro, não sei se está a repetir hoje o mesmo erro, que é fechar muito a leitura da realidade e achar-se que a bondade de uma política depende da determinação. A determinação na asneira é gravíssimo e Sócrates foi determinado na asneira. Parece que é uma receita que continua a fazer bastante sucesso em Portugal.
Escreve que tudo indica que a vida não vai ser fácil por causa da herança envenenada que António José Seguro recebe de José Sócrates. Como é que devia reagir a essa herança, por exemplo na votação do orçamento? Deveria abster-se ou votar contra?
Abster-se. O PS foi o partido de Governo responsável pela situação que tornou incontornável o memorando. Isso é que é a responsabilidade do PS. António José Seguro encara muito bem o PS como uma instituição muito mais importante que qualquer um de nós e tem de assumir as suas responsabilidades históricas. A situação que se criou é a mais grave a que se chegou pelo menos depois do 25 de Abril.
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