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Correio da Manhã

Política

Maria de Belém: "Sócrates esquecia-se de ouvir" (COM VÍDEO)

Deputada considera que António Costa seria uma mais-valia para o PS. Reconhece os erros do ainda primeiro-ministro e afirma que o pedido de demissão foi uma decisão acertada. “O partido precisa de reflexão”, defende
11 de Junho de 2011 às 00:30
ENTREVISTA, MARIA DE BELÉM, PS
ENTREVISTA, MARIA DE BELÉM, PS FOTO: Vasco Neves

Correio da Manhã – Por quem é que foi pressionada para avançar para a liderança do PS?

Maria de Belém – Não gosto do termo pressão. Fui instada por personalidades não só do PS mas também por pessoas que gostavam de ver alguma mudança nos partidos políticos.

– Mas pode avançar alguns nomes?

– Se as pessoas quiserem dizer, parece-me mais correcto. De qualquer das formas, significa uma mudança na sociedade portuguesa. É bom que as pessoas considerem que é algo positivo mais mulheres aparecerem nos partidos políticos.

– Num momento como este no PS, os dirigentes e militantes não deveriam estar todos disponíveis?

– Estou sempre disponível e sempre ao serviço, mas uma liderança partidária implica um conjunto de tarefas que não se adaptam tanto ao meu perfil.

– Quem é que neste momento reúne as melhores condições para ser secretário-geral do PS?

– Sou de uma esquerda não fixista, de uma esquerda aberta à mudança. De qualquer das maneiras, penso que é um bocadinho cedo, precisamos de nos informar primeiro.

– Mas entre Francisco Assis, António José Seguro e Vieira da Silva, em quem é que se revê?

– Trabalhei com todos. Com Vieira da Silva mais no Governo, depois António José Seguro como colega no Parlamento, e com Assis partilhei todas as direcções de bancada dele. Gosto de todos, mas estive mais próxima, nos últimos tempos, de António José Seguro e Francisco Assis.

– Francisco Assis é visto como uma solução de continuidade…

– Depende de quem se posicionar à volta dele. É preciso conhecer o programa.

– E como viu a recusa de António Costa?

– Era também um óptimo candidato, toda a gente lhe reconhece qualidades muito fortes. A capacidade de afirmação, a sua competência política, a grande estrutura, a experiência. É um valor do PS, mas ele entendeu também que não é o momento…

– Seria uma mais-valia para o PS?

– António Costa será sempre uma mais-valia. Tem o seu poder próprio, a sua influência própria. Retirou-se da liderança, mas continua a ser um militante indispensável. E o facto de as pessoas não avançarem directamente não quer dizer que não contribuam.

– Trabalhou com António Guterres e José Sócrates. Qual é o estilo de liderança que preferia agora para o PS: o de Guterres ou o de Sócrates?

–Às vezes, o nosso mal é não ter metade de cada uma das pessoas. António Guterres tem qualidades humanas excepcionais, por vezes o seu espírito dialogante levava-o a arrastar muito o processo de decisão. José Sócrates decidia logo, às vezes esquecendo-se de ouvir. Portanto, precisávamos de alguma simbiose destas duas personalidades.

– A corrida à liderança do PS decorre de um resultado que ficou aquém das expectativas, e que nos últimos anos só é comparável com os resultados conseguidos por Santana Lopes em 2005…

– Não acho que tenha ficado aquém das expectativas. Se nós analisarmos o que se passa à nossa volta na Europa, esta tragédia global, todos os partidos que estão no poder têm sido fortemente penalizados. Este resultado ficou dentro das expectativas que tinha. Quem está no poder é penalizado, mesmo que não tenha directamente a culpa.

– Mas reconhece culpas próprias do PS no Governo?

– As lideranças muito personalizadas têm vantagens e inconvenientes. Têm a vantagem de polarizar todas as críticas nessa pessoa e têm inconvenientes de, porventura, não se dar a noção de que há uma coesão mais alargada.

– Quais os principais erros de José Sócrates?

– Não gostaria de estar a falar sobre os erros. Sei que, nos partidos e na política, as pessoas conquistam peso específico criticando aqueles que estão no Governo. Eu critico nos órgãos próprios do partido o que tem a ver com a condução política. Critiquei na altura própria.

– Não pensa que, para avançar e deixar o passado, o PS precisa de fazer uma catarse, uma autocrítica?

– Isso para as pessoas da minha geração pertence ao ideário do maoísmo. Nós temos que aceitar as pessoas como elas são. José Sócrates foi também o líder que conseguiu para o partido a primeira e única maioria absoluta. As pessoas têm todas o seu lado positivo e o negativo. Nunca houve unanimismo, havia críticas, havia posições divergentes e foram assumidas.

– Mas nos últimos anos o PS não foi um partido a uma só voz?

– Houve essa tentativa.

– Por parte de quem? De Sócrates?

–Há uma tendência muito grande para quando as pessoas são ganhadoras reunirem à sua volta um conjunto de pessoas que lhes dizem que está tudo bem.

– Os ‘yes men’?

– Sim. A governação é tão pesada que as pessoas não conseguem perceber que os subservientes nunca são bons conselheiros. Normalmente são perniciosos. Nunca me deixei rodear por subservientes, porque são perigosíssimos.

– José Sócrates esteve rodeado de subservientes?

– Todos os líderes estão. Passos Coelho estará, Paulo Portas também. Todos os líderes acabam sempre por serem rodeados por pessoas que pretendem beneficiar com isso.

"TESTAMENTO VITAL É UMA NECESSIDADE"

CM – Concorda que, com o programa eleitoral do PSD, o Serviço Nacional de Saúde está em risco?

M.B. – O SNS não pode nem deve estar em risco porque é construtor da coesão social. Acho que os programas eleitorais não estão muito definidos desse ponto de vista, e era muito importante que houvesse uma clarificação.

– A troika também estabelece medidas para a Saúde...

– Medidas que não põem em causa a arquitectura do sistema, ao contrário do que tenho visto afirmarem. Pelo contrário. Vão sublinhar a importância dos cuidados de saúde primários como a base do sistema, a necessidade de que esses cuidados tenham um papel reforçado.

– A lei do testamento vital tem a sua assinatura. Qual o ponto da situação?

– Fui fustigada quando a apresentei. A lei foi entendida como uma eutanásia encoberta. Não tem nada a ver. Na altura, o Conselho Nacional de Ética pronunciou-se contra, estávamos no fim da legislatura e decidimos passar para a seguinte, em que apareceram já quatro projectos. O que significa que, do CDS ao BE, já há um entendimento muito alargado, já não é uma questão polémica, é uma questão necessária.

PERFIL

Maria de Belém, 61 anos, é licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Jurista, deputada do PS desde 1999, liderou os ministérios da Saúde e da Igualdade em governos presididos por António Guterres. Foi condecorada com a Grã Cruz da Ordem de Cristo.

ENTREVISTA MARIA DE BELÉM PS
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