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Correio da Manhã

Política
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MAS QUE RICO PARTIDO

Os automóveis estacionados junto das sedes da Nova Democracia sempre que aí decorre alguma iniciativa não deixam margem para dúvidas. Os Saab, Mercedes e Volvos mostram que Manuel Monteiro está rodeado de gente bem colocada na vida.
27 de Abril de 2003 às 00:00
Empresários de sucesso, professores universitários, economistas e advogados. Pelo meio, alguns apelidos de peso na sociedade, como Jardim Gonçalves. É este o perfil dos novos ‘monteiristas’.
Uns já têm experiência política, mas outros estão a entrar nas lides partidárias pela primeira vez. É o caso de Manuel Ramalho, um empresário que, aos 45 anos, começou a sentir “apelos de cidadania”. Amigo de Monteiro há mais de 20 anos, é o exemplo de um empresário de sucesso, ligado ao sector do imobiliário, editorial e saúde. Confessa que embarcou nesta aventura por amizade ao futuro líder, mas garante que continuará na Nova Democracia com alguém que lhe inspire “o mesmo grau de confiança”.
A desilusão com a política actual é também um sentimento comum aos novos ‘monteiristas’. José Fernando Gonçalves, professor da Faculdade de Economia do Porto, nunca teve qualquer actividade política, mas juntou--se agora a Monteiro porque quer “combater a ideia de que os políticos são pessoas que apenas vivem de expedientes”. Quanto aos que já tiveram experiência política antes de aderir à Nova Democracia, as suas origens são as mais diversas. Monteiro não se cansa de dizer que o novo partido está aberto a todos e, assim, não é de estranhar que se encontre alguém que já foi do PS.
Paulo Ferreira da Cunha, professor da Faculdade de Direito do Porto, explicou que aderiu a este projecto porque ele “revoluciona esquemas mentais”, nomeadamente “a velha divisão entre direita e esquerda que já não faz sentido”. Sempre ligado a partidos de esquerda esteve também o arqueólogo Luís Osterbeek. “Há uma base mínima de convergência em torno de princípios básicos que são património comum a todos os democratas, depois disso preocupamo-nos com questões concretas do País, independentemente de divisões”, explicou.
Já a economista Maria Augusta Gomes foi militante do PSD, embora nunca se tenha dedicado à política activa. Confessa que esteve sempre ao lado de Monteiro por amizade, mas agora está disposta a ir mais longe. “O País precisa de alguma coisa nova e Monteiro é a pessoa indicada”, afirmou. Mas é claro que Monteiro também tem consigo antigos militantes do CDS. Luís Bigotte Chorão foi seu companheiro na JC, onde conheceu os sempre “monteiristas” Jorge Ferreira e Gonçalo Ribeiro da Costa. Este jurista consultor do Banco de Portugal, entrou no partido com Lucas Pires e saiu quando Freitas do Amaral reassumiu a liderança. Foi apoiante de Soares na candidatura à Presidência e depois de Sampaio. Está de regresso à política porque entende que “há um espaço de intervenção que não está ocupado”.
Entre os novos ‘monteiristas’ encontra-se também Filipe Jardim Gonçalves, filho do patrão do grupo BCP. Com apenas 33 anos, pertence a um grupo económico que detém diversas empresas, mas não sabe se o seu nome poderá trazer boas ou más “influências” para a Nova Democracia. Embarcou na política não só por amizade a Monteiro, mas também porque “chegou a hora de fazer algo para mudar o País, não é só passar a vida a dizer mal”.
DIRIGIDO PARA A CLASSE MÉDIA
Manuel Monteiro assegura que os nomes e as profissões de alguns destes novos "monteiristas" podem transmitir uma ideia errada do que é, ou será, a Nova Democracia. Em declarações ao CM, o futuro líder do novo partido garante que não se trata de uma força política constituída por ricos e muito menos vocacionada para as classes mais abastadas. Bem pelo contrário, "estamos orientados para a classe média".
Monteiro reconhece que à primeira vista é fácil cair na tentação de considerar que os seus novos apoiantes são pessoas com nível de vida muito acima da média que pouco conhecem da realidade do povo português. "Eu não peço as declarações de rendimentos às pessoas que me acompanham", explica, "sei que há pessoas oriundas de famílias mais abastadas, mas a grande maioria são pessoas que vivem do seu trabalho".
"Não podemos dizer que um professor universitário é rico", acrescenta. E no que diz respeito a alguns dos empresários de sucesso que o acompanham não se coíbe de dar até exemplos concretos. " Manuel Ramalho é um empresário bem sucedido, é verdade, mas o que conseguiu foi à conta do seu trabalho, não é filho de gente rica". E o próprio Filipe Jardim Gonçalves, "é certo que o seu nome lhe deve ter aberto algumas portas, mas ele também vive do seu trabalho, ainda não herdou a fortuna do pai".
“Se a Nova Democracia fosse um partido de ricos eu não poderia lá estar, porque, como toda a gente sabe, eu não sou rico”. Assegurando que sabe bem o que é viver com dificuldades, recorda que o seu pai, oriundo de uma família com dez irmãos, começou a trabalhar aos 13 anos, como ajudante de merceeiro.” Vivi numa casa de 2 assoalhadas, sem um quarto só para mim e eu sei o que são as dificuldades do povo, não me tentem por esses rótulos”.
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