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Correio da Manhã

Política
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Morreu Mário Soares, o presidente "fixe"

Antigo Presidente da República morreu este sábado em Lisboa, aos 92 anos. Governo decreta três dias de luto nacional.
José Carlos Marques 7 de Janeiro de 2017 às 15:42
Mário Soares em fevereiro de 1986
Mário Soares em fevereiro de 1986 FOTO: Guilherme Venâncio/Lusa

O antigo Presidente da República Mário Soares morreu este sábado no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa. Soares estava em coma profundo. Internado desde o dia 13 de dezembro, o antigo Presidente estava, desde o Natal, na unidade de cuidados intensivos, depois de ter entrado num estado de coma profundo. Antes, chegou a registar "ligeiras melhorias" do estado de saúde, mas o antigo Presidente da República perdeu a consciência depois do Natal e não recuperou. O Governo decretou três dias de luto nacional.

Desde as 10h00 deste domingo que a sede do PS abriu portas para receber personalidades portuguesas e anónimos que queiram deixar uma mensagem no livro de condolências à família. 

O corpo de Mário Soares saiu do Hospital da Cruz Vermelha pelas 18h30 deste sábado. As cerimónias fúnebres iniciam-se na segunda-feira. O corpo do antigo Presidente da República vai estar em câmara ardente no Mosteiro dos Jerónimos a partir das 13h00. O funeral realiza-se na terça-feira, a partir das 15h30, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.

Oposicionista, preso político, deportado, exilado, revolucionário, deputado, primeiro-ministro, Presidente. Ao longo de 92 anos de vida, Mário Alberto Nobre Lopes Soares foi tudo isto e muito mais. Considerado por muitos o ‘pai da democracia’, rótulo que sempre recusou, alimentou ao longo da vida intensos ódios e paixões. Poucos lhe eram indiferentes.

Nascido em 1924, Soares cresceu no seio de uma família letrada e endinheirada. O pai, João, antigo padre e político da I República, fundou em Lisboa o Colégio Moderno e foi um reputado oposicionista de Salazar. A mãe, Elisa Nobre Baptista, era dona de uma pensão na Baixa Lisboeta. Soares cresceu a ouvir o pai discutir política com os amigos e cedo se tornou, ele próprio, um estudante contestatário.

Já com ficha na PIDE, casou-se na prisão com a promissora atriz Maria de Jesus Barroso, cuja carreira foi interrompida pela proibição de atuar em teatros do Estado - o que na altura era tudo para um artista. Juntos tiveram os filhos Isabel - hoje diretora do colégio da família e João Soares, político com uma vasta experiência ao serviço do PS.

Soares esteve  preso mais de uma dezena de vezes antes do 25 de Abril. Deportado, a dada altura para São Tomé, a revolução apanhou-o no exílio, entre França e a Alemanha, onde tinha fundado o Partido Socialista, em 1973. Ministro dos Negócios Estrangeiros dos três primeiros governos provisórios, teve um papel vital no processo da independência e descolonização das províncias ultramarinas portuguesas.

Soares foi por três vezes primeiro-ministro, sempre em governos minoritários. Em 1986, foi eleito Presidente da República, batendo Freitas do Amaral na mais renhida corrida presidencial de que há memória. Em Belém, foi um presidente popular, tendo capitalizado esse estatuto para minar os governos de maioria absoluta de Cavaco Silva, com quem sempre cultivou uma intensa inimizade, que era recíproca.

Depois de dois mandatos em Belém, Soares ainda foi eleito, em 1999, deputado europeu. Esteve cinco anos em Bruxelas, naquele que seria o seu último cargo político. Ainda tentou regressar a Belém em 2006, mas, apesar do apoio oficial do PS de José Sócrates, viu Cavaco Silva ganhar à primeira volta, com o seu amigo Manuel Alegre a ultrapassá-lo no segundo lugar por larga margem.

Soares deixa uma vasta obra literária, com cerca de 80 livros escritos, quase todos dedicados à causa a que se deddicou a vida toda: a política. Homem de cultura e das artes, privou com as grandes figuras mundiais do seu tempo e era uma das últimas personagens vivas da geração que construiu a União Europeia e assistiu ao fim da Guerra Fria.

Em 2013, Soares foi vítima de uma encefalite que o deixou muito debilitado. Recuperou, mas a morte da mulher, Maria de Jesus Barroso, no verão de 2015, seria bem mais difícil de digerir. Desde então, as suas aparições públicas tornaram-se cada vez mais raras.

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