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Correio da Manhã

Política
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Morreu o antifascista Manuel Ramalho Gantes. Tinha 93 anos

Iniciou em Coimbra nos anos 50 as suas atividades de oposição à ditadura.
Lusa 20 de Outubro de 2019 às 17:59
Manuel Ramalho Gantes
Manuel Ramalho Gantes
Manuel Ramalho Gantes
Manuel Ramalho Gantes
Manuel Ramalho Gantes
Manuel Ramalho Gantes
O antifascista Manuel Ramalho Gantes, que, enquanto estudante universitário, iniciou em Coimbra nos anos 50 do século XX as suas atividades de oposição à ditadura, morreu este domingo aos 93 anos, informou a família.

Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra (FDUC), Manuel Gantes morreu este domingo na Vidigueira, distrito de Beja, sua terra natal.

Após ter estudado em Lisboa, matriculou-se na FDUC e foi na cidade do Mondego, então membro da República dos Kágados, que começou a assumir papel de relevo na luta contra o fascismo.

Nas eleições de 1958, esteve envolvido, durante uma primeira fase, na candidatura de Arlindo Vicente à Presidência da República, apoiada pelo PCP e outras correntes oposicionistas, mas acabou por se destacar na negociação que permitiu depois a desistência deste a favor de Humberto Delegado.

Há 61 anos, na passagem do chamado "General Sem Medo" por Coimbra, no auge da campanha eleitoral, o jovem estudante teve um papel decisivo na entrada de Delgado na cidade, praticamente sitiada por forças do regime ditatorial que tentavam impedir o candidato de chegar à Baixa.

No Calhabé, a PIDE, polícia política da ditadura, procurou demover a comitiva de prosseguir a marcha, alegando que não conseguiria chegar ao largo da Portagem, onde o "General Sem Medo" era esperado por milhares de pessoas.

Manuel Gantes, o advogado Alberto Vilaça e a mulher deste, Natércia, foram num carro à frente do descapotável do candidato presidencial, conduzindo-o por vias secundárias que a polícia política tinha deixado a descoberto, até chegarem à Portagem, onde ele foi recebido em festa pela multidão.

No jardim do Governo Civil de Coimbra, o então inspetor da polícia política José Sacchetti não conseguia disfarçar a sua frustração pelo feito de Humberto Delgado e seus apoiantes, de acordo com testemunhos da época.

Mais tarde, sempre que visitava a República dos Kágados, em dezembro, na festa anual ("centenário") da mais antiga comunidade estudantil da cidade, Gantes era frequentemente desafiado pelos jovens a contar esse e outros episódios da resistência ao Estado Novo, em que participou, em meados do século XX, tal como outros membros da casa, entre os quais Luís Filipe Madeira, futuro eurodeputado do PS, e o músico José Mário Branco.

Com a vida repartida entre Lisboa, onde residia, e a Vidigueira, Manuel Gantes visitou a casa pela última vez, em 2017, com alguns amigos desse tempo (como o médico Louzã Henriques, que morreu há três meses, em 29 de julho), numa festa que a República dos Kágados organizou na Serra da Lousã.

O corpo de Manuel Gantes encontra-se em câmara ardente, na Casa Mortuária da Vidigueira, devendo o funeral realizar-se na segunda-feira, às 16h30, para o cemitério local.
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