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Correio da Manhã

Política
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MOTA AMARAL FOI À ROÇA

Ir a São Tomé e Príncipe e não ver uma roça é como ir a Roma e não ver o Papa. O presidente da Assembleia da República compreendeu isso mesmo e aproveitou uma brecha no programa oficial da sua visita para dar um salto até uma destas extensas unidades de produção que durante o período colonial se dedicavam quase que exclusivamente à monocultura do cacau.
7 de Setembro de 2004 às 00:00
A escolhida foi a ‘Rio de Ouro’ – actual ‘Agostinho Neto’ – roça com mais de 400 hectares que está praticamente votada ao abandono. Mota Amaral bebeu religiosamente todas as explicações que lhe eram dadas, viu com olhos de ver a degradação do hospital e no final quase não tinha palavras para exprimir o que lhe ia na alma. “ É imponente”, confessou ao Correio da Manhã.
Infelizmente a visita à roça ‘Rio de Ouro’ – antes de ser nacionalizada após a independência pertencia ao marquês de Valflôr – durou pouco. Tão pouco que nem deu tempo a Mota Amaral para constatar a miséria que mora ali. Assim não pôde conhecer pessoas como Elisa, uma cabo-verdiana de 68 anos, há quase cinquenta em São Tomé e Príncipe, tão magra que até parece transparente. “Há três dias que eu não como”, afirma com lágrimas nos olhos. Como ela há milhares de outros cabo-verdianos que em meados do séculos passado rumaram a São Tomé como contratados numa situação de quase escravatura. “ Só tenho uma pensão de cem contos (cem mil dobras, ou seja, pouco mais de um euro) que não dá para nada”, acrescenta. Nem podia. E como ela já não tem forças para trabalhar vai morrendo devagar perante a indiferença de todos.
Aqui em São Tomé e Príncipe há quem defenda que o Governo português deveria ser responsabilizado pelo drama destes milhares de cabo-verdianos. Fala-se na necessidade de concertar posições mas enquanto isso não acontece o governo da Praia está a proceder a um recenseamento de todas as pessoas de mais de 65 anos residentes nas roças para lhes atribuir um complemento de reforma. “ É o mínimo que se pode fazer para minorar o sofrimento desta gente”, afirma o padre Brito, filho de um antigo contratado.
REFORÇAR A LUSOFONIA
O presidente da Assembleia da República está empenhado no reforço parlamentar da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. E fez questão de deixar isso bem claro na declaração final da sua visita oficial a São Tomé e Príncipe. Para Mota Amaral e o seu homólogo sao-tomense a coordenação entre os parlamentos de língua portuguesa “ é factor primordial ao fortalecimento da democracia e ao espírito de fortalecimento entre os seus Estados-membros.
É por isso que o presidente da AR considera fundamental que a IV reunião do Fórum dos parlamentos de língua portuguesa se realize este ano sem falta. Em princípio a tarefa está a cargo do Brasil. Mas Mota Amaral já fez saber que se tal não vier a acontecer, Portugal “disponibiliza-se de imediato a promover a sua realização”.
Ainda ontem foi assinado um protocolo entre a Assembleia da República de Portugal e a de S. Tomé e Príncipe, cujo objectivo é “reforçar a ordem democrática existente em cada um dos países e consolidar os laços culturais, de amizade, solidariedade e cooperação no domínio parlamentar”.
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