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Correio da Manhã

Política
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Não teve um gesto decente

A evocação do nome de Álvaro Cunhal por parte de Manuel Alegre deixou Jerónimo de Sousa à beira de um ataque de nervos. “Não teve uma atitude decente”, diz o candidato apoiado pelo PCP. Mas as críticas de Jerónimo estão longe de ser consensuais, tanto à esquerda como à direita. Nem dentro do próprio partido. Dias Lourenço, o outro preso comunista lembrado por Alegre às portas do Forte de Peniche, compreende a intenção.
10 de Janeiro de 2006 às 00:00
“No aspecto formal, tudo o que disse sobre mim e Álvaro Cunhal é verdade. O que Manuel Alegre quis foi aproveitar o facto de estar em Peniche e evocar os que estiveram presos. Falou de nós, como poderia ter recordado qualquer outro que tenha lá estado preso. Não levo a mal o que ele fez. Estive lá 14 anos e é perfeitamente normal que ele se tenha lembrado de mim. No PCP não caiu bem, porque isso foi usado como uma arma de arremesso eleitoral, o que não devia acontecer”, afirmou ao CM Dias Lourenço.
Um outro comunista, que pediu o anonimato, também ‘perdoa’ Manuel Alegre, ainda que tenha considarado inoportuna a intervenção. “É um homem afectivo, que tinha uma grande estima pelo Álvaro Cunhal. É um gesto de natureza afectiva. Mas, se estivesse ao pé dele, dizia--lhe para não o fazer, dado o contexto eleitoral. Em campanha, seria melhor não evocar, porque pode parecer um gesto político. Não foi feliz, mas o PCP não se considera dono do Álvaro Cunhal. Alegre citou-o naturalmente, mas numa época errada.”
Ontem, em Buarcos, Manuel Alegre voltou ao tema. “Sim, é verdade que vivi na mesma casa de Álvaro Cunhal, foi em Argel”, explicitou ao CM, quando instado a pormenorizar a resposta que deu na sua intervenção de domingo à noite, em Santarém, às críticas de Jerónimo de Sousa.
Manuel Alegre enfatizou na altura que não tolera donos de combatentes da liberdade, como não aceita proprietários dos partidos, dos votos ou da República contra quem tem lutado nesta campanha das Presidenciais e puxou dos seus galões de muito mais antigo militante do PCP, com o qual rompeu muito antes de Jerónimo aderir ao Partido Comunista, já após o 25 de Abril.
Constrangido pela reacção sectária do actual secretário-geral do PCP, Alegre revela considerá-la absolutamente absurda. “Não tive nenhum propósito especial ao referir Dias Lourenço antes de Álvaro Cunhal”, retorquiu, perante a primazia dada ao militante comunista ainda vivo relativamente ao já falecido, nas evocações que incluíram também Manuel Serra, Varela Gomes e o militante do PS Edmundo Pedro.
“Tive e tenho as maiores relações de amizade com Cunhal e Dias Lourenço, guardo muitas cartas que o testemunham e até posso afirmar que sou o único autor vivo referido por Cunhal no seu livro sobre estética”, frisou Manuel Alegre, para quem tratar os cidadãos como propriedade de um ou de outro partido é absolutamente absurda.
Embora recusasse revelar a morada da casa onde viveu debaixo do mesmo tecto em Argel com Álvaro Cunhal, Manuel Alegre adiantou ainda que esteve várias vezes com o líder histórico comunista em Paris e até em Moscovo.
A MEMÓRIA QUE VALE VOTOS
A guerra por causa da memória de Cunhal não é inocente. Em causa está também a caça aos votos do eleitorado comunista, que Jerónimo de Sousa tenta conservar para ficar à frente de Louçã, e Manuel Alegre tenta roubar para perseguir o segundo lugar de votos nas eleições do dia 22 de Janeiro.
Manuel Alegre é o candidato que mais votos comunistas tira a Jerónimo de Sousa. O eleitorado afecto ao PCP costuma ser o mais disciplinado, mas, de acordo com os dados da sondagem CM/Aximage, Jerónimo só garante 34,3 por cento dos votos obtidos pela CDU em Fevereiro do ano passado. É que 31,1 por cento dos votantes da CDU nas Legislativas está inclinado para a abstenção e 10,2 por cento diz que vai votar no poeta que já foi militante do PCP, mas que após o 25 de Abril se tornou uma figura histórica do PS.
Mário Soares, que nos anos 40 do século XX também foi um militante do partido comunista e que após o 25 de Abril foi um dos principais responsáveis pelo afastamento do PCP da esfera do poder, recolhe 7,3 por cento das intenções de voto, menos que os 7,6 por cento de outro candidato de esquerda, Francisco Louçã, que nunca foi militante do PC.
REACÇÃO DE CANDIDATOS E OUTRAS FIGURAS POLÍTICAS
"DENTRO DO TRAJECTO POLÍTICO"
Dado o trajecto de Alegre, Nuno Melo, do CDS-PP, entende que a evocação de Cunhal “não choca”, porque “os partidos não são donos das personalidades”. Nuno Melo diz também “perceber” a reacção de Jerónimo, “no contexto de campanha”, considerando “mais estranho” o encontro de Soares com Valentim. (Nuno Melo - Apoiante de Cavaco)
"É UMA MANOBRA TÁCTICA"
Uma “manobra táctica” é como José Lello classifica a atitude de Manuel Alegre. “Não percebo, mas não fiquei surpreendido”, disse. “Não sei quem beneficia com isto. Sei que o importante, neste momento, é ganhar o centro e esse trabalho cabe a Soares. Mas era mais fácil fazê-lo se Alegre não fosse candidato”, concluiu. (José Lello - Apoiante de Soares)
"COM SENTIDO DE INSULTO"
Para Jerónimo de Sousa, “Alegre falou tão mal de Álvaro Cunhal e do seu projecto que não teve uma atitude decente”. Mais: “Uma coisa são homenagens, legítimas e respeitadas, outra coisa é usar isso como instrumento eleitoral, em particular de quem se referiu com sentido crítico e muitas vezes com sentido de insulto”. (Jerónimo de Sousa - Candidato)
"NÃO DEVE SER TRUNFO ELEITORAL"
Sendo Álvaro Cunhal “uma figura histórica do PCP e da História política portuguesa”, Francisco Louçã diz que este facto “não deve ser um argumento eleitoral por si”. Até porque, frisa, “nos comícios do PCP canta-se a música de Sérgio Godinho, que não é apoiante de Jerónimo, e de José Afonso, que não era do PCP”. (Francisco Louça - Candidato)
"NÃO HÁ IDEIAS NOVAS"
“Estamos uma vez mais a bater completamente ao lado das questões fundamentais”, afirmou Garcia Pereira, considerando que a campanha eleitoral é feita através da discussão de projectos. “A questão é que nenhum desses candidatos tem uma ideia nova para fazer o País sair da crise que se encontra”, rematou. (Garcia Pereira - Candidato)
"ALTO VALOR SIMBÓLICO"
“Manuel Alegre foi militante comunista e privou com Álvaro Cunhal. A ida ao Forte de Peniche é de um alto valor simbólico”, considera o renovador comunista Cipriano Justo. “Jerónimo foi apanhado de surpresa. Teve uma reacção exagerada. A sua atitude, neste caso, só contribuiu para levar mais água ao moinho de Cavaco.” (Cipriano Justo - Renovador Comunista)
BOINA BASCA
Cavaco colocou ontem na cabeça uma boina basca, peça imortalizada por Che Guevara, revolucionário que o líder do CDS-PP, Ribeiro e Castro – apoiante do candidato social-democrata – considera “um dos grandes assassinos do final do século XX”.
A EQUIPA DOS CANDIDATOS
FIGURANTE DE BORLA (JANETE BENTO)
É loira, bonita, tem 25 anos, diz que estuda Psicologia e desde o primeiro minuto da campanha eleitoral que se deixa ver sempre que Mário Soares sai do carro com que está a percorrer Portugal. “Sou militante do PS e admiradora de Mário Soares”, disse ao CM, garantindo que não está a fazer de figurante por dinheiro: “Estou aqui porque gosto”.
DIRIGENTE REI DA ACADÉMICA (CAMPOS COROA)
Uma campanha com grande dignidade e elevação democrática é a aposta do apoio a Alegre expresso pelo médico Campos Coroa, o mais famoso dirigente do futebol da Académica de Coimbra do último quarto de século e seu presidente entre 1995 e 2002. Ele esteve ontem em Coja, na homenagem a outro médico, Fernando Vale, exaltado como exemplo de republicano, socialista e maçon.
O SÓCIO DO GENRO (ÁLVARO COVÕES)
Álvaro Covões, sócio do genro de Cavaco Silva, Luís Montez, na empresa Música no Coração, é o responsável pela produção de eventos na campanha. É ele que organiza os comícios, os jantares e dá o som, nomeadamente as condições acústicas para Katia Guerreiro cantar e Cavaco se fazer ouvir. Não é um estreante nestas andanças e já ajudou Cavaco em 1996. Diz-se independente.
ROSTOS
LISBOA NA FRENTE
Lisboa é o concelho com maior número de eleitores, com 530 742 votantes, seguido de Sintra, com 263 706, e Vila Nova de Gaia, que totaliza 233 722.
A MAIOR FREGUESIA
O concelho de Sintra tem a freguesia do País com maior número de eleitores: Algueirão-Mem Martins, com 46 052 eleitores inscritos para as Presidenciais.
PORTO É O QUARTO
O município do Porto surge em quarto lugar, com 233 669, seguido de Loures (157 423), Cascais (146 745), Amadora (140 540), Almada (139 830) e Oeiras (135 874).
COIMBRA EM 15º LUGAR
Coimbra é o 15.º maior concelho, com 123 421 inscritos, seguido do Seixal (115 250), St.ª Maria da Feira (112 460) e Odivelas (110 273), ficando aquém de cidades como Almada (139 830).
UM SÓ ELEITOR EM ZAGREBE
Os consulados do Zagrebe, na Croácia, e de Tunes, na Tunísia, têm apenas um eleitor inscrito para as Presidenciais. É no Rio de Janeiro que está o maior número de inscritos: 16 132.
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