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Correio da Manhã

Política
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Nuno Artur Silva vende empresa a sobrinho e amiga para entrar no governo

Ex-administrador da RTP viu-se obrigado a entregar Produções Fictícias à equipa que geria a empresa desde 2015.
Duarte Faria 24 de Outubro de 2019 às 01:30
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Ex-administrador da RTP viu-se obrigado a entregar Produções Fictícias à equipa que geria a empresa desde 2015.
Nuno Artur Silva já vendeu a Produções Fictícias (PF) - compromisso que assumiu para tomar posse como novo secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Media.

O negócio foi feito com o sobrinho, André Caldeira, e com a amiga Michelle Costa Adrião. Os dois asseguram a gestão da produtora desde 2015, ano em que Artur Silva entrou na administração da RTP: o primeiro como diretor-geral e a segunda como diretora financeira.

O acordo foi feito através da figura do ‘management buyout’, que prevê que os corpos de gerência comprem a empresa ao proprietário. Artur Silva detinha a totalidade do capital da PF: 150 mil euros em nome individual e 30 mil euros através da Seems, empresa gerida pela mulher, Ulla Madsen.

Questionado pelo CM, o argumentista não quis prestar mais esclarecimentos sobre o negócio e também não se pronunciou sobre se não considera haver um conflito de interesses pelo facto de uma empresa do setor que passa a tutelar ser detida por um familiar seu.

Ao que o CM apurou, nos últimos anos, a PF tem enfrentado inúmeras dificuldades financeiras. Quando Artur Silva tomou posse como administrador da RTP, o humorista João Quadros, que chegou a colaborar com a produtora, acusou o futuro secretário de Estado de a ter levado à falência.

"Ainda agora faliu a PF, agarrou logo outro tacho", escreveu no Twitter. Uma fonte que trabalha na empresa confirmou ao CM que o projeto fundado em 1993 tem enfrentado dificuldades, "ainda mais desde que deixou de ter a RTP como cliente".

PORMENORES
Regras da transparência
Do ponto de vista legal, este negócio não viola as novas regras da transparência para detentores de altos cargos públicos. A empresa poderá continuar a fazer negócios com o Estado.

Negócios com o Estado
A PF pode participar nos concursos do Instituto do Cinema e Audiovisual, tutelado pelo secretário de Estado, que gere o apoio financeiro ao setor. E fazer contratos com a RTP, o que não acontece desde que Artur Silva entrou na administração.

Contratos com o Estado renderam milhões de euros
Artur Silva foi afastado da RTP em 2018 devido a "conflito de interesses" por continuar a deter a Produções Fictícias. Tal como o CM revelou esta quarta-feira, nos últimos 10 anos, a produtora ganhou milhões de euros com o Estado. Só entre 2012 e 2014, a PF recebeu 5,3 milhões para a produção de 14 formatos da TV pública. E assinou contratos de mais de 100 mil euros, no total, com outras entidades públicas.

Negócio envolve várias empresas
Ao vender a Produções Fictícias, Nuno Artur Silva deixa também o canal Q e as subsidiárias O Estado do Sítio, que detinha com o ex-diretor de programas da RTP Daniel Deusdado, e F de Fábrica.
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