António de Spínola, desde que se demitira do cargo de Presidente da República, em 30 de Setembro de 1974, estava retirado na sua quinta de Massamá, nos arredores de Lisboa, amargurado com os destinos do País: era preciso “travar o avanço do comunismo” e colocar Portugal “nos eixos” – não se cansava ele de dizer à sua fiel corte que o servira nos campos de batalha da Guiné.
Comunistas e a extrema-esquerda pressentiam-no como uma ameaça, enquanto os conservadores mais impetuosos viam-no com a última esperança para um golpe. Cinco meses depois de ter abandonado o Palácio de Belém, o velho cabo de guerra encontrou motivos para se lançar num golpe. Na noite de 9 de Março de 1975, recebeu em Massamá a visita de oficiais amigos. Eles levaram-lhe uma arreliadora notícia: sabiam, através dos serviços secretos espanhóis, que a extrema-esquerda e o PCP tinham um plano para liquidar, em breve, uma centena de militares e civis: seria a ‘Matança da Páscoa’ – e, entre os nomes da lista, estava o de Spínola.
Oficiais spninolistas mais prudentes, como Almeida Bruno e Manuel Monge, também eles visados pela ‘Matança da Páscoa’, tentaram fazer ver ao general que não havia plano algum: a tenebrosa iniciativa não passava de uma armadilha, uma provocação, com o inconfessado objectivo de empurrar Spínola para uma aventura golpista. Mas o general, roído pelo imparável avanço do Partido Comunista, estava determinado a avançar. Na noite de 10 de Março, partiu de Massamá, disfarçado com barbas postiças, na companhia da mulher, a caminho da Base Aérea de Tancos, comandada pelo coronel Rafael Durão. O plano foi talhado à pressa.
No dia seguinte, cerca das nove da manhã, a força que iria desencadear o golpe estava pronta na pista de Tancos: 4 aviões bombardeiros T-6, três aviões Nordatlas de transporte e 150 pára-quedistas. O plano visa quatro objectivos: ataque ao regimento de Artilharia de Lisboa (RAL 1), na zona da Encarnação, em Lisboa; tomada do quartel-general da GNR; destruição das antenas do Rádio Clube Português, em Porto Alto; e ocupação do retransmissor da RTP, em Monsanto. Spínola fala às tropas revoltosas: o País “caminha para o abismo” e é urgente repor a “pureza” do 25 de Abril.
Aviões e helicópteros descolam de Tancos. Às 11h50, dois T-6 sobrevoam ameaçadores o RAL 1, enquanto a unidade é cercada pelos pára-quedistas entretanto desembarcados dos Nordatlas que aterraram na Portela. Sensivelmente à mesma hora são destruídas as antenas de Porto Alto, é ocupado o retransmissor da RTP em Monsanto e ocupado o quartel-general da GNR.
Os bombardeiros picam sobre a parada do quartel e largam algumas bombas: o ataque mata o soldado Joaquim Luís e faz onze feridos. Os pára-queditas revoltosos, encabeçados pelo coronel Mensurado e pelo capitão Sebastião Martins, passam para o lado das tropas sitiadas no regimento, sob as ordens do capitão Dinis de Almeida. Às 14h00, o cerco é levantado. O golpe de Spínola ficou irremediavelmente perdido.
Spínola ganhou fama na Guerra Colonial: primeiro em Angola, como tenente-coronel, à frente de um Grupo de Cavalaria; e a partir de 1968, na Guiné. Aqui, conseguiu as mais importantes vitórias militares. Era um homem talhado para as artes da guerra, mas um ingénuo nas manobras políticas. Faleceu em Agosto de 1996.
FUGA INGLÓRIA PARA ESPANHA
Ainda na tarde do dia 10, quando já se adivinhava o fracasso do golpe de Spínola, Otelo Saraiva de Carvalho, então graduado em brigadeiro e comandante do Copcon (Comandos Operacionais do Continente), fala ao País através da Rádio: “A situação está perfeitamente controlada, excepto no Quartel do Carmo, onde o comandante da GNR, Pinto Ferreira, continua sequestrado. Não hesitarei em lançar mão do auxílio precioso das massas populares” – avisa Otelo. Mas ao fim do dia, o primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, não poupa nas palavras.
“Uma minoria de criminosos lançou militares contra militares, o maior crime que hoje se pode perpetrar em Portugal”. Spínola, vergado e humilhado sob o peso da derrota, encontra refúgio em Espanha: foge, com a mulher e mais 16 oficiais, em quatro helicópteros para a base de Talavera La Real, nos arredores de Badajoz.
12 DE MARÇO
Assaltos a sedes do CDS e PPD, em vários pontos do País: os ataques, levados a cabo por militantes da extrema-esquerda, ocorrem um pouco por todo o País; começa a vaga de ocupações de casas e de empresas.
13 DE MARÇO
São exonerados todos os civis membros do Conselho de Estado, entre eles, Freitas do Amaral, então presidente do CDS; os irmãos Jorge de Mello e José Manuel de Mello, com interesses na indústria, construção naval e banca, são presos; esquadra da NATO aproxima-se da costa portuguesa.
14 DE MARÇO
Extinção do Conselho de Estado e da Junta de Salvação Nacional; é criado o Conselho da Revolução; é assinado o decreto-lei que nacionaliza a banca.
15 DE MARÇO
São nacionalizadas as companhias de seguros; manifestação junto ao Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República (general Costa Gomes) de apoio às nacionalizações.
16 DE MARÇO
Intersindical exige a “expropriação dos grande latinfúndios”; engrossa a vaga de ocupações; propriedades ocupadas no Alentejo; mais empresários presos no Forte de Caxias, nos arredores de Lisboa.
O GOLPE DE 11 DE MARÇO DE 1975
EXTRADIÇÃO
Portugal pediu ao governo espanhol que entregasse Spínola e o punhado de oficias insurrectos que o acompanharam na fuga.
DIPLOMACIA
Os governos de ambos os países chegaram a acordo: Espanha não entregava o general Spínola – mas não lhe daria asilo político.
EXÍLIO
O governo espanhol enviou Spínola e o seu grupo de oficiais, a bordo de um avião da Ibéria, para o Rio de Janeiro, no Brasil.
PROIBIÇÃO
As autoridades do Brasil não foram consultadas sobre a viagem de Spínola e não o deixam desembarcar no Rio de Janeiro.
ARGENTINA
O avião de Spínola vai para Buenos Aires: regressa ao Brasil após todos os acompanhantes do general terem pedido asilo.
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