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Correio da Manhã

Política
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OPOSIÇÃO CENSURADA

A oposição quis censurar o primeiro-ministro, mas acabou censurada. O facto de o PS, PCP, Bloco de Esquerda e Verdes terem recorrido à figura da moção de censura, apesar de saberem que desta iniciativa não resultaria qualquer consequência prática, foi aproveitado pelo primeiro-ministro para acusar a esquerda de “oportunismo político”.
27 de Março de 2003 às 00:02
Nos debates parlamentares sobre a guerra, os argumentos da oposição e do Governo repetem-se
Nos debates parlamentares sobre a guerra, os argumentos da oposição e do Governo repetem-se FOTO: Pedro Catarino
Durão Barroso não deixou passar em claro a desunião dos quatro partidos que não conseguiram entender-se em torno de um único texto e ainda teve tempo para recordar que o Governo do Bloco Central de Mário Soares vendeu armas ao Iraque.
A maioria parlamentar PSD/CDS--PP dava a garantia de que as moções de censura não seriam aprovadas, o que deu margem de manobra para Durão Barroso inverter os papéis e transformar o debate das moções de censura ao Governo num palco de críticas à oposição, muito especialmente ao PS. “As oposições procuram fazer confundir a censura da guerra com a censura do Governo”, afirmou o primeiro-ministro. “O seu verdadeiro objectivo é o de aproveitar de forma oportunista as preocupações da opinião pública para atacar o Governo e fazer um exercício de baixa política”.
Os quatro partidos acabaram por votar favoravelmente todas as moções, mas a desunião foi clara e Durão Barroso não deixou de usar este trunfo dado pela própria oposição. “Quatro partidos da oposição, quatro moções de censura. Cada qual a querer mostrar que é mais radical do que o outro”, afirmou o primeiro-ministro. Aliás, a falta de unidade na esquerda foi de tal modo notória que dentro do próprio PS houve acesa discussão em torno do sentido de voto. Deputados como Capoulas Santos e Rui Oliveira e Costa entendiam que os socialistas deviam votar favoravelmente apenas a sua própria moção.
Mas o PS foi mesmo o alvo preferido do primeiro-ministro, de tal forma que houve quem comentasse que Durão Barroso estava mais preocupado com os socialistas do que com a guerra ao Iraque. Acusou o maior partido de oposição de ser ter “lançado nos braços” do PCP e de viver em completo desnorte político. Como exemplo, lembrou que Ferro Rodrigues não esteve presente na primeira manifestação anti-guerra e acabou por participar na do último fim-de-semana.
Um dos argumentos utilizados pela oposição para criticar o apoio incondicional do Governo português à guerra no Iraque foi o de que esta “vassalagem” a George W. Bush enfraquece a posição de Portugal entre os seus parceiros da União Europeia. Mas até neste pormenor Durão Barroso teve sorte. Precisamente ontem foi divulgado que Portugal vai ter um director-geral na Comissão Europeia, algo que não acontecia há quatro anos. E é claro que Barroso não se esqueceu desse pormenor.
Num debate que tinha por objectivo censurar o Governo, acabou por se virar o “feitiço contra o feiticeiro”. E o pior é que foi a própria esquerda que deu todos os trunfos ao primeiro-ministro.
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