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Correio da Manhã

Política
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PJ procura xadrez em casa de Coelho

Três agentes da Polícia Judiciária (PJ) fizeram uma busca na casa do dirigente do PS, Jorge Coelho, em Sintra, no passado dia 24 de Outubro, à procura de um tabuleiro de xadrez. No final da visita, os agentes entregaram ao ex-ministro do Equipamento Social de António Guterres um documento a dizer que nada encontraram.
3 de Novembro de 2005 às 00:00
Jorge Coelho confirmou a visita da PJ à sua casa na Beloura, em sintra, na manhã do dia 24 de Outubro
Jorge Coelho confirmou a visita da PJ à sua casa na Beloura, em sintra, na manhã do dia 24 de Outubro FOTO: Mariline Alves
Tratou-se apenas de uma diligência processual e, conforme reza um comunicado da Procuradoria-Geral da República (PGR) ontem emitido, a investigação levada a cabo “não assentou em suspeitas que pudessem existir, de ilícito criminal imputável ao sr. Jorge Coelho”.
O caso tem contornos ainda muito pouco nítidos. Apenas se sabe que o misterioso tabuleiro de xadrez consta de uma alegada lista de prendas do empresário da construção civil Américo Santo que a PJ encontrou no seguimento da investigação de um dos processos que remontam a 2001 e que envolvem o construtor e o presidente da Câmara de Cascais, José Luís Judas.
O dirigente do PS confirmou ao CM a ‘visita’ dos agentes da PJ à sua residência na Beloura, em Sintra, dizendo que ficou incrédulo por procurarem um tabuleiro de xadrez em sua casa. Só podia ser uma coisa de diamantes... terá desabafado o ex-ministro, com ironia.
Jorge Coelho confirmou que conhece o empresário investigado há muitos anos, mas negou que ele lhe tivesse oferecido um tabuleiro de xadrez. Perante a fuga de informação e o impacto que estava a ter na Comunicação Social, o deputado do PS pediu à PGR que emitisse um comunicado a explicar o assunto e ele próprio fez uma declaração pública no Hotel Altis, em Lisboa.
“Neste caso, não há nada contra mim. Quero deixar bem claro que sou um cidadão impoluto e incorruptível”, sublinhou Jorge Coelho na dita declaração, saudando a nota emitida pela PGR a seu pedido.
Fica, portanto, por esclarecer o ‘lance’ da PJ e a importância do tabuleiro de xadrez num processo muito vasto de branqueamento de capitais, fraude e fuga ao fisco. O certo é que, para a PGR, a ‘visita’ dos investigadores “se mostrou justificada no âmbito dessa investigação”.
PERCURSO PROFISSIONAL
Américo Santo nasceu em Chão de Couce, distrito de Leiria. Filho de um comerciante de azeite e de uma doméstica, funda a construtora A. Santo em 1973. Muda-se para Cascais e é com José Luís Judas que constrói o seu império.
A Torre Miramar, em Carcavelos, a Quinta Alagoa, a Quinta do Rosário são alguns exemplos. Mais, avança no loteamento e venda de terrenos a outros empresários do ramo, exigindo-lhes como contrapartida pequenas fracções para venda. As grandes obras, como a Quinta do Rosário, com 979 fogos, e a Quinta da Granja, com 287 fogos, culminam um percurso que lhe permite fazer fortuna.
Apesar de declarar quase 100 mil euros por ano de rendimento bruto entre 1997 e 1999, a investigação do Ministério Público detectou uma circulação de mais de 20 milhões de euros nas contas dos empresários.
A RELAÇÃO COM O EMPRESÁRIO
Em 1998, Jorge Coelho era ministro-adjunto do primeiro-ministro, António Guterres, e tinha sob a sua alçada a Administração Pública do Executivo. Nesse ano, o Estado português comprou o edifício onde funciona a Loja do Cidadão das Laranjeiras, em Lisboa, por um milhão e 36 mil contos ao empresário Américo Santo. Uma resolução do Conselho de Ministros abdicou da consulta de mercado e autorizou a referida transacção, como relatou ‘O Independente’ a 20 de Maio deste ano. Coelho tem aliás um escritório num dos prédios da urbanização construída pelo referido empresário. Américo Santo, conhecido preferencialmente como A. Santo, chegou a trocar correspondência com o dirigente socialista, uma missiva onde lhe recordava um protocolo celebrado com a Câmara Municipal de Cascais sobre uma permuta de terrenos destinados à construção do novo hospital.
'O HOMEM DO APARELHO'
Desde os tempos de António Guterres, de quem foi ministro-adjunto quando este chegou a primeiro-ministro em 1995, que Jorge Paulo Sacadura Almeida Coelho, nascido em 1954, há 51 anos, é conhecido como ‘o homem do aparelho’ no PS.
Com Guterres, foi sucessivamente ministro-adjunto, da Administração Interna e do Equipamento Social, cargo de que se demitiu, após a queda da Ponte em Entre--os-Rios. “Comigo, a culpa não morre solteira”, afirmou então. Licenciado em Gestão de Empresas, e economista de profissão, Jorge Coelho foi coordenador das campanhas eleitorais nas legislativas, em que contribuiu para a primeira maioria absoluta do PS, e nas autárquicas.
Depois da derrota autárquica, Coelho cedeu o lugar de porta-voz da Comissão Permanente do PS (órgão de ligação entre o PS e o Governo) a Vitalino Canas. Além de deputado, pela terceira legislatura consecutiva, Jorge Coelho continua a ser o porta-voz da Comissão Política do PS. Recusou candidatar-se a secretário-geral do PS e à Câmara de Lisboa, neste caso “por razões de saúde”, assim como, ao contrário do esperado, não integrou o Governo de José Sócrates.
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