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Correio da Manhã

Política
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Portugal critica muro

Portugal vai subscrever hoje em Montevideu, capital do Uruguai, as críticas da Comunidade Ibero-Americana à intenção dos Estados Unidos de construírem um muro com cerca de 1125 quilómetros ao longo da sua fronteira com o México, para travar a entrada de imigração ilegal no território da maior potência mundial.
5 de Novembro de 2006 às 00:00
Ontem, o Presidente da República, Cavaco Silva, recusou a perspectiva e uma “União Europeia fortaleza”, num discurso perante os líderes dos 22 países da comunidade.
Luís Amado, ministro dos Negócios Estrangeiros, afirmou em Montevideu, capital do Uruguai, que, apesar de ser uma “questão do foro interno de um país”, a declaração final da cimeira, que termina hoje, fará “uma referência crítica” à iniciativa do governo de George W. Bush. “Sou contra a ideia de Europa fortaleza, uma ideia gerada pela pressão do fenómeno da imigração. Como tal, sou contra todos os muros”, sublinhou. E essa é uma ideia partilhada também por Cavaco Silva, quando recusou a perspectiva de uma União Europeia fortaleza.
Para o ministro dos Negócios Estrangeiros, a construção do muro na fronteira dos EUA com o México é “uma questão do foro interno de um país, que a tomou com total independência”, mas considerou que a perspectiva “correcta” de abordar a imigração ilegal, que afecta também a Europa, deve centrar-se sob o ponto de vista “do combate às crescentes desigualdades e do apoio ao desenvolvimento”.
Por isso, o ministro dos Negócios Estrangeiros frisou que o problema da imigração ilegal “não pode apenas ser olhado sob uma perspectiva reactiva e defensiva, como acontece relativamente à construção desse muro”, por parte do governo norte-americano. Hoje, os líderes políticos dos países da Comunidade Ibero-Americana vão apelar aos Estados Unidos para “que reconsiderem a construção do muro”.
Ao longo das negociações com os restantes países da Comunidade Ibero-Americana, Portugal e Espanha apresentaram “uma sensibilidade diferente” sobre o fenómeno da imigração, acabando por moderar o teor da declaração final. Por exemplo, países como o México, Argentina e Venezuela defendiam que os países receptores abdicassem da distinção entre imigrantes com documentos e ilegais, mas Portugal e Espanha foram contrários a isso.
Mesmo assim, as declarações de Luís Amado são claras sobre a mensagem para o futuro: “Não diria que a declaração final sobre migrações é politicamente correcta. A declaração é sobretudo exigente do ponto de vista das responsabilidades do sistema internacional, tendo em vista a correcção dos enormes desequilíbrios ao nível do desenvolvimento económico mundial.” O ministro frisou ainda que “a pressão migratória não poderá colocar em causa os níveis de bem-estar” alcançados no hemisfério Norte.
CAVACO APELA A MAIS ACÇÃO
O Presidente da República apelou ontem em Montevideu a “uma maior determinação para passar das palavras aos actos” nas relações entre os países que constituem a Comunidade Ibero-Americana. Usando a experiência da adesão de Portugal à União Europeia, Cavaco Silva afirmou que “a integração regional tem permitido esbater diferenças e ultrapassar conflitos”. E rematou: “Face aos desafios do nosso tempo, a defesa dos interesses nacionais passa, forçosamente, pelo diálogo com as outras nações e, quando os objectivos coincidem, pela acção concertada”. O Chefe de Estado e o primeiro-ministro, José Sócrates, reuniram-se ontem com o secretário-geral da ONU. Kofi Annan elogiou e agradeceu “a presença de Portugal nas missões de paz das Nações Unidas em Timor-Leste e no Líbano”.
PRESIDENTE E REI CONVERSAM
Depois da recente visita oficial a Espanha, Cavaco Silva e o rei de Espanha, Juan Carlos, encontraram-se ontem em Montevideu para uma conversa informal antes do início da sessão plenária da Cimeira Ibero-Americana dedicada às migrações e ao desenvolvimento.
Segundo fonte de Belém, após o almoço dos chefes de Estado e de governo, Cavaco Silva e Juan Carlos tencionavam passear pelas ruas do centro de Montevideu. “O Presidente da República e o rei de Espanha combinaram ter uma conversa informal. Já na sexta-feira [primeiro dia cimeira] tinham tido um breve contacto”, referiu a mesma fonte.
Cavaco Silva e Juan Carlos são os únicos fundadores da comunidade Ibero-Americana presentes em Montevideu. A primeira cimeira realizou-se em 1991, em Guadalajara, México, quando Cavaco Silva era primeiro-ministro. Antes deste encontro, Presidente e rei encontraram-se em Budapeste, quando a Hungria assinalou os 50 anos da revolta popular contra o regime comunista e a presença soviética no país.
DETALHES
ORGANIZAÇÃO FUTURA
Cavaco Silva anunciou ontem a disponibilidade de Portugal para organizar a Cimeira Ibero--Americana de 2009, proposta que mereceu consenso entre os países da comunidade, segundo fonte diplomática. A proposta foi apresentada na reunião plenária.
LÍDERES AUSENTES
Estiveram ausentes da cimeira os seguintes presidentes: Lula da Silva (Brasil), Fidel Castro (Cuba), Hugo Chávez (Venezuela), Oscar Berger (Guatemala), Enrique Bolanos (Nicarágua), Martín Torrijos (Panamá), Alan Garcia (Peru) e Leonel Fernandez (República Dominicana).
BARREIRA MILIONÁRIA
A construção de um muro com 1125 quilómetros na fronteira dos EUA com o México vai custar cerca de 6,3 mil milhões de euros. Cerca de dez milhões de mexicanos vivem nos EUA, dos quais metade são ilegais.
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