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Correio da Manhã

Política
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PORTUGAL SERÁ SOLIDÁRIO COM EUA

António Lourenço dos Santos, secretário de Estado da Cooperação e dos Negócios Estrangeiros, diz que os Estados Unidos contarão com a "solidariedade incondicional" de Portugal numa eventual intervenção militar na Coreia do Norte.
21 de Julho de 2003 às 00:00
Lourenço dos Santos insiste que o Governo português fez muito bem em apoiar a intervenção no Iraque e defende que o anúncio da construção de seis armas nucleares, feito por Pyongyang, deve preocupar seriamente a comunidade internacional.
"A Coreia do Norte é um país numa enorme fragilidade, situado numa região muito instável, e isso causa-nos grande apreensão. Se houver intervenção, terá a nossa solidariedade incondicional", diz. "O pós-guerra está a ser difícil no Iraque, pois trata-se de uma zona muito sensível do globo e, além disso, estão em interacção duas culturas muito diferentes. Mas nem coloco a hipótese de termos feito mal em apoiar a intervenção, pois foi uma opção geoestratégica decisiva para Portugal. Não podemos esgotar-nos na Europa. Há um eixo atlântico essencial para o nosso futuro."
Por isso, Lourenço dos Santos lamenta a recente recusa de Seixas da Costa ao convite para representante especial da União Europeia na Palestina, região de especial interesse para a política externa norte-americana e para os interesses da ordem internacional. "Foi um sacrifício pessoal e familiar excessivo da parte de Seixas da Costa. E a oportunidade não volta a aparecer", diz. Apesar de tudo, acrescenta, Portugal continuará decidido no trabalho diplomático que tem vindo a articular com os Estados Unidos, cujo exemplo máximo é o envio de um batalhão da GNR para o Iraque, actualmente em preparação. "Se houver baixas, há que compreendê-las. Todos os elementos são voluntários e sabem dos riscos que correm", frisa.
ÁFRICA COMO PONTE
É também para chegar ao mercado americano que Portugal reforçou esta semana os laços de cooperação com Cabo Verde, país que recebeu a visita oficial de Durão Barroso, quatro ministros, um secretário de Estado e 26 empresários e/ou gestores portugueses de topo. Como "exemplo de boa governação" e de "estabilidade democrática", e tendo em conta a sua condição de país pobre e africano, o arquipélago beneficia de isenções aduaneiras nas exportações para a América no âmbito do programa AGOA, que as empresas portuguesas relocalizadas em Cabo Verde podem explorar.
Portugal continua interessado em desenvolver as relações com todos os PALOP, nomeadamente no âmbito da CPLP, mas sente-se na obrigação de privilegiar por agora as relações com a Cidade da Praia. A cooperação com Angola está a avançar, mas Luanda continua ainda a viver o rescaldo de uma guerra civil fraticida; Moçambique demonstra toda a vontade em trabalhar com Lisboa, mas vive um processo de integração regional inevitável, tendo em conta a força político-económica da África do Sul; a Guiné-Bissau vi-ve um período expecialmente conturbado, mas sem violação das normas constitucionais, o que deixa o Governo português de pés e mãos atados; e São Tomé e Príncipe acaba de pôr em causa, com o golpe de Estado de quarta-feira, o acordo trianual de cooperação assinado há dois meses com Portugal.
Para entrarem com êxito em África, diz Lourenço dos Santos, as empresas portuguesas têm agora de responder ao desafio da criação de conglomerados económicos, como já fazem as concorrentes europeias e brasileiras. A tentação da corrupção é um problema, a economia paralela coloca os mais variados obstáculos, mas ser capaz de inovar pode fazer a diferença.
'TIMOR AINDA NÃO ESTÁ CONSTRUÍDO'
Lourenço dos Santos garante que o 'downsizing' das instituições internacionais em Timor está para já fora de hipótese. Ao contrário do que estava previsto, a presença da ONU e de Portugal em Díli tem de demorar necessariamente mais do que quatro anos. "É possível criar um Estado em quatro anos, mas não um país. Um país é muito mais do que pôr as instituições a funcionar", diz. Quando enfim estiver consolidado, Timor Lorosae será essencial para o reforço da CPLP, que o Governo português pretende fazer evoluir. "Começou por ser uma comunidade linguística e cultural, mas hoje é mais do que isso. Por exemplo, já é também uma comunidade empresarial, como se vê pelo Fórum Económico. Agora, temos de evoluir para dois outros conceitos: uma comunidade capaz de gerir cidadanias e com preocupações de defesa e de segurança comuns."
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