Barra Cofina

Correio da Manhã

Política
7

PS equaciona saída de Manuel Alegre

As relações entre Manuel Alegre e o PS após as eleições presidenciais são uma incógnita, mas há quem faça, desde já, uma avaliação. “Não tenho dúvidas de que haverá uma terceira volta das presidenciais dentro do PS”, afirmou ao CM um membro da comissão política.
29 de Dezembro de 2005 às 00:00
Manuel Alegre já teve melhores relações com a actual direcção do seu partido
Manuel Alegre já teve melhores relações com a actual direcção do seu partido FOTO: Estela Silva, Lusa
Para já, “há uma situação de grande crispação com Manuel Alegre na direcção e no grupo parlamentar e isso vai aumentar com o avanço da campanha”, acrescenta a mesma fonte. Daí que, acrescentou, a saída de Manuel Alegre do PS “é uma elevada probabilidade”.
A ruptura, frisa o mesmo responsável, só será evitável com “uma única excepção: Alegre ter um grande resultado e ficar à frente de Mário Soares”. Só que, a concretizar-se este cenário, será a própria direcção do PS a ficar em causa: “Isso significaria que os militantes do partido e o eleitorado em geral desautorizavam o PS e o seu secretário-geral [por terem apostado em Mário Soares como candidato para as eleições presidenciais].” E nessa situação, frisa a mesma fonte, “não sei qual seria a decisão de José Sócrates no dia seguinte”.
Na direcção do partido, dois dos seus membros, contactados pelo CM, recusaram que exista um plano para Manuel Alegre, desvalorizando a hipótese de saída do PS. “Essa matéria não foi discutida nas reuniões.” Contudo, um alto dirigente constatou: “A candidatura de Manuel Alegre prejudicou a candidatura oficial do PS”, apesar de não ter cometido “qualquer ilícito”.
A mesma fonte acrescenta que “desde que ele [Manuel Alegre] tenha a mesma actuação no Parlamento que teve aqui [antes da sua candidatura], não há problema nenhum”. Mais, o peso de Alegre no partido já foi avaliado em congresso.
Com a tensão a crescer entre Manuel Alegre e o PS, alguns elementos da direcção têm vindo a analisar as consequências resultantes de dois cenários pós-presidenciais: um em que Manuel Alegre obtenha mais votos do que Mário Soares e outro em que consiga menos votação do que o candidato apoiado pelo partido. Ainda na terça-feira passada, dia em que Mário Soares visitou em campanha o Alentejo, “comentou-se uma eventual cisão [entre Alegre e o PS] e verificou-se que não há um único deputado que esteja com Alegre”, confidenciou o mesmo responsável.
Há ainda um outro cenário: o de Manuel Alegre – caso venha a sair do partido – ter o apoio de alguns deputados e, deste modo, contribuir para travar a aprovação de alguns diplomas do Governo de José Sócrates. “Já viu o que era o Manuel Alegre ficar com a chave na mão para a governabilidade?”, questiona fonte do PS.
Certo é que, segundo vários socialistas, neste momento “o clima dentro do PS é muito difícil para o Alegre”. Ontem, teve em Portalegre cerca de 40 militantes socialistas a acompanhá-lo no distrito. E lançou mais uma vez farpas a Cavaco Silva e Mário Soares: “Portugal não precisa de um presidente que às quintas-feiras ensine o primeiro-ministro a resolver a crise económica [dirigido a Cavaco], mas também não pode ser um cargo vitalício”, numa alusão ao seu ‘amigo’ Soares. Antes acusou estes candidatos de serem os responsáveis pelo desperdício dos fundos comunitários nos últimos anos.
DEPUTADO MANTÉM-SE NO PARTIDO
“Manuel Alegre não comenta declarações anónimas”, conforme adiantou ao CM fonte da sua candidatura. Porque não pretende alimentar polémicas. O também deputado já disse que pretende manter-se no PS, partido para o qual entrou em Dezembro de 1974, recordou ao CM a referida fonte.
Manuel Alegre, recorde-se, foi sempre deputado, entre 1976 e 2002, pelo distrito de Coimbra e, a partir de 2002, pelo círculo eleitoral de Lisboa. É vice-presidente do Parlamento e concorreu, em 2004, à liderança do PS, tendo obtido cerca de 14 por cento dos votos.
CRONOLOGIA DA CRISE
21/11/2005 – Manuel Alegre relata a sua versão do convite de José Sócrates em entrevista à RR: “Quando chegou a altura de termos essa conversa [finais de Julho] e quando eu estava mais ou menos disposto a afirmar a minha disponibilidade, fui informado pelo eng. José Sócrates que o dr. Mário Soares lhe tinha afirmado que, se tivesse o apoio dele, estava disponível para ser candidato à Presidência da República e, sendo ele fundador do partido, ele [José Sócrates] achava que tinha ali um grande problema.”
22/11/2005 – José Sócrates desmente convite a Manuel Alegre: “A tese geral de que a candidatura presidencial de Manuel Alegre foi desconsiderada pelo PS só tem um problema: não corresponde à realidade dos factos.”
24/11/2005 - A versão de Mário Soares sobre o convite do líder socialista: “Eu apareço quando o eng. José Sócrates me convida e me diz: ‘veja lá, eu não apoio Manuel Alegre’. Acho que devia ser você.” E acusa o deputado e poeta de viver num “quadrado confuso”.
30/11/2005 – A ausência de Manuel Alegre na votação final do Orçamento de Estado para 2006 leva o PS a atacar Manuel Alegre. O porta-voz da Comissão Permanente, Vitalino Canas, declara: “Manuel Alegre faltou aos deveres dos deputados previstos no artigo 159.º da Constituição”.
10/12/2005 – Manuel Alegre recusa seguir a sugestão de Mário Soares de suspender a militância a exemplo de Salgado Zenha: “Não faço o que o doutor Mário Soares quer. Sei que está em dificuldades, mas vai ter de se aguentar.”
16/12/2005 – Manuel Alegre apresenta queixa à Alta Autoridade para a Comunicação Social contra a Eurosondagem. O candidato lança a suspeita de ligações entre o PS e a empresa de estudos de opinião, liderada por Rui Oliveira e Costa, por considerar que o especialista é dirigente socialista e apoiante de Mário Soares.
17/12/2005 – Alegre diz que irá até ao fim, depois dos pedidos de desistência à esquerda, feitos por Jorge Coelho: “Quem cometeu erros que os assuma e que dê a cara pelos erros que cometeu, mas em República não há presidentes coroados, em democracia não há coroações e em eleições democráticas não há vencedores antecipados.”
Ver comentários