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Quercus preocupada com "pressão política" sobre Instituto de Conservação da Natureza

Declarações recentes do ministro da Agricultura, que afirmou que leis que impedem concretização de projetos devem ser revistas, têm sido criticadas por vários quadrantes.

26 de janeiro de 2026 às 13:41

A associação ambientalista Quercus manifestou esta segunda-feira a sua "profunda preocupação" em relação à "pressão política" que considera representar um vídeo enviado pelo ministro da Agricultura aos dirigentes do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Em comunicado, a Quercus -- Associação Nacional de Conservação da Natureza considera que "o episódio do vídeo enviado pela tutela não pode ser minimizado como um mero lapso de linguagem", tratando-se "de um sinal político alarmante que põe em causa a autonomia técnica de um organismo que já sobrevive asfixiado pela falta de recursos humanos e meios logísticos".

Segundo uma notícia divulgada pelo diário Público, o ministro da Agricultura enviou um vídeo aos técnicos do ICNF, que emitem pareceres sobre o impacte ambiental de determinados projetos, no qual apela à proatividade e à necessidade de "bom senso" e moderação no processo de tomada de decisão.

José Manuel Fernandes terá defendido que, quando a legislação impede a concretização de projetos, deve-se questionar se a lei faz sentido, lembrando que esta pode ser alterada.

Para a Quercus, "a sugestão de que a 'sensatez' possa prevalecer sobre o cumprimento rigoroso da lei representa uma fratura conceptual perigosa".

"Num Estado de Direito, a legalidade ambiental não é uma sugestão maleável, mas sim o único referencial da ação administrativa", salienta, acrescentando que "o ICNF não é um 'facilitador' de projetos nem de negócios".

Os ambientalistas adiantam que "pressionar o instituto para 'facilitar' ou acelerar processos à custa do rigor técnico é desvirtuar a sua missão fundamental e expor o território a riscos irreversíveis".

As declarações de José Manuel Fernandes já foram criticadas, nomeadamente pelo PS e pela associação ambientalista Zero, que considerou que "colocam em causa o estado de direito e violam o Código de Conduta do Governo", representando "um ataque inédito à dignidade das instituições de conservação da natureza".

"Para a ZERO, este comportamento não constitui apenas uma quebra de protocolo, sendo um ataque direto à autonomia técnica da Administração Pública e uma violação das normas que regem o exercício de cargos políticos em Portugal", referiu em comunicado.

Quanto ao PS, acusou o Governo de exercer uma "pressão ilegítima" sobre as entidades responsáveis pelas avaliações de impacte ambiental e pediu a audição urgente no parlamento do ministro da Agricultura e Pescas.

Considerou que o ministro quis que o ICNF "aprovasse o que a lei não concede" e transmitiu que, nas situações limites, o executivo "mudará a lei para aprovar projetos concretos que não cumpram os atuais parâmetros legais, nacionais e internacionais de defesa da biodiversidade de conservação da natureza".

O ICNF é tutelado pelos ministérios do Ambiente e Energia e da Agricultura e Pescas, o que a Quercus considera "um erro estrutural profundo" por, entre outros problemas, subordinar "a biodiversidade a interesses produtivistas que deveriam, eles próprios, ser regulados pela tutela ambiental, enfraquecendo assim o ambiente perante todos os interesses".

A associação apela ao Governo para que "assuma o seu papel de guardião da legalidade ambiental" e respeite, "sem reservas a independência de quem tem a missão de defender o património natural" do país.

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