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Correio da Manhã

Política
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"Quero uma maioria clara e absoluta"

Passos Coelho pede pela primeira vez a maioria absoluta. Para não ficar dependente das negociações com o CDS de Portas
3 de Junho de 2011 às 00:30
PASSOS COELHO, ENTREVISTA, ELEIÇÕES, LEGISLATIVAS
PASSOS COELHO, ENTREVISTA, ELEIÇÕES, LEGISLATIVAS FOTO: Nuno Fernandes Veiga

Correio da Manhã - Diz-se que os políticos são todos iguais, mas o senhor afirma-se como um político diferente. Em que é que o senhor é diferente dos outros?

Pedro Passos Coelho - Fui diferente enquanto liderei o PSD na oposição. Não negociei lugares no Governo ou na administração quando tive de cooperar para evitar que Portugal chegasse a uma situação de bancarrota, como afinal chegou porque o Governo não cumpriu o que acordou connosco. Estive à frente do maior partido da oposição a pensar menos nos votos...

- É habitual os políticos terem um encontro com o presidente do Grupo Espírito Santo, Ricardo Salgado, antes de serem líderes ou candidatos a primeiro-ministro. Já teve esse encontro?

- Não, não tive. Ricardo Salgado falou comigo, como falou com o Presidente da República, como muitos outros banqueiros procuraram falar e recebi-os...

- Está imune a essas pressões?

- Recebi-os na sede, porque o PSD tem uma postura de abertura à sociedade civil e a todos. Recebi-os, ao presidente do Grupo Espírito Santo e a outros grupos financeiros, ouvimos as suas preocupações e decidimos de acordo com a nossa cabeça. O PSD não tem nenhuma dependência de nenhum grupo económico em Portugal.

- Disse também que a Justiça é um dos grandes problemas do País. Como é que se combate a corrupção e os crimes de colarinho branco em Portugal?

- Combatemos a corrupção lutando pela transparência do Estado. O Estado é tanto mais transparente quanto mais simplificação administrativa tivermos, quanto menos entidades se tiverem de pronunciar num processo de licenciamento ou de decisão, quanto mais for possível responsabilizar pouca gente pelas decisões que se tomam. Se queremos combater a corrupção em Portugal, a primeira coisa a fazer é tornar o Estado mais transparente e as decisões mais próximas dos que procuram a administração.

- Quanto mais empresas públicas, mais corrupção?

- Sem dúvida. Mais são as oportunidades para essa corrupção, não tenho dúvidas.

- Os portugueses admiram-se que não existam políticos condenados em tribunal. Será Portugal um país mais puro do que os outros?

- Não, eu penso que em Portugal precisamos de ter mecanismos mais transparentes e uma maior separação entre o que é a esfera do governo e aquilo que é intervenção do governo na administração - e da administração em relação ao Estado. Em primeiro lugar, não enxameando a administração de lugares de nomeação do governo... não levando os militantes dos partidos para esses lugares...

- Se vencer as eleições e for primeiro-ministro não vai ter ‘boys'?

- Não. Precisamos de despartidarizar a nossa administração e de desgovernamentalizar o Estado, porque o Estado está muito além dos governos - e precisamos de desestatizar a sociedade...

- O que irá fazer se tiver de estabelecer uma coligação com o CDS e rebentar de novo o caso dos submarinos nesse Governo, com o dr. Paulo Portas?

- Tenho de partir de um pressuposto: é que só quando alguém é acusado de alguma coisa ou é constituído arguido é que podemos ter uma noção sobre o que passa. Não posso estar a especular sobre qualquer envolvimento seja de quem for em processos que ainda não estão em fase de acusação...

- Foi aumentado o prazo em dois anos para o segredo de justiça, depois da carta rogatória que veio da Alemanha...

-Isso significa com certeza que o juiz nesse processo acha que é importante investigar melhor antes de dar o caso por encerrado. Não me quero pronunciar sobre matérias que estejam em segredo de justiça. O que posso dizer é que o próximo Governo tem de ser forte e coeso. Temos nos próximos três anos uma dimensão quase hercúlea e o Governo não pode falhar. Tudo aquilo que for objecto de compromisso entre o Estado português, a União Europeia e o FMI tem de ser integralmente respeitado. Para salvar Portugal e tirar Portugal desta situação de bancarrota, mas também para poder ter nos mercados confiança. Se o Governo falhar, é o País que falha.

- Vai pedir uma auditoria às contas do Estado se for primeiro-ministro?

- Vou responder à sua pergunta, mas a primeira coisa quando dizemos que não podemos falhar e precisamos de ter um Governo coeso, é legítimo que o PSD possa pedir ao eleitorado uma votação muito larga que dê uma maioria absoluta...

- Está a pedir uma maioria absoluta?

- Uma maioria absoluta para o PSD. Se ficarmos dependentes de uma negociação, com dúvidas sobre se existirá um acordo de coligação ou de apoio parlamentar, como o próprio líder do CDS veio agora colocar em cima da mesa, arriscaremos mais e poderemos não ter...

- Quer uma maioria absoluta?

- É legítimo, não pensando no PSD mas no País, que eu peça essa maioria absoluta ao eleitorado.

- E se não tiver?

- Vai ser mais complicado. Mas serei primeiro-ministro se vencer as eleições. Se não tiver essas condições, tentarei com as condições que o eleitorado me der.

- Mas será com o CDS-PP?

- Já o disse. Mas tenho concentrado toda a minha intervenção para mobilizar o País para a mudança. Para mudar de governo e mudar Portugal. É por isso que peço uma maioria clara e absoluta aos portugueses.

- Para que exista essa mudança não é necessário que se conheça toda a verdade sobre o estado do País?

- É inevitável. Nós não podemos fazer de conta e andar a mascarar as contas. Não vou esconder nada.

- Compromete-se a dizer aos portugueses, se for primeiro-ministro, qual é o estado das contas públicas?

- Mais do que isso. Apresentaremos ao Parlamento uma proposta para criar um Conselho de Contas Públicas que inclua responsáveis estrangeiros que venham dar total credibilidade e transparência às nossas contas públicas.

- Já disse que não vai formar governo com o PS de José Sócrates, mas não admite, se ganhar as eleições sem maioria, formar governo com um PS sem Sócrates?

- Seria trágico que a constituição do próximo Governo dependesse do apoio expresso do Partido Socialista. Porque não permitiria ao País perceber que programa foi sufragado. Não faço governo de saladas russas. Aquilo que espero do PS é que, uma vez na oposição, cumpra aquilo que negociou e assinou em nome do Estado português.

- Tendo em conta que a redução da Taxa Social Única tem de ser adoptada até Julho, tem alguma informação sobre se o Governo está já a preparar essa medida?

- Espero bem que o Governo tenha já tomado a iniciativa junto do Ministério das Finanças e da administração do Estado para desencadear o processo de estudo que é preciso realizar para preparar essa decisão.

- Não tem nenhuma informação?

- Não tenho nenhuma informação sobre isso.

"FALAREI COM CAVACO SOBRE PINTO MONTEIRO"

CM - A Justiça é um dos grandes problemas do País. O que vai fazer para mudar?

Pedro Passos Coelho - A Justiça precisa de ser independente. Para esse efeito não podemos deixar de manter a esfera do Governo fora daquela que é a esfera da Justiça e dos tribunais...

É sabido que é crítico da forma como é nomeado o procurador-geral da República (PGR), que é indicado pelo Governo.

Pedro Passos Coelho - Propusemos na última revisão constitucional que o PGR continuasse a ser empossado pelo Presidente da República sob proposta do Governo, como é hoje, mas ouvido pelo Parlamento.

- E vai insistir nessa mudança?

Se houver consenso para mexer na Constituição, porque é preciso dois terços do Parlamento, poderia existir uma co-responsabilização do Parlamento na proposta ou pelo menos na audição daquele que vai ser o PGR. Mas o mais importante é que, no que respeita ao Ministério Público, possa haver, ao nível do seu Conselho Superior, uma gestão mais eficiente do desempenho do próprio MP. Não é necessário um reforço dos poderes do PGR, mas tem de haver uma gestão mais eficiente...

- Mas vai pedir a substituição de Pinto Monteiro de PGR?

- A seu tempo falaremos disso...

- Por que é que não fala já?

- Porque é uma matéria que respeitará, em termos de governo, a uma alteração que é preparada com o próprio Presidente da República...

- Mas que conta também com a indicação do primeiro-ministro.

- Sim, mas há um procurador que está na posse do seu mandato...

- Procurador-geral da República a quem o senhor tem feito várias críticas em público...

- Críticas que são conhecidas e não tenho nenhum reparo a fazer ao que disse até aqui. O que farei é falar com o Presidente da República na altura própria sobre essa matéria.

- Irá sugerir outro nome?

- Não vou enviar um recado pelo jornal ao Presidente da República sobre aquilo que tencionarei falar com ele se ganhar as eleições e for indigitado primeiro-ministro.

PERFIL

Pedro Passos Coelho nasceu em Coimbra, no dia 24 de Julho de 1964. Estudou no Liceu Camilo Castelo Branco e licenciou-se em Economia na Universidade Lusíada. Entrou na JSD em 1978, com 14 anos, e foi líder da juventude laranja durante mais de cinco anos. Em 1991, é eleito deputado, nos tempos de Cavaco Silva, sendo reeleito em 1995. Foi membro da direcção de Marques Mendes e chegou à liderança do PSD no ano passado. 

PASSOS COELHO ENTREVISTA ELEIÇÕES LEGISLATIVAS
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