No rescaldo dos comícios que juntaram os líderes do PS, José Sócrates, e do PSOE, Rodríguez Zapatero, a campanha ficou ontem marcada pela discussão em torno do discurso do cabeça-de-lista do PSD às eleições europeias de 7 de Junho. A acusação de registo antiespanhol surgiu do adversário mais directo, o candidato independente pelo PS, Vital Moreira. Paulo Rangel, apresentado na Guarda como a "grande revelação" social-democrata, respondeu que "não há nenhuma atitude antiespanhola", mas tão-só a defesa do interesse nacional.<br/><br/>
Antes, Rangel voltou a prometer que interpelará o primeiro-ministro, José Sócrates, "todos os dias" da sua campanha. Ao ponto de o candidato ‘laranja’ esperar que a sua intervenção obrigue José Sócrates a "responder nas câmaras de televisão, na rua, nos espaços de campanha", afirmou, citado pela Lusa.
O cabeça-de-lista social-democrata insistiu, desta forma, na acusação de fuga aos debates quinzenais no Parlamento, numa réplica pela crítica de José Sócrates, feita no sábado, de "falta de jeito" dirigida à presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite.
Mais, o também líder parlamentar do PSD argumentou que a preocupação do seu partido não é o "jeito ou falta de jeito", mas a competência. Rangel, que passou parte do dia em Seia e em Gouveia, terminou a tarde de ontem na Guarda. Na ocasião, atacou o ministro da Agricultura e repetiu a ideia de "desperdício de fundos comunitários" no sector.
A agricultura também foi um dos temas fortes da campanha da CDU, com a cabeça-de-lista Ilda Figueiredo a exigir a reforma da Política Agrícola Comum (PAC).
Já o CDS-PP, que escolheu Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro, fez um discurso pela mobilidade social. "Aqui neste distrito, a maioria das pessoas que tem hoje uma empresa começou por ser trabalhadora. A maioria dos empresários começou por ser operária. E, através do acesso à educação, conseguiram ter a ferramenta que lhes permitiu ir longe", declarou Paulo Portas num distrito onde tem sido o cabeça-de-lista para as Legislativas. Ou seja, jogou pelo seguro.
Nuno Melo, o cabeça-de-lista do CDS-PP, avisou o primeiro-ministro de que o seu partido vai aos locais onde há problemas e deu-lhe um conselho: "Venha à rua em vez de sair a Espanha e tentar encontrar ali o que aqui não encontra."
O BE dividiu-se entre Peniche e Tomar. Miguel Portas acusou Vital Moreira e José Sócrates de insensibilidade social, depois de ter feito uma paragem numa vigília de trabalhadores da Platex, uma fábrica de fibras de madeira e que entra hoje em lay-off.
Em Beja, o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, acusou também o Governo de mentir sobre os números do desemprego, manipular as estatísticas e de não cumprir a promessa de criar 150 mil empregos.
PS COM SEGURANÇA APERTADA NO NORTE
"Com esta segurança..." Estas foram as palavras Vital Moreira para José Sócrates ontem em Santo Tirso, durante mais uma acção de campanha na rua para as eleições europeias. O candidato do PS referia-se às fortes medidas de segurança que rodearam a comitiva do PS, na qual mais uma vez Sócrates teve o protagonismo. O primeiro-ministro desfez-se em cumprimentos e apelou ao voto para o próximo período eleitoral.
NOTAS
APELO: FERREIRA LEITE
A líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, pediu no sábado à noite a unidade do partido para as eleições europeias, tal com o PS tem feito.
QUEDA: CAPOULAS SANTOS
Em Santo Tirso, a confusão foi tanta que Capoulas Santos, o director de campanha, caiu do pequeno palco móvel montado para os discursos.
FRASES DO DIA
"Não estávamos preparados para pensar que o PSD estivesse disponível para adoptar uma retórica de baixo nacionalismo." - Vital Moreira, Candidato do PS
"Acho que lhe disseram [Paulo Rangel] para comer mais farinha Maizena, fizeram uma publicidade barata – e basta olhar para ele para ver que ele não precisa." - Álvaro Amaro, PSD
"[Capoulas Santos] ficará para a história como mais um dos candidatos a coveiros da agricultura portuguesa." - Ilda Figueiredo, Candidata da CDU
"Olha o Pinóquio e o caso Freeport/que belo negócio/mas que grande sorte/(...) É a CDU que consola o Zé." - ‘Os Alentejanos’ CDU
NÓS, PORTUGUESES: MARIANA, A ÚNICA MENINA DA ALDEIA DA PENA
Nem eleições nem gripe nem nada. A mim, preocupa-me a minha vida e a família. Sobreviver aqui não é fácil", explica Alfredo Brito, 38 anos, um dos sete habitantes da Aldeia da Pena, São Pedro do Sul. Dantes, a aldeia era famosa pela história do morto que matou o vivo. Sem cemitério nem estrada de acesso, era preciso transportar os falecidos em urna até à vizinha Covas do Rio. Um dia, um aldeão deixou escorregar o caixão e este matou outro. Assim, o morto matou o vivo.
Hoje, a pequena aldeia é mais conhecida pela Mariana, nove anos, filha de Brito e que uma reportagem da RTP celebrizou. A Aldeia da Pena só resiste porque Alfredo, serrano da serra da Estrela e ex-cozinheiro em Lisboa e na Suíça, decidiu instalar-se de armas e bagagens na aldeia da esposa, criar ali a família e montar um restaurante. Amante da natureza, Brito viu a sua história de resistência rural ganhar impacto com a reportagem sobre Mariana, que já tem uma irmã, a Margarida, dois anos.
"Vem gente de todo o lado só para ver a Mariana ou trazer-lhe prendas. Não é fácil criar uma criança aqui. De Verão, isto é um espectáculo. De Inverno é complicado pois não há limpeza da neve. É quando aproveito para trabalhar em artesanato." A Aldeia poderia ter mais habitantes, mas as pessoas pedem muito dinheiro pelas casas, diz. "Se não estivesse aqui, a Aldeia já não existia." E a Mariana, "a menina da Pena", a primeira criança a nascer ali em 34 anos, também não.
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