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Correio da Manhã

Política

REDUÇÃO DE IMPOSTOS

O antigo primeiro-ministro Cavaco Silva apontou ontem o mercado espanhol como uma hipótese de recuperação da economia portuguesa e defendeu uma redução selectiva de impostos, nomeadamente as contribuições patronais para a Segurança Social, bem como acertos no IRS dos trabalhadores por conta de outrem.
7 de Março de 2003 às 00:26
Em entrevista à RTP, Cavaco Silva teceu rasgados elogios à ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite, no seu esforço de recuperação das finanças públicas, dizendo que ela está a desempenhar uma “tarefa patriótica”.

O professor de Economia entende que, tecnicamente, Portugal ainda não está em recessão, mas vive numa situação “preocupante”, já que caiu numa crise de finanças públicas, agravada pelos governos socialistas (pois adoptou uma política orçamental errada). Essa crise – explicou – pode ser observada pelo aumento do desemprego e do sobrendividamento das famílias e dos bancos.

Como saída para a crise, Cavaco aconselhou os pequenos e médios empresários do sector da exportação e do turismo a “olharem a Península Ibérica como um mercado único”. Em sua opinião, estes devem tentar recuperar quotas no mercado internacional, tentando, em especial, penetrar no mercado espanhol. Enquanto os empresários apostavam nessa frente, a atenção do Governo devia- aconselha Cavaco- ser orientada para a protecção social canalizando recursos para o combate ao desemprego. Neste âmbito, e como já se referiu, defendeu uma “baixa selectiva dos impostos, dando como exemplo uma redução das contribuições patronais para a Segurança Social e do IRS dos trabalhadores por conta de outrem. Neste particular, Cavaco elogiou o Presidente da República, Jorge Sampaio, que, recorde-se, em recente entrevista ao Diário Económico, defendeu também uma redução selectiva de impostos.

Para combater o défice, e dado que “já não há margem de manobra para aumentar a carga fiscal”, Cavaco ercomendou que cada ministério “devia ser obrigado a fazer mudanças e a dar o seu contributo para reduzir as despesas do Estado”.

O antigo primeiro-ministro lembrou que “foi um erro ter trazido para Portugal a organização do Euro-2004 e construir de raiz 10 estádios de futebol. “Os portugueses - observou- vão pagar por esse erro”. Disse igualmente que na actual conjuntura, embora não conhecesse bem o processo, o investimento no reequipamento das Forças Armadas “não era prioritário”.
Sobre a crise do Iraque, Cavaco revelou que , em geral, era contra a guerra, e desmistificou a ideia de que uma guerra poderia ser bom para a economia. “Uma guerra nunca é boa para a economia mundial, porque desvia recursos, afecta a confiança dos empresários e dos consumidores”, disse, explicando porquê no caso português: “Dependemos muito do petróleo; será mais difícil vender a nossa produção; teremos menos turismo e os empresários ficarão mais inseguros”.

Por último, Cavaco afastou qualquer possibilidade de regressar à vida partidária activa, e disse que ser candidato à Presidência da República “não fazia parte das suas aspirações pessoais”.

REACÇÕES

HASSE FERREIRA - PS

No meio de um raciocínio “subtil”, Joel Hasse Ferreira destaca, “com regozijo”, o facto de Cavaco ter reconhecido que o maior período de crescimento da economia ocorreu “entre 96 e 2000, ou seja, durante o primeiro Governo de António Guterres”. Depois de enfatizar que, do ponto de vista político, “Cavaco está demodé”, o deputado do PS classificou de “sibilina a diferença que o professor fez entre o défice estrutural e o défice contabilístico. Ao colocar a tónica no primeiro, enviou um expressivo recado a Ferreira Leite”.

TAVARES MOREIRA - PSD

Depois de admitir que a entrevista não registou “surpresa (a análise macroeconómica estava correcta)”, Tavares Moreira discordou apenas na articulação entre o crescimento da economia e a crise internacional.”Portugal só crescerá se a economia internacional recuperar, e não apenas por mérito próprio”. Quanto à eventual candidatura de Cavaco a Belém, o economista do PSD salientou que, “pelo que ouvimos, o enigma está para durar”.
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