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Correio da Manhã

Política
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"Se o vírus vir comunistas não entra": Festa do Avante! já começou

Na abertura, a lotação máxima permitida de 16 563 pessoas ficou longe.
Fernanda Cachão 5 de Setembro de 2020 às 01:30
Edição de 2020 ficará para a história: nunca houve festa como esta
Máscara era uma constante
Sinalética com as regras de circulação em todo o espaço da Quinta da Atalaia para o distanciamento social
Líder do PCP discursou no recinto, mas não no tradicional Palco 25 de Abril
Edição de 2020 ficará para a história: nunca houve festa como esta
Máscara era uma constante
Sinalética com as regras de circulação em todo o espaço da Quinta da Atalaia para o distanciamento social
Líder do PCP discursou no recinto, mas não no tradicional Palco 25 de Abril
Edição de 2020 ficará para a história: nunca houve festa como esta
Máscara era uma constante
Sinalética com as regras de circulação em todo o espaço da Quinta da Atalaia para o distanciamento social
Líder do PCP discursou no recinto, mas não no tradicional Palco 25 de Abril
Nas primeiras horas da festa do Avante! havia no recinto da Atalaia mais funcionários da organização e jornalistas do que visitantes - na 44ª edição, o eterno slogan "não há festa como esta" para ser justo retrato do desapontamento comunista deveria ser antes "nunca tivemos festa como esta". "Mantenha o distanciamento físico, proteste e proteja os outros" não era, então, difícil de cumprir.

Apoiado numa bengala, Francisco Carrilho, 83 anos, que passou a quarentena da pandemia a escapar-se entre a casa, a horta e a secção de Queijas do PCP, chega arreliado com a viseira que acabou de cair ao chão, depois de o elástico rebentar. Continuará a vir até poder à festa mas lastima já não ajudar como "primeiro em 1976, no Jamor, dois anos na Ajuda, sete anos – era para ser oito mas houve eleições – na Quinta do Infantado e desde 1990, aqui na Atalaia, nesta quinta que é nossa".

O início da festa de 2020 pode assemelhar-se, pode até ter os mesmos stands, os mesmos palcos, as mesmas frases de ordem, as mesmas representações, até as mesmas reivindicações e palavras de ordem mas poucos são os mochileiros que, na realidade, parecem só encher e à cunha, a ver pelo mar cinzento de lona, o parque de campismo dos trabalhadores do recinto, que não somos autorizados a visitar.

No parque de estacionamento são ainda poucos os autocarros, Elídio Tavares, de 80 anos, veio num deles com o grupo de Gondomar, onde viajava também João, de 59 anos, e a mulher que se preparava para ir "cozinhar um caldinho de nabos" - nunca falharam e agora "muito menos falhariam porque o tempo assim o exige". Em dia de temperaturas a pular os trinta, Elídio dá nas vistas por cobrir a cabeça com o peluche, oferta extraordinária do filho, que lhe foi dada há três anos - "isto é um chapéu dos comunistas russos". Cheira já a bifanas e a petisco. Beatriz, 32 anos, segue com Manuel, de seis meses, escarranchado na cintura - ela é educadora de infância. O bebé nasceu em Londres, onde a família vive, em plena crise da Covid-19 e o parto foi feito longe de qualquer visita, na maternidade inglesa. Beatriz vem ao Avante desde os 13; ao filho, recém-nascido, já tem história para contar: "Confio na organização do partido." "Se o vírus vir comunistas não entra", opina Manuel Frade, de 65 anos, que só falhou duas vezes o Avante, e por doença.

Próximo do palco principal, Margarida Laje, 71 anos, médica reformada, olha "comovida para a distância social entre as cadeiras"; não é militante porque "admira demasiado os comunistas para pretender ser um deles". O marido é militante desde os tempos da União dos Estudantes Comunistas. "Ainda há dias, no lançamento do livro da Margarida Tengarrinha, a mulher de José Dias Coelho, assassinado pela PIDE, pensei nisso", comenta, exibindo um sorriso sem máscara - na festa, só obrigatória em determinados recintos.

Jerónimo ataca direita que quer PCP quieto
Fora dos holofotes do Palco 25 de Abril, o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, deu ontem as boas-vindas à 44ª edição da Festa do Avante!. Foi pelas colunas do recinto e pelas redes sociais que se ouviram as saudações, mas sobretudo os ataques à direita: "Figuras destacadas da direita, ex-governantes bem conhecidos, como se tivessem tido um rebate de consciência pelo mal que fizeram ao direito à saúde e ao SNS, com a desvalorização de serviços, (...), que castigaram também nos salários e carreiras, vêm à praça pública invocar hipocritamente razões sanitárias para impedir a festa".

"Querem-nos quietos, confinados, calados e com temor (...) Não queriam, nem querem a festa porque estão conscientes do agravamento da situação económica e social em que setores do capital se vão aproveitar para despedir, cortar salários e direitos." Mas o PCP não vai ficar quieto. "Usemos a máscara mas não deixemos que nos tapem os olhos para estar a lutar onde sempre estivemos", vincou Jerónimo de Sousa.

Marcelo "não é tão otimista" como o PCP
O Chefe de Estado afirmou ontem que a sua perspetiva sobre a realização da Festa do Avante! "não é tão otimista" como a perceção da DGS e do PCP. Marcelo Rebelo de Sousa disse ainda que, "de forma cordial", transmitiu a sua opinião aos responsáveis do PCP.

Aumento do salário mínimo nacional
No discurso de abertura do Avante!, Jerónimo apontou as prioridades do PCP: "Aumentar o salário mínimo, valorizar os salários e combater a precariedade laboral."

Críticas às normas restritivas da DGS
O líder do PCP criticou ainda a DGS por ter imposto medidas "que vão para além das normas exigidas em qualquer espaço comercial, praia, atividade religiosa ou de rua".

NÚMEROS
16 563 pessoas é a lotação máxima permitida pela Direção-Geral da Saúde para esta 44ª edição da Festa do Avante!, que arrancou ontem e fecha as suas portas no domingo.

2000 pessoas é a lotação máxima para o espaço mais emblemático da festa comunista. O Palco 25 de Abril, onde decorrem os principais concertos e iniciativas políticas.

38 euros era o preço de uma entrada permanente (EP) para os três dias da Festa do Avante!. Um bilhete só para este sábado custa 33 euros. Já no domingo, o preço da entrada é de 21 euros.

10 anos foi a idade-limite estabelecida pela Direção-Geral da Saúde para que seja possível não utilizar máscaras, sejam os espaços abertos ou fechados. A exceção para tal é a zona de restauração.
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