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Correio da Manhã

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Senhora Política

Marta Rebelo e Paula Teixeira da Cruz concordam que a direita não precisa de regeneração depois dos resultados em Lisboa. Reflexão é a palavra commumente aceite. Já quanto ao artigo de Manuel Alegre, Teixeira da Cruz fala em “claustrofobia democrática” e Marta Rebelo aconselha o deputado a ir mais vezes a reuniões do PS para verificar que não há medo
28 de Julho de 2007 às 00:00
Senhora Política
Senhora Política
CRISE NA DIREITA
Correio da Manhã – No rescaldo das eleições de Lisboa, os partidos à direita do PS precisam de regeneração?
Paula Teixeira da Cruz – Falar em regeneração é pôr em causa os princípios partidários, programáticos e, portanto, não faz nenhum sentido. Foi um mau momento transversal para todos os partidos, incluindo para o PS. Que ganhou as eleições como 50 mil votos, menos 17 mil do que o dr. Carrilho. Houve de facto uma penalização transversal, sem deixar de assumir que o PSD sofreu uma derrota muito pesada. Agora, penso que a abstenção, somada à penalização dos partidos, nos deve preocupar e que deve fazer com que os partidos pensem não numa regeneração nem numa refundação, mas antes num ‘ajornamento’.
Marta Rebelo – A abstenção nas eleições intercalares é mais um sinal de distanciamento do que propriamente uma penalização. Em relação à situação da direita ou do centro-direita, acho normal que os actores políticos retirem as consequências devidas. Houve atitudes mais consequentes, outras menos. A dra. Paula Teixeira da Cruz fez a sua leitura com rectidão e tomou a sua decisão. Outros não o fizeram.
– O dr. Marques Mendes não deveria ter-se recandidatado?
M.R. – O dr. Marques Mendes tomou uma decisão, nesse domínio, mais coerente do que a de outros líderes partidários. Pelo menos não entrou em período de reflexão. Não se demitiu, mas apresentou-se a eleições novamente.
P.T.C. – O apresentar-se a eleições é uma demissão implícita. Já ouvi o discurso de que o dr. Marques Mendes não se demitiu. Claro que sim, caso contrário não iríamos a eleições directas.
M.R. – Concordo. Mas tenho de retirar alguma consequência da não utilização do termo.
P.T.C. – Não é um problema de palavras.
M.R. – Concordo que se tratou de uma atitude que foi bem além da do dr. Paulo Portas. Que entrou em período de reflexão. Ora bem, dizer daqui que os partidos de direita e de centro-direit precisam de uma refundação é exagerado. Espero que o centro-direita se reencontre, porque é essencial à saúde do sistema democrático.
P.T.C. – Os resultados de umas eleições intercalares estão longe de prefigurar uma necessidade de reencontro.
– O PSD perdeu a câmara para o PS.
P.T.C. – Obriga a uma reflexão. Agora vamos perceber o que se passou. Sabemos que houve um mandato de seis anos na Câmara de Lisboa. Sabemos que a autarquia viveu numa situação disfuncional abalada quase diariamente por escândalos sucessivos, muitos desses escândalos, têm a sua origem num caldo de cultura criado muito antes do mandato PSD. São ainda originários da altura em que PS e o PCP dirigiam os destinos da maior Câmara do País. Isto não é uma situação de crise à direita do PS. Também há crise no PS. A votação obtida pelo dr. António Costa é, apesar de tudo, pouco expressiva e muito pouco confortável.
– Quem perdeu a Câmara foi o PSD.
P.T.C. – O PSD pôs Lisboa à frente e devolveu o voto aos cidadãos, sabendo perfeitamente que o mais previsível não era que ganhasse as eleições, na sequência de tudo que se passou.
M.R. – Dissocio a crise do centro-direita deste acontecimento específico. Obviamente que das eleições de 15 de Julho todos os partidos têm reflexões a fazer.
– O CDS-PP anunciou que iria processar o Estado por alegada violação do segredo de justiça. Qual é a vossa opinião?
P.T.C. – O direito de defesa é intocável.
– Mas justificariam, pelo menos em parte, o resultado eleitoral devido a violações do segredo de justiça?
P.T.C. – Não penso que se possa estabelecer essa conexão. Agora, o direito de defesa é intocável. Se há esse sentimento, faz todo o sentido que haja esse recurso.
M.R. – Não encontro razão para traçarmos uma teoria conspirativa que nos leva a crer que o dr. Telmo Correia não foi eleito vereador à Câmara de Lisboa nestas eleições por força destas questões jurídicas, cujos termos desconhecemos. Agora, se o CDS se sente lesado, os tribunais existem para serem accionados.
ARQUIVAMENTO DO CASO CHARRUA
O Governo arquivou o processo disciplinar do professor Charrua e o primeiro-ministro considerou, em entrevista à SIC, que prevaleceu o princípio da liberdade de expressão. É o suficiente para encerrar este caso?
M.R. – O sr. primeiro-ministro afirmou que com o arquivamento prevaleceu a liberdade de expressão. O PSD apresentou um requerimento no Parlamento, solicitando a presença da sra. ministra da Educação para prestar esclarecimentos. Espero sinceramente que, ao menos na sede parlamentar, todas as dúvidas que possam persistir sejam esclarecidas.
P.T.C. – Acho extraordinário que se possa dizer que prevaleceu a liberdade de expressão depois de um funcionário ter sido suspenso e depois, pese o arquivamento, foi cessada a requisição na Direcção Regional do Norte. É lamentável a expressão, é infeliz, porque de facto não prevaleceu. Houve um condicionamento e está por fazer o apuramento das responsabilidades de quem cerceou essa liberdade de expressão. Estão por apurar as responsabilidades da directora regional [Margarida Moreira] e de todos aqueles que tenham sancionado este tipo de procedimento. Como estão por apurar res-ponsabilidades na cessação da requisição. Porque não deixa de ser vista, aos olhos da opinião pública, como uma retaliação.
"CLAUSTROFOBIA DEMOCRÁTICA"
CM – Concordam com o artigo de Manuel Alegre no ‘Público’ sobre o medo na sociedade?
M.R. – Manuel Alegre abandonou o seu quadrado e dedicou-se à temática do medo para dar conta do seu estado de alma, tal como um comentador – julgo que foi o professor Vital Moreira – se referiu a este desabafo. Acho curioso que o dr. Manuel Alegre destaque o medo interno [no PS] porque para o externo parece que encontra alibis para o Governo e, nos fantasmas da sociedade, a razão desse medo. Nunca senti qualquer limitação no meu direito de opinar [no PS]. Talvez se Manuel Alegre fosse mais activo na vida interna do partido percebesse que normalmente discutimos, falamos muita aberta e, às vezes, efusivamente.
P.T.C. – Subvalorizar a opinião de Manuel Alegre é a confissão – mais do que confissão – de que há um ambiente generalizado de claustrofobia democrática que este Governo vem impondo ao País. Ultimamente o professor Vital Moreira tem-nos habituado a ser um sustentáculo das posições do Governo.
"SÃO UMA GOTA NO OCEANO"
– As medidas de apoio do Governo à natalidade traduzem-se apenas em mais um apoio social ou podem vir a fomentar, de facto, a natalidade no País? Qual é a vossa avaliação?
P.T.C. – O problema da natalidade é muito mais fundo. Prende-se com concepções civilizacionais, com anseios, com gestão de expectativas de vida. E a verdade é que, por todo o Mundo Ocidental, o movimento é generalizado. Estou longe de acreditar que estas medidas possam ser uma resposta. Resposta para a questão da natalidade, será uma resposta estruturada de modelo de país.
M.R. – Estas medidas são uma gota no oceano, pese embora sejam bem-vindas. O que motiva a quebra de natalidade no Mundo Ocidental é a dinâmica social. Embora questões como as que são focadas por este tipo de medidas sejam importantes, não é aí que o problema começa. Mas antes quando se decide ou não ter um filho. O modelo de sociedade em que vivemos não permite, ou pelo menos, constrange, muitos casais a tomarem essa decisão.
MARTA REBELO
CRISE NA DIREITA
Pelo menos [Marques Mendes] não entrou em período de reflexão. Não se demitiu, mas apresentou-se a eleições [...]
CDS PROCESSA ESTADO
Não encontro razão para uma teoria conspirativa que nos leve a crer que o dr. Telmo Correia não foi eleito [...] por força destas questões jurídicas.
CASO CHARRUA
Espero sinceramente, ao menos na sede parlamentar, que todas as dúvidas [da oposição] que possam persistir sejam esclarecidas.
NATALIDADE
Estas medidas [do Governo socialista] são uma gota no oceano, pese embora sejam bem-vindas.
MANUEL ALEGRE
Talvez se o deputado Manuel Alegre fosse mais activo na vida interna do partido percebesse que normalmente discutimos, falamos muita aberta [no PS] e, às vezes, efusivamente.
PAULA TEIXEIRA DA CRUZ
CRISE NA DIREITA
O PSD pôs Lisboa à frente e devolveu o voto aos cidadãos, sabendo [...] que o mais previsível não era que ganhasse.
CDS PROCESSA ESTADO
O direito de defesa é intocável. Se há esse sentimento [no CDS-PP] faz todo o sentido que haja esse recurso.
CASO CHARRUA
Estão por apurar responsabilidades da directora regional [Margarida Moreira] e de todos aqueles que tenham sancionado este tipo de procedimento.
NATALIDADE
Estou longe de acreditar que estas medidas possam ser uma resposta para a questão da natalidade.
MANUEL ALEGRE
Subvalorizar a opinião de Manuel Alegre é a confissão [...] de que há um ambiente de claustrofobia democrática.
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