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Correio da Manhã

Política
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Soares promete escrever

"Fui muito absorvido pela política, demasiado, acho eu agora”, confidenciou ontem Mário Soares ao CM, logo acrescentando: “Devia ter escrito mais do que escrevi. Vamos ver se consigo reparar essa lacuna”.
7 de Dezembro de 2004 às 00:00
Na véspera do 80.º aniversário (que hoje festeja) e desafiado a dizer se o romance, de nome ‘Concordata’ que alegadamente terá guardado num baú estaria para ser publicado, Mário Soares iludiu a questão, respondendo que “um romance se calhar não” mas que “talvez venha um outro livro”.
Considerando que “há um conjunto de coisas mais importantes do que a política”, tais como “o gosto de viver, ver um dia bonito, a cultura, viajar...”, concluiu: “As pessoas têm um percurso que devem fazer em liberdade”.
MARCADO PELO PAI
Nascido em 1924, na Rua Gomes Freire, em Lisboa, numa casa já demolida, Mário Alberto Lopes Nobre Soares teve a infância marcada pela actividade política do pai, João Soares, por si descrito como “conspirador” em prol da República, contra a Monarquia.
“Lembro-me de ir visitar o meu pai, pela mão de minha mãe, com cinco ou seis anos, à prisão política do Aljube [onde mais tarde viria ele próprio a ser preso]... São coisas que não se esquecem e marcam uma infância!”, lê-se no livro organizado pela filha Isabel e publicado pela editora do filho João, ‘Perspectivas e Realidades’.
A sua própria carreira política tem início quando, estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, fundou o MUD Juvenil. A advocacia (nomeadamente quando representa a família do general Humberto Delgado, depois da morte deste) e a actividade política oposicionista ao regime de Salazar, valem-lhe sucessivas detenções e mais tarde a deportação para a ilha de São Tomé e o exílio para França (onde se encontra quando se dá o 25 de Abril de 1974).
democracia
Em 1973, Mário Soares funda o Partido Socialista. Assume o cargo de secretário-geral, função que desempenha até 1986. Fez parte dos primeiros quatro governos provisórios do pós-25 de Abril e um dos principais opositores à tentativa de tomada de poder pelo Partido Comunista. Foi primeiro-ministro por três vezes - depois de o PS vencer as eleições para a Assembleia Constituinte e entre 1983 e 85 (Bloco Central).
Em 1986 torna-se o primeiro Presidente da República civil, depois de vencer Freitas do Amaral. É reeleito em 1991.
Regressado à vida civil, nunca deixa de intervir na política nacional através dos seus comentários. Em 1999 encabeça a lista do PS nas eleições para o Parlamento Europeu.
Ontem acompanhou o lançamento de um jogo sobre os Direitos Humanos, da Associação para a Promoção Cultural da Criança (APCC).
Hoje celebra o 80.º aniversário.
JANTAR DE HOMENAGEM JUNTA CERCA DE DOIS MIL
À volta de duas mil pessoas são esperadas hoje no jantar que decorre, a partir das 20h00, na antiga FIL (Rua da Junqueira). “Atendendo ao percurso feito, independentemente dos juízos que se façam, entendemos que 80 anos mereciam uma comemoração especial”, explicou ao CM o deputado socialista Vítor Ramalho (um dos organizadores, a par de Vasco Vieira de Almeida, Dias da Cunha e Isabel Soares). Do mundo político estarão presentes, entre outros: Narana Coissoró (CDS), Freitas do Amaral (independente) Pinto Balsemão e Leonor Beleza (PSD), Odete Santos (PCP) e Francisco Louçã (BE). O PS está representado em peso (incluindo o líder, José Sócrates). Cavaco Silva e Ramalho Eanes não vão. O Presidente da República, Jorge Sampaio, transmite os parabéns em casa do aniversariante.
DESCOLONIZAÇÃO
Se para alguns Mário Soares foi o “grande impulsionador da democracia em Portugal”, como ontem foi descrito por Silva Lopes, presidente do Montepio Geral, outros acusam-no de “traidor à Pátria”. Entre estes últimos encontram-se muitos dos chamados “retornados” que atribuem a Mário Soares as culpas de uma descolonização que entendem ter sido “desastrosa”. Alguns dos detractores acusam-no ainda de ter alegadamente espezinhado a bandeira nacional.
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