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Política
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SOBRINHO DE ISALTINO VIVE EM BAIRRO POBRE

"O homem ainda vai perder a cabeça, se não deixam de o chatear, ainda se vai passar". Quem nos avisa é J.G., taxista em Genebra e colega de Leandro Alves, o sobrinho de Isaltino de Morais que, alegadamente, é o detentor dos mais de 440 mil euros depositados em contas na Suíça, que no entanto estarão em nome do ex-ministro das Cidades e do Ambiente e que não foram declarados ao fisco.
12 de Abril de 2003 às 00:09
Escritório da cooperativa New Cab onde está empregado o sobrinho de Isaltino Morais
Escritório da cooperativa New Cab onde está empregado o sobrinho de Isaltino Morais FOTO: Direitos Reservados
Na última semana, Leandro Alves não tem tido descanso e já terá confidenciado mesmo com alguns colegas que a paciência para com os jornalistas está a esgotar-se. O contacto mais próximo que o CM conseguiu ter com este emigrante de Trás-os-Montes, filho de uma meia-irmã de Isaltino de Morais, foi telefonicamente com a mulher, Casimira, e com alguns colegas da empresa em que trabalha, a cooperativa New Cab, detida e gerida por um conjunto de portugueses radicados naquela cidade suíça. "Não queremos ser filmados, nem fotografados, não prestamos declarações a jornalistas nem a ninguém, isto tem de ter um limite, é sábados, domingos, a ligarem cá para casa a toda a hora, tem de haver um limite", estas foram as únicas palavras que conseguimos obter da mulher de Leandro, além da negação de qualquer das informações já publicadas sobre o casal. "É tudo mentira, nunca falámos com ninguém". Um outro colega de Leandro explicou ao CM que "mesmo que fique de plantão à porta de casa, é difícil de o apanhar porque ele entra "camuflado".
Tido como um homem "discreto, reservado, mas bastante trabalhador", Leandro é um dos poucos taxistas da New Cab sem carro próprio, trabalhando para uma patroa, com quem divide turnos. Aliás, pelo nome quase ninguém o conhece, apenas pelo número do carro que conduz. "Há uma semana que não dorme, anda triste, anda farto disto", conta um colega de profissão. E, apesar de perceberem o porquê do assédio dos jornalistas ao companheiro, não deixam de sentir solidariedade para com Leandro. Mas também se questionam o porquê de, sendo o dinheiro alegadamente pertença do emigrante, estar em nome do tio. "Eu nunca o faria, não se percebe porque é que o Leandro fez isto, mas lá há--de ter as suas razões", diz A.C.
"Deixem-no em paz, ele é bom rapaz", diz J.G. O filho de 12 anos, contam-nos, "anda cheio de medo e mesmo o Leandro tem receio de receber ameaças, agora que se diz que ele tem esse dinheiro". Fazer fortuna na Suíça não é difícil, mas leva tempo, trabalho e poucos são os que têm avultadas contas bancárias, preferindo apostar em negócios ou no imobiliário, quer por terras helvéticas quer em Portugal.
Há cerca de um ano na New Cab, Leandro optou por uma profissão "onde se pode ganhar dinheiro. Não temos dificuldades, embora a situação dele seja diferente, pois é empregado, logo ganha menos", explica A.C., outro dos cooperantes da empresa suíça. Um independente, por exemplo, pode chegar a auferir mais de 5000 euros por mês, o que, deduzindo os impostos, lhe permite levar para casa cerca de 3500 euros. Um empregado, como Leandro, poderá ganhar cerca de 2500 euros ilíquidos. Uma pequena fortuna em Portugal, mas que em Genebra não permite grandes aventuras. "Só se for muito poupado, é que se consegue juntar assim tanto dinheiro nesta profissão, mas leva alguns anos", refere C., taxista independente. Ou se se tiver a "sorte" de calhar regularmente uma viagem grande, tipo Lisboa ou Barcelona, que podem valer até 5000 euros no primeiro caso e 2000 no segundo. Mas se a bandeirada custa dez euros - e uma viagem média em Genebra poderá facilmente atingir aos 50 euros- também há as despesas, que podem chegar aos 5000 euros por ano em manutenção da viatura - um conjunto de pneus pode custar mais de mil euros- , a licença de condução especial, que custa cerca de 2200 e o combustível- o litro do gasóleo custa cerca de 2,2 euros.
A viver num apartamento de habitação social em Carouge - cuja porta da rua não tem fechadura mas tem vidros partidos -, os familiares de Isaltino de Morais levam uma vida "normal, recatada", como refere um vizinho. "Para juntar esses valores que se dizem, às vezes tem de se viver em apartamentos mais baratos", justifica A.C, que acrescenta que "não interessa onde se vive, o que interessa é o nível de vida que se leva". Mas para usufruir de habitação do Estado, os rendimentos declarados não deverão ser superiores a cerca de 2000 euros. Restará saber que valores terá Leandro Alves declarado ao fisco suíço.
CUSTO DE VIDA EM GENEBRA
Num país onde o ordenado médio de um agregado familiar rondará os 5000 euros, é natural que o custo de vida também seja elevado. No entanto, não é difícil a um casal sem filhos "juntar" 2000 euros por mês. Para se ter uma ideia do preço de certos bens, um apartamento médio na cidade custa cerca de 500 mil euros, um arrendamento ronda os 2400 euros, uma refeição num restaurante chinês custa uma média de 60 euros, um café 4,5 e uma bandeirada de táxi "vale" quase dez euros. O Correio da Manhã custa seis euros.
Só no cantão de Genebra, há cerca de 70 mil portugueses com autorização de residência, metade dos quais residem em Genebra ou nos arredores. Por isso, não é díficil ouvir falar português nas ruas, cafés e lojas da cidade do Rhone. Acompanhantes fiéis do que se passa em Portugal, grande parte dos emigrantes encara com apreensão o regresso às origens. Não que não haja saudade, "mas por aqui a vida é bem melhor, ganha-se mais e consegue-se fazer um bom pé-de-meia", explica António Rodrigues, vindo da Guarda há mais de 20 anos. Trás-os-Montes, Beira Alta e Minho são as principais regiões de onde são originários os emigrantes portugueses de Genebra.
PGR ESTÁ A ANALISAR O CASO ISALTINO
O procurador-geral da República (PGR) reafirmou ontem que estão a ser analisadas no seu gabinete as notícias sobre o caso das contas bancárias na Suíça do ex-ministro Isaltino de Morais para determinar se há razões para abrir um processo-crime.
Souto Moura, que falava à margem das comemorações dos 15 anos do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa, referiu que na sequência dessa análise "irá ser ou não instaurado um processo-crime", relativamente ao ex-ministro das Cidades e do Ambiente e Ordenamento do Território. Segundo Souto Moura, as notícias que estão a ser alvo de análise no seu gabinete são as que foram publicadas na semana passada pelo semanário “O Independente.”
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