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Correio da Manhã

Política

Sócrates sem medo de manifs

O teleponto lá estava preparado para o secretário-geral no congresso do PS em Santarém. José Sócrates começou a discursar já passava das 21h30 depois de uma longa intervenção do presidente do partido, Almeida Santos e fez questão de esclarecer que o seu Governo não tem medo de fazer reformas “que são fundamentais para o País”.
11 de Novembro de 2006 às 00:00
Mais, para quem se manifestou à porta de reuniões do partido, durante a campanha interna socialista, o líder deixou claro: “Este partido já viu muita coisa e não se deixa intimidar.” Houve quem defendesse, recorde-se, que esses protestos faziam lembrar as técnicas utilizadas pelo PCP no tempo do PREC (Processo Revolucionário em Curso).
Respondendo à querela sobre se o PS é ou não de esquerda, Sócrates respondeu: “Sempre houve uma esquerda que nos quis ensinar o que é ser de esquerda. Ouço com sorriso esta conversa de trinta anos (...). Nós somos fortes nas convicções. Nós somos responsáveis na governação e é por isso que o PS é o partido da esquerda moderna e democrática.”
Quanto às críticas sobre a necessidade de “ouvir a rua”, evocadas mesmo dentro do PS por figuras como Manuel Alegre, Sócrates quis também assegurar que “nada do que se passa é indiferente” ao partido e ao secretário-geral.
Aí defendeu a tese de que o País “não pode ser governado ao sabor da vontade de quem grita mais alto na rua”. E que, por isso, o caminho continuará a ser o das reformas. “Nós não partilhamos da ilusão de uma certa esquerda de que há uma governação sem Governo”, declarou e sem meias palavras sublinhou que com o partido e o Governo está “quem tem coragem de mudar e quem tem confiança no futuro”. E à pergunta sobre se as medidas tomadas pelo Executivo despertam protestos, não teve dúvidas: “Sim é, preciso ouvi-los e entendê-los, mas não podemos deixar que a agenda reformista que o eleitorado escolheu seja pervertida pelas pressões sectoriais.” Sócrates fez ainda um relatório da obra feita, das previsões de crescimento para 2007 de 1,4 por cento.
Para dentro do partido, Sócrates garantiu que não ignora as “observações” dos que o acusam de fazer uma reunião-magna sem debate ou reflexão e defendeu-se: “Nestes dois anos esforcei-me por promover a unidade no PS.” Os recados eram para figuras como Manuel Alegre ou Helena Roseta. O ex-candidato presidencial, que não foi ontem a Santarém, é hoje esperado no conclave, ainda que ninguém arrisque a sua presença.
Com uma entrada triunfal ao som de Vangelis, inspirado no filme ‘O Conquistador’ , José Sócrates viu uma película com os testemunhos dos anteriores líderes do partido, Mário Soares, Jorge Sampaio, António Guterres e Ferro Rodrigues.
Helena Roseta ouviu as palavras do líder, analisou e concluiu que o discurso lhe correu bem, que se revia em alguns pontos, mas reservando-se para hoje para explicar os seus pontos de vista.
DIXIT
- "Agora é preciso pôr as contas do Estado na ordem, lançar reformas exigentes, puxar pela economia, criar emprego, promover as qualificações e combater as desigualdades."
- "Ninguém poderá dizer que escolhemos o caminho da facilidade à espera de popularidades fáceis (...) ninguém poderá dizer que desistimos ao primeiro obstáculo."
- "Posso revelar que Almeida Santos tem insistido (...) para deixar o cargo de presidente."
CONGRESSO SOCIALISTA REUNIU 1815 DELEGADOS
CASA CHEIA
De todos os cantos do País, foram 1815 os delegados que ontem fizeram questão de marcar presença no XV Congresso do PS, que decorre em Santarém. Além dos delegados eleitos, também estarão presentes 15 delegações estrangeiras, que vêm de países como a China, França, África do Sul, Grécia e Bulgária. No encerramento do conclave, estarão ainda 24 embaixadores e 44 membros do corpo diplomático.
PEDITÓRIO PARA A SEDE
No congresso do PS, que ontem se iniciou, nada é deixado ao acaso até na angariação de fundos. O objectivo é muito simples: conseguir amealhar algum dinheiro para ajudar a pagar as obras da sede nacional do partido, que já duram há vários anos. Afinal, o edifício é um palacete do século XVIII.
O congressista dá o que pode. Mesmo só dando cinco euros, tem opção de escolha: um calendário, um pin, um catálogo ou mesmo um postal a pensar já no Natal.
Uma funcionária do departamento financeiro, que pediu anonimato, disse ao CM que até às 18h00 de ontem a adesão dos congressistas tinha sido “média” a desembolsar a ajuda, sem nos quantificar os valores. Uma iniciativa inédita no partido, uma vez que é a primeira vez que angaria fundos para as obras da sede no Largo do Rato.
No verso de um dos catálogos pode ler-se “a democracia é nosso maior património”. E assim, os delegados socialistas são seduzidos pela defesa do regime e... pelas fotos. Por exemplo, um dos postais de natal tem a imagem da sala chinesa do palacete. Outra as escadarias do edifício. Para cumprir a lei, o partido tem multibanco ao dispor dos militantes que queiram contribuir para melhorar a sede.
Mesmo ao lado da banca de angariação de fundos está uma outra, a da JS, onde se pode ler num ecrã de plasma a pergunta a colocar em referendo sobre o aborto.
POLÍTICA DO GOVERNO NA EDUCAÇÃO
Vítor Gonçalves, 48 anos, engenheiro de formação, é delegado ao congresso do PS por Coimbra. Pertence à secção de Educação socialista do concelho. E não tem dúvidas em defender que é necessário “melhorar a forma” de se apresentarem propostas para o sector. Em declarações ao CM, o delegado assinala, primeiro, os aspectos positivos das reformas em curso: o aumento da carga horária, as aulas de Inglês no primeiro ciclo do Ensino Básico, as aulas de substituição e mesmo a avaliação de professores.
Agora, não concorda com quotas no acesso dos professores ao topo de carreira e recorda que “a linha histórica do partido não é essa”, aludindo aos governos de António Guterres que acabaram com os entraves “na subida para o oitavo escalão”. Em defesa de uma carreira única, Vítor Gonçalves sublinha que as medidas propostas pelo Ministério “têm passado para a opinião pública como uma ideia de punir os professores e não pode ser”. O delegado ao congresso socialista dá aulas numa escola secundário, apesar de não ter especificado qual.
PC CHINÊS ENVIA DELEGAÇÃO DE PESO
O Partido Comunista Chinês (PCC) participa hoje no congresso do PS com uma delegação de peso. Segundo apurou o CM, cinco membros do Comité Central vão estar em Santarém, com destaque para o primeiro sub-reitor da escola central do PCC (organismo de formação de quadros), Su Rong; chefe do gabinete geral da escola central do PCC, Luo Zongyi, e o subdirector do departamento de informação, Hieng Xianxing.
O PCC tem o estatuto de observador na Internacional Socialista (IS) e é nessa qualidade que envia a sua delegação ao congresso do PS. No passado mês de Maio, uma delegação do PS, composta por José Lello, secretário internacional do PS; Marcos Perestrelo, secretário para a organização; e Paulo Pisco, director do departamento internacional, esteve em Pequim para, entre outros assuntos, preparar a visita de José Sócrates à China no início de 2007.
HELENA ROSETA
A sua moção ‘Solidariedade e Cidadania’ conseguiu reunir 68 subscritores para poder ser discutida em congresso.
ALMEIDA SANTOS
Foi reeleito presidente do partido. Sobre o convite de Sócrates a João Soares e Manuel Alegre considerou-o como “inteligente”.
RASMUSSEN PRESENTE
O presidente da Internacional Socialista e ex-primeiro-ministro da Dinamarca, Poul Rasmussen, marca presença no congresso do PS.
MÁRIO SOARES
O socialista teceu um elogio à governação de José Sócrates, que contudo “não será perfeita”, disse. A declaração foi feita através de vídeo.
JOÃO SOARES
O ex-candidato à liderança socialista ainda não decidiu se aceita o convite de Sócrates para integrar a Comissão Nacional do partido.
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