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Correio da Manhã

Política
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"Temos deputados na AR que são um verbo de encher” (COM VÍDEO)

Ex-conselheiro de Estado diz que o PSD foi obrigado a pôr em prática políticas que não são sociais-democratas porque José Sócrates deixou os armários cheios de esqueletos.
19 de Fevereiro de 2012 às 01:00
ENTREVISTA, ANTÓNIO CAPUCHO, PSD, CONSELHEIRO DE ESTADO, SÓCRATES
ENTREVISTA, ANTÓNIO CAPUCHO, PSD, CONSELHEIRO DE ESTADO, SÓCRATES FOTO: Sérgio Lemos

Correio da Manhã - Teme revoltas sociais como tem acontecido na Grécia?

António Capucho - Nós, portugueses, não somos parecidos com os gregos, e os gregos não vão atingir rigorosamente nada. Não é partindo montras que resolvem o problema. Aqui, tiro o chapéu ao PCP e à CGTP, que enquadra muito bem as manifestações que organiza.

- As manifestações resolvem alguma coisa?

- As manifestações não resolvem nada, mas é normal que pressionem o poder político, e dão indicações de qual é o estado de espírito. Não são só comunistas e bloquistas, há muita gente que vai para lá porque quer protestar, dizer de sua justiça.

- Criticou duramente o anterior Governo por estar a destruir o Estado Social. Este Governo não está a seguir o mesmo caminho?

- Em defesa deste Governo, tenho de dizer que está a fazer aquilo a que o anterior Governo se comprometeu, que o País e o Estado se comprometeram. De facto, as prestações sociais baixaram em todos os sentidos, estamos numa situação muito difícil. Mas o Governo, quando abriu o armário, aquilo estava cheio de esqueletos.

- O PSD ainda é um partido social-democrata neste momento? As políticas que estão a ser aplicadas são sociais-democratas?

- Não, são perfeitamente liberais, como é óbvio. Nem podiam ser outra coisa. Ninguém que assuma o poder e queira cumprir o acordo com a troika pode assumir a social-democracia.

- Identifica-se com o partido?

- Não é o partido que está em causa no momento, é um Governo obrigado a pôr em prática um conjunto de medidas de feição manifestamente liberal. Repugnam-me algumas medidas da troika, porque entendo que o mercado não resolve os problemas todos, que o Estado tem de estar presente em áreas essenciais, na Saúde, na Segurança Social. Outra coisa completamente diferente é estilhaçar o Estado Social.

 


- Dava tolerância de ponto no Carnaval se ainda fosse presidente da Câmara de Cascais?

- Claro que dava. O primeiro--ministro devia ter dito com 20 dias de antecedência: este ano brinquem lá ao Carnaval, para o ano acabou de vez. Agora dizer a 20 dias é caricato e contraproducente. E parece que não aprenderam nada: o professor Cavaco Silva fez isto e no ano seguinte teve de se arrepender, voltar atrás. Lembram-se do que lhe aconteceu, foi gozado em todos os corsos de forma muito mais intensiva. E agora o que está a acontecer? Por toda a parte estão a dar feriados, tolerância de ponto.

- O que vai fazer, além da Fundação D. Luís, em Cascais, de que é agora presidente?

- É manifesto que o partido não está interessado no meu concurso. Mas não estou minimamente preocupado com isso.

- Já lhe deram a entender isso?

- Quando sei pelos jornais que não sou membro do Conselho de Estado...

- Já tinha afirmado em público que não queria ser.

- Não, quando o Presidente foi eleito eu disse ao Pedro Passos Coelho: é o Balsemão e eu, você não está, eu saio para você entrar como presidente do partido...

- Mas disse isso publicamente...

- Disse isso publicamente e ao dr. Passos Coelho e ele respondeu: "Nem pensar, você não sai, deixe-se estar, eu vou ser eleito primeiro-ministro e até lá discutirei o que tenho a discutir com o Presidente da República nas reuniões." Ele é que não quis que eu lhe desse o lugar.


- Depois do episódio do Conselho de Estado e de saber pelos jornais que tinha saído, teve mais alguma conversa com Passos Coelho?

- Não, não o quis aborrecer, ele tem assuntos mais importantes.

- Passos Coelho não tomou a iniciativa de falar consigo?

- Tive uma conversa que posso revelar, muito simpática, com Miguel Relvas para lhe explicar qual era a minha situação e a minha posição. Mais nada, nem quero insistir. Não esqueço que tive uma atitude que desagradou profundamente ao presidente do partido e que eu compreendo que ele tenha ficado chateado.

- Foi quando?

- Quando ele me aparece com aquela invenção do dr. Fernando Nobre para cabeça-de-lista em Lisboa, que me transmitiu...

- E de candidato a presidente da Assembleia da República...

- Bom, mas isso não me transmitiu. Recebo a notícia num domingo. Era suposto eu avançar para Lisboa e disse: tudo bem, não me importo nada de ir por outros círculos. Até me falou de dois ou três municípios.

- E quando é que soube?

- Quando chego a casa, vejo em rodapé na televisão que o dr. Fernando Nobre tinha acabado de ser convidado para candidato a presidente da Assembleia da República. É uma aberração completa, não tem qualquer espécie de vocação. Desligo-me e não aceito nenhum lugar, não quero ir para uma Assembleia em que os deputados são um verbo de encher.


"CAVACO TEVE UMA FRASE COMPLETAMENTE IGNÓBIL"

CM - A última sondagem do ‘CM' mostra que o Presidente da República atingiu o momento de maior impopularidade. Como é que explica isso?

António Capucho - O grande problema é que muitos portugueses esperavam de Cavaco Silva mais do que aquilo que ele pode dar. Ou que aquilo que quer dar. Esperavam que fosse um defensor dos pobres e dos oprimidos a propósito da troika. Ele tem limitações constitucionais complicadas. Cavaco Silva pronunciou-se contra aquilo que era manifestamente uma falta de equidade entre público e privado. Eu tive uma posição similar e defendi isso várias vezes.

- A frase das pensões não chegarem para as suas despesas...

- O sr. Presidente, de facto, recentemente teve uma frase que os portugueses consideraram completamente ignóbil e reagiram de forma...

- Foi uma gaffe?

- Foi uma gaffe monumental. Foi atacado por causa das pensões e reagiu intempestivamente. Caiu muito mal.

- Isto não poderá ser sintoma de que os portugueses começam a reagir de forma mais violenta?

- Os portugueses reagem epidermicamente a frases como esta e têm razão, porque, de facto, estão a sofrer na carne grandes dificuldades.


"HÁ MAÇONS QUE TIVERAM COMPORTAMENTOS INDECENTES"

- Os políticos que são maçons devem assumir-se?

- Os políticos, nas suas declarações de interesses, deveriam revelar se pertencem a associações secretas. Porque há fortes suspeitas - e aliás evidências - de pessoas que tiveram comportamentos indecentes, sendo da maçonaria.

- Por exemplo...

- Insistindo que conheço maçons fantásticos, o antigo grão--mestre António Reis, por exemplo, é uma pessoa de enorme categoria no plano ético. O novo grão-mestre estava lá na vitória eleitoral de Passos Coelho, ao que me dizem. Mas deviam ser mais transparentes.

PERFIL

António Capucho nasceu em Lisboa a 3 de Janeiro de 1945. Aderiu ao PSD em 1974, onde ocupou os mais diversos cargos. Foi deputado, ministro e conselheiro de Estado. Eleito presidente da Câmara Municipal de Cascais em 2001, 2005 e 2009, renunciou em Janeiro do ano passado por motivos de saúde.

ENTREVISTA ANTÓNIO CAPUCHO PSD CONSELHEIRO DE ESTADO SÓCRATES
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