A última viagem de dois mandatos não podia ser mais discreta. No começo desta madrugada, às 00h30 (hora de Timor, 15h30 de ontem em Lisboa), o Presidente de Portugal desembarcou em Díli, num pequeno grupo onde os Sampaio eram mais do que os acompanhantes. Jorge Sampaio e Maria José Ritta e os dois filhos, André e Vera, foram de Lisboa para Darwin, em voo de companhia comercial, acompanhados somente pelo secretário geral da Presidência, Vicente de Bragança, o médico e um segurança.
Um C-130 da Força Aérea Portuguesa foi buscar a pequena comitiva de sete pessoas à cidade australiana, transportando-as para Timor.
O presidente timorense, Xanana Gusmão, apresentou-se no aeroporto de surpresa – o encontro dos dois estava previsto oficialmente só para o meio da manhã, no Palácio do Governo. Xanana apareceu em mangas de camisa e colarinho aberto, com o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Ramos-Horta, mais formal, com o habitual fato e camisa escura. Quando Jorge Sampaio iniciou o seu primeiro mandato, em 1996, Xanana estava preso na Indonésia. Graças à teimosia do seu povo e a alguns amigos, ele podia estar ali esta madrugada, representando o mais novo país do Mundo. Abraçou Sampaio, aquele que, fez questão de dizer aos jornalistas, “esteve sempre na linha da frente” no apoio a Timor.
Ramos-Horta foi com Sampaio até ao Hotel Timor – que os portugueses conhecem desde 1999, quando albergava os jornalistas e foi assaltado pelas milícias pró Indonésias durante os tumultos que precederam o abandono do território pelas autoridades de Jacarta. O hotel foi reconstruído pela Fundação Oriente, cujo presidente, Carlos Monjardino, também ele em mangas de camisa, aguardava Jorge Sampaio. No átrio, um pequeno grupo de cooperantes portugueses, que pouco antes festejara o aniversário de um deles, bateu palmas ao seu Presidente. Se a mensagem a passar era a naturalidade das relações luso--timorenses, não podia ter começado melhor a visita de três dias.
Antecedendo a chegada de Jorge Sampaio a Dilí, os deputados aprovaram ontem por unanimidade a atribuição da cidadania honorária ao Presidente da República, numa iniciativa inédita que decorreu de um projecto de resolução subscrito por todas as bancadas parlamentares. A par da cidadania honorária, Jorge Sampaio receberá hoje de Ramos-Horta um passaporte diplomático, sinal do “grande carinho e amizade” de Timor-Leste.
RAMOS-HORTA APOIADO NA ONU
O ministro dos Negócios Estrangeiros de Timor-Leste conta como apoio do Governo e da oposição na sua eventual candidatura a secretário-geral das Nações Unidas. Apontado como um possível candidato a sucessor de Kofi Annan, Ramos-Horta já tem o apoio do primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, e do secretário-geral do Partido Socialista Timorense (PST), Avelino Coelho.
Não excluindo a possibilidade de avançar com uma candidatura ao cargo de secretário--geral da ONU, o chefe da diplomacia de Timor-Leste já disse que seria uma honra presidir a um cargo que é desempenhado por Kofin Annan desde 1 de Janeiro de 1997 e que termina em 31 Dezembro deste ano.
AGENDA DOS PRÓXIMOS DIAS
HOJE
Jorge Sampaio encontra-se de manhã com o seu homólogo Xanana Gusmão, seguido de almoço. Está agendada também uma visita ao Parlamento e um encontro com o chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas de Timor.
AMANHÃ
O Presidente toma o pequeno almoço com os bispos de Díli e de Baucau na residência do embaixador de Portugal. Visita Gleno, com paragem em Tibar, onde vai a um centro de formação, a Escola Rui Nabeiro, exemplos de cooperação.
QUINTA-FEIRA
Jorge Sampaio regressa a Portugal. Com a visita a Timor-Leste, o Presidente da República realizou a sua última viagem oficial. A partir de agora faltam menos de três semanas para terminar o mandato presidencial, a 9 de Março.
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