Bombeiros no limite das forças

Os bombeiros voluntários empenhados no combate às chamas estão no limite das suas forças e, a manter-se o volume de incêndios que marcou os últimos dois meses, Setembro pode vir a tornar-se “bastante complicado”.

24 de agosto de 2005 às 00:00
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O aviso é da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) e Duarte Caldeira, presidente da Liga, considera que chegou a altura de equacionar a possibilidade de activar o Plano Nacional de Emergência.

“Se a pressão dos incêndios se mantiver até ao final de Agosto, o potencial humano dos bombeiros vai esgotar-se. As forças estão no limite”, disse ao CM Duarte Caldeira, pouco tempo depois de visitar os fogos de Coimbra. “Encontrei bombeiros que estão desde sábado no teatro de operações, com intervalos curtos, de escassas horas, para descanso.”

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Mas há mais exemplos. Após sete dias seguidos de combate às chamas em Pampilhosa da Serra, e poucas horas depois de chegarem ao quartel, os voluntários de Barcarena arrancaram para um incêndio em Alcainça, Mafra. “Estamos exaustos. Há homens que nem força têm para segurar as mangueiras sem ajuda dos populares”, disseram.

Desabafos que a hierarquia conhece. Há três dias, o ministro da Administração Interna, António Costa, reconheceu que os bombeiros estão no “limite das suas forças”. Duarte Caldeira, da Liga, explica porquê. “Ao contrário de 2003, quando os maiores incêndios ocorreram entre 18 de Julho e 10 de Agosto, este ano a pressão tem sido intensa. Os fogos têm sido constantes desde meio de Maio.”

E quando Setembro chegar, diz Duarte Caldeira, a situação pode complicar-se. “A disponibilidade dos bombeiros voluntários não será a mesma. O planeamento é feito para Julho e Agosto. Depois, as pessoas regressam aos trabalhos e é mais difícil reunir os elementos”, avisa. “Talvez seja altura de pensar em activar o Plano Nacional de Emergência e alargar o combate a outros sectores da sociedade.” Anteontem, o Presidente da República apelou aos patrões para dispensarem os empregados bombeiros.

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A Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP) concorda com a “situação de ruptura do efectivo”, mas aponta outras falhas. “Não faz sentido que equipas de sapadores de Lisboa sejam enviadas para Viana do Castelo, quando há fogos em Abrantes. Depois, cruzam-se com corporações do Norte em sentido contrário”, diz Carlos Leal, da ANBP. “Há falta de coordenação de meios”, acusa.

As contas da ANBP e da LBP são semelhantes. O desgaste das viagens em viaturas pesadas, as horas fio em terrenos complicados, com curtos períodos de descanso, e a multiplicidade de tarefas – o ataque às chamas, a protecção de aldeias e a evacuação de populações – estão a deixar os bombeiros demasiado cansados.

MAIS INCENDIÁRIOS DETIDOS

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A polícia anunciou ontem a detenção de mais onze indivíduos suspeitos de fogo posto, elevando-se para 115 o número de detidos este ano. Em S. Pedro da Cova, Gondomar, a GNR prendeu quatro jovens, dois deles menores, por “fortes suspeitas” da autoria de um fogo. A PJ de Aveiro deteve três indivíduos em Vagos, Ílhavo e S. Pedro do Sul.

Este último ficou em prisão preventiva. Em Arouca foram apanhados dois, um em Coimbra e outro na Lourinhã, através da PJ do Porto, Coimbra e Leiria.

"AGUENTAR E TENTAR ANDAR PARA A FRENTE"

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“Ardeu tudo o que tínhamos e o que se salvou serve para fazer pouco”, lamenta Maria Ferreira, que só agora se apercebeu da dimensão da tragédia que os fogos levaram a Coimbra. “Na segunda-feira estava anestesiada e não dei por aquilo que perdi, mas agora falta-me a vontade para fazer as coisas”.

O casal António Cortez, de 67 anos, e Maria Ferreira, 66 anos, vive em Casal do Lobo, na Mata Nacional de Vale de Canas. Ele, que trabalha há 30 anos na reparação de artigos de campismo, perdeu a conta aos prejuízos, que “não estão cobertos pelo seguro, porque aconteceram do lado de fora da casa de arrumação”.

Para além de ter perdido o carro que normalmente utilizava, ficou sem 31 caravanas – 10 que estavam para reparar e 21 arranjadas –, seis atrelados, quatro viaturas que estavam “paradas há algum tempo”, três rulotes “cheias de material”, tampas de fibra e máquinas agrícolas. “Foi tudo embora, até um tractor e um atrelado novo que um amigo me pediu para guardar. Aqui, foi o cemitério dele”, afirma António Cortez, com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto, frisando que não sabe o que há-de “fazer à vida”.

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O futuro não é visto com bons olhos. “Temos de aguentar e tentar andar para a frente”, diz o casal, apesar de faltarem as forças para tentar endireitar “uma parte da vida”.

21 FOGOS ACTIVOS

Às 22h00 de ontem existiam 21 incêndios por circunscrever em nove distritos. O que mais meios tinha continuava a ser o de Coimbra, com 509 bombeiros e 135 viaturas.

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SEGUROS

A Associação Portuguesa de Seguros abriu um inquérito junto das seguradoras para apurar o valor das indemnizações a pagar em resultado dos danos causados pelos fogos.

SOCORROS

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Os elementos do Instituto Nacional de Emergência Médica destacados para os locais atingidos pelos fogos prestaram assistência médica a 509 pessoas e ajudaram a retirar 1349, entre sábado e segunda-feira.

IMPRENSA E BBC

A imprensa internacional tem destacado nas primeiras páginas de vários jornais os fogos em Portugal, e levaram o canal britânico BBC a enviar uma equipa para reportar o drama.

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