Ataque ao alterne
A brasileira, de cabeleira loura e mini-saia branca, pinta os lábios com uma mão e segura o cigarro com a outra. Parece indiferente aos militares da GNR e aos inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras que correm de um lado para o outro, num bar de alterne da Codicieira, arredores de Sintra, na tentativa de identificar todas as suas colegas. A música que a empurrava para malabarismos na barra terminou mais cedo.
Estava sentada num banco com um cliente, que lhe pagou um copo em troca de dois dedos de conversa, quando a Polícia entrou – e, como ela disse, lhe “estragou o barato”. O cliente teve de pagar e sair. Ela, por se encontrar em situação ilegal no País, foi parar ao posto da GNR de Rio de Mouro. Esta brasileira foi apenas uma das 96 mulheres identificadas, ontem de madrugada, pela GNR, numa operação conjunta com o SEF de Cascais, em onze bares de alterne do concelho de Sintra.
Neste bar da Codicieira estão mais seis mulheres. Todas elas de mini-saia, sandália alta e decote ousado – todas aguardam a carrinha para as levar para o posto. Não parecem importar-se e até e brincam com o caso.
Noutro bar de ‘strip’, em Odrinhas, os clientes, sentados de cerveja na mão assistem à fiscalização das dançarinas. “Elas não se enervam, já estão habituadas”, diz um militar. Uma morena, vestida de lycra branca, não esconde o nervosismo. Sabe que desta vez será mesmo detida e conduzida a tribunal. Não é novata nas visitas ao posto da GNR. Já tinha sido notificada a abandonar o País. Mas não o fez.
À porta de outra casa de alterne visitada pela GNR, em Vila Verde, está uma mulher na sua primeira noite de trabalho: escapou à rusga, porque é portuguesa, do Norte.
O novo posto da GNR de Rio de Mouro tornou-se pequeno para tantas mulheres. O resultado da megaoperação soube-se às 07h00: cinco imigrantes vão ser expulsas, 23 têm de abandonar o País e seis têm de comparecer no SEF.
GNR 'VISITOU' 11 BARES
A operação ‘Noite Tranquila’ desenrolou-se em onze estabelecimentos de diversão nocturna do concelho de Sintra, onde ocorrem frequentemente espectáculos de ‘striptease’. Pela 01h00 de ontem, várias equipas de militares da GNR de Sintra e de inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras entraram nos onze bares em simultâneo – para “evitar fugas de informação”, segundo o tenente Pedro Nogueira, comandante do Destacamento de Sintra.
A operação de combate à imigração ilegal decorreu em Odrinhas, Mira Sintra, Tala, Rio de Mouro, Fitares, Abrunheira, Mem Martins, Terrugem, Fachada, Codiceira e Pobral – todas localidades do concelho de Sintra. Foi a maior operação do género realizada na região.
'STOP' A 250 CARROS
Duas horas antes de a GNR atacar os bares de alterne de Sintra foi montada uma operação de fiscalização de trânsito em pontos estratégicos na área do destacamento: Sintra, Colares, Casal de Cambra, Mira Sintra e Rio de Mouro.
O objectivo era que os militares ficassem colocados em locais de onde pudessem sair o mais rapidamente possível para reforçar as equipas de inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras no ataque às casas de alterne.
Em duas horas de ‘Operação Stop’, a GNR fiscalizou 250 viaturas e fez duas detenções: uma por condução sob efeito de álcool e outra por condução sem habilitação legal para o efeito. Foram passadas 22 multas, seis por contra-ordenações leves e 16 por infracções graves.
RECUSADOS 4.146 VISTOS
A 31 de Dezembro de 2005 residiam no País 457 721 estrangeiros legais, o que corresponde a quatro por cento da população nacional. No ano passado, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras intensificou o combate à imigração ilegal e recusou a entrada a 4146 estrangeiros, 1591 dos quais por falta de visto ou por serem titulares de um visto caducado.
Segundo o relatório anual do SEF, a maior parte das recusas ocorreu no aeroporto de Lisboa, onde foi negada a entrada a 2161 estrangeiros (2161 dos quais brasileiros). A juntar às recusas, o SEF expulsou 784 imigrantes, mais 270 do que no ano anterior: 397 foram afastados por decisão administrativa e183 foram, efectivamente, conduzidos à fronteira – e 204 imigrantes foram expulsos por decisão judicial (mais 42 do que em 2004) como pena acessória pela prática de crimes.
IDENTIFICADAS
A operação ‘Noite Tranquila’, que mobilizou 65 militares do Destacamento da GNR de Sintra e 26 inspectores do SEF, permitiu identificar 96 estrangeiras que trabalham em casas de alterne de Sintra: 39 brasileiras, 26 romenas, 14 ucranianas, seis letãs, cinco bielorrussas, três moldavas, duas angolanas e uma bulgara.
IRREGULARIDADES
Das 96 mulheres identificadas, 34 encontravam-se em situação irregular: 23 foram notificadas para abandonar voluntariamente o País, seis para comparecer no SEF, e cinco vão ser expulsas. Foram passadas sete multas aos bares.
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