Agricultores temem o pior

Os agricultores do Barlavento algarvio estão muito preocupados com a seca que aflige a região e temem o futuro, já que são poucos os que possuem furos artesianos capazes de garantir a rega das plantações. “Se isto continuar assim muita gente vai ter problemas”, teme Hélder Fernandes, floricultor e hortofruticultor em Odelouca, Silves, para onde se mudou recentemente.

08 de janeiro de 2005 às 00:00
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“Sempre me dediquei a estas actividades e é preciso recuar aí uns 30 anos para me lembrar de um Inverno tão seco”, diz, clarificando o grave problema que a seca acarreta: ”A água da barragem do Arade é fundamental para desenvolver o meu trabalho e se ela faltar terei de parar.”

Hélder Fernandes está a construir uma estufa e outros equipamentos – incluindo um tanque de grandes dimensões –, na esperança de não vir a ter problemas relacionados com a falta de água. “Trabalhei muitos anos num terreno nas Fontes da Matosa [também no concelho de Silves], que vendi recentemente, e nunca tive dificuldades de abastecimento de água da barragem, mas este ano a situação está má.”

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O drama só não será maior, frisa o floricultor, “por haver cada vez menos gente a trabalhar na terra. Isto quase não dá para viver e são cada vez mais os terrenos abandonados. Os produtos chegam do estrangeiro mais baratos e as pessoas preferem outras ocupações mais rentáveis e menos cansativas. Agora eu já tenho 63 anos, estou velho, e não sei fazer mais nada…”

Muitas plantações de fava, ervilha, trigo e outros produtos “podem ficar comprometidas se a água faltar, cabendo grandes culpas aos vários governos, pois não se compreende que a barragem de Odelouca tenha demorado tanto para avançar e agora esteja parada. Com essa barragem pronta, não haveria problemas mesmo em anos de seca.”

A mesma opinião tem José Gregório, de 59 anos, agricultor em S. Bartolomeu de Messines, também no concelho de Silves. “Pararam as obras em Odelouca e agora queixam-se… O que pode valer a muitos agricultores, se não chover nos próximos meses, serão os furos que muitos possuem nas suas propriedades.”

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A agricultora Fernanda Santos, de Silves, também não esconde os seus temores. “A falta de água na Barragem do Arade vai trazer grandes problemas à agricultura, em particular na área do concelho de Silves integrada no plano de regadio servido por aquela albufeira.”

Já os citrinos – parte importante da actividade agrícola de Silves – têm de ter as árvores regadas a partir de determinada altura do ano. Se a água faltar na barragem, o futuro dos agricultores está em causa, principalmente dos mais pequenos.

PRÓXIMAS SEMANA DECISIVAS

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Pastagens ao nível da terra num período em que a erva já deveria ter pelo menos um palmo de altura e culturas de cereais com escassez de água são o que mais se destaca nos campos do Alentejo. Segundo António Perdigão, um agricultor que este ano semeou 200 hectares de trigo, “se não chover dentro de duas ou três semanas as culturas já afectadas ficarão comprometidas”.

Se a chuva não cair nos próximos 15 dias, também as culturas de regadio estão ameaçadas. “Neste momento, a pequena barragem que aqui tenho no meu monte está com um quinto da capacidade normal nesta época do ano. Deveria estar com cinco mil metros cúbicos de água e está com cerca de mil”.

Complicada está igualmente a questão da alimentação dos animais. Se, por um lado, há agricultores, alguns do distrito de Beja, que já só alimentam o seu efectivo pecuário com rações, “o que obriga a elevados custos”, outros começaram em 2004 a gastar stocks de feno para este ano.

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Entretanto, o Governo vai avançar mais cedo com os pagamentos de apoios comunitários aos agricultores para fazer face aos problemas inerentes ao período de seca. “O Governo decidiu antecipar as verbas, algo que está previsto na legislação comunitária em casos excepcionais, atendendo ao facto de se estar a atravessar um período de Inverno de seca”, afirmou o ministro da Agricultura, Carlos da Costa Neves.

DESESPERO DO ROXO SEM ÁGUA

A barragem do Roxo, entre Beja e Aljustrel, é uma das albufeiras alentejanas que apresenta um enorme défice de água. “Está a 18 por cento da capacidade máxima. Dos 96 milhões de metros cúbicos tem apenas 21 milhões armazenados e se não chover até Março não haverá água suficiente para o abastecimento dos agricultores”, frisou com preocupação o responsável técnico da Associação de Beneficiários do Roxo, Carlos Marques. Este cenário de seca está, diz o mesmo responsável, a deixar desesperados os cerca de 700 agricultores que beneficiam das águas do Roxo para regar os seus campos de cultivo.

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OBRA DE ODELOUCA NÃO ANDA

Tida como uma obra fundamental para resolver os problemas de abastecimento de água no Algarve, a barragem do Odelouca está parada desde Novembro de 2003, na sequência de uma queixa apresentada pela Liga da Protecção da Natureza contra o Estado português, o que levou à suspensão do apoio comunitário, no valor de 65 milhões de euros.

Sem dinheiro, o Estado entrou em rotura com o consórcio responsável pela construção da obra e tomou posse administrativa da mesma em Fevereiro de 2004.

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