ANTÓNIO BENTO: HOUVE MUITOS MINISTROS A BRINCAR

António Bento, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos, deixa o cargo ao fim de 25 anos. No congresso em Peniche torna-se hoje presidente. Polémico, como sempre, diz ao CM que nem ele nem os doentes vão ter saudades do actual ministro da Saúde.

05 de abril de 2003 às 01:29
ANTÓNIO BENTO: HOUVE MUITOS MINISTROS A BRINCAR Foto: Arquivo CM
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Correio da Manhã- Esteve 25 anos como secretário geral do Sindicato Independente dos Médicos. O que o levou a não querer, agora, continuar?

António Bento - Há três anos, quando me candidatei novamente a secretário-geral, já tinha decidido não continuar, mas não disse a ninguém. É preciso mudar, dar a vez aos mais novos.

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Mas vai continuar ligado ao SIM?

- Sim.Vou candidatar-me a presidente do Conselho Nacional do Sindicato.

Qual é a diferença entre ser secretário-geral e presidente?

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-Deixo de dar a cara no dia-a-dia pelo sindicato, mas não me afasto das decisões, pois o poder máximo está no Conselho Nacional.

Não acha que o SIM está demasiadamente ligado à sua cara?

- É natural. Vêem-me há quase 25 anos.

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Carlos Arroz é o seu sucessor?

-Em princípio sim, até porque parece ser o único candidato.

Ao longo destes 25 anos, qual o momento mais difícil?

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- Foi a negociação do decreto-lei 73/90. O Governo liderado por Cavaco Silva queria colocar todos os médicos em dedicação exclusiva. Foi um braço-de-ferro, mas acabou por ser um momento muito gratificante.

- Porque negociámos com o Governo 250 horas e conseguimos chegar a um bom resultado. A ministra Leonor Beleza, através dos seus secretários de Estado, negociou verdadeiramente com os sindicatos.

Com quantos ministros da Saúde lidou ao longo de todos estes anos?

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- A sério poucos, a brincar muitos. Foram, julgo eu, à volta de doze.

Quais foram os ministros a sério?

- Olhe, nenhum foi bom ministro por razões diversas. A Leonor Beleza, por exemplo, podia ter sido uma boa ministra; podia ter mudado realmente as coisas na Saúde, mas com as questões do Costa Freire acabou por sair. Outro momento em que a Saúde podia ter andado foi com a Maria de Belém, mas às tantas zangámo-nos. A Manuela Arcanjo também tinha capacidade de conciliação e podia ter feito mais, mas saiu do Governo

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Gostou, então, mais de ver mulheres do que homens no ministério.

- Não. O Correia de Campos tinha uma boa preparação e podia ter ajudado a dar muitos avanços, mas fazia tantas declarações gratuitas contra os médicos – parecia ter um prazer mórbido nisso – que a Ordem entrou em conflito com ele.

Ainda não me disse qual o ministro que mais gostou. Foi sempre tão polémico e agora quer sair em paz?

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- Fui directo porque sempre defendi um comportamento sindical sem rodeios. Mas é muito difícil dizer qual o melhor ministro. Digo é que muitos não tinham qualificação para o lugar.

- O actual ministro.

Quando ele sair, se calhar vai ter saudades.

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- Não vou , não. Nem eu nem os doentes.

O que é que sente ter conseguido para os médicos nestes 25 anos?

- Entre muitas coisas, conseguimos, na Madeira, aumentar o vencimento para os médicos. Por outro lado, a obra social do sindicato dá-me muita alegria.

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- Temos um fundo social que paga aos associados as custas judiciais e os tratamentos cirúrgicos e também empresta dinheiro.

Quantos sócios tem o SIM?

- Estamos a caminho dos cinco mil.

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Que concelho vai dar ao seu sucessor?

- Se for o Carlos Arroz não preciso de dar. Ele trabalhou comigo três anos

Mas há quem não concorde com a candidatura de Carlos Arroz...

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- Eu também não era unânime e muitas vezes votaram contra mim.

O que pretende fazer como presidente do SIM?

- Dedicar-me à obra social do sindicato.

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Quer mesmo sair em paz... Até fez as pazes com o outro sindicato médico, com quem estava zangado há oito anos.

- Não foram pazes, mas uma necessidade de entendimento. Não somos irresponsáveis; e quando se ataca os médicos desta maneira, como é a reforma dos cuidados primários, temos de deitar para trás das costas as diferenças e defender a saúde e os profissionais.

António Bento tem 63 anos e destes, esteve 39 anos a trabalhar como médico anestesista nos Hospitais Civis de Lisboa. Licenciou-se pela Faculdade de Medicina de Lisboa, fez o internado geral no Hospital de Arroios, passou, entretanto para o Hospital de Santa Marta e depois para o Hospital São José. Pelo meio esteve na Guerra colonial como médico, primeiro em Cabinda e depois em Luanda. Nos seus tempos de estudante chegou a estar preso cinco dias em Caxias, em 1962, ano da greve académica.

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