Armas tramam coronel
Mais de uma centena de armas ilegais, desde Kalashnikov até espingardas automáticas de modelos mais recentes, passando ainda por pistolas, todas de calibre de guerra, foram apreendidas na última segunda-feira, pela Polícia Judiciária Militar (PJM) ao director do Museu Militar dos Açores, coronel José Manuel Salgado Martins, na reserva. Nesta acção, que contou com o apoio da PSP e ocorreu na ilha de S. Miguel, resultou a detenção do oficial do Exército.
Salgado Martins, que ontem à noite foi transferido de avião para Lisboa, por ordem do Tribunal de Ponta Delgada, deve, segundo o seu advogado João Pedro Carreiro, ser ouvido hoje no Tribunal da Boa-Hora, Lisboa. João Carreiro revelou ainda que o juiz de instrução criminal que ouvirá o coronel vai ser assessorado por um militar.
A decisão da transferência do processo para a Boa-Hora foi tomada pelo Tribunal de Ponta Delgada por considerar que “se trata de investigação de uma secção especial”.
Segundo fonte da PJM, que conduziu as investigações, este acervo de armas – que seriam a colecção pessoal do coronel –, não está legalizado e tem tanto armas raras como outras mais recentes e todas em condições de utilização. Algumas pistolas tinham mesmo inscrita a sigla PIDE, da polícia política do regime. Foram também encontradas centenas de munições de diversos calibres.
Além do mais, pende sobre o oficial a suspeita de que estaria teria ainda na posse, de forma ilegal, de uma viatura Volkswagen ‘Carocha’ e mobiliário pertencentes ao Exército. A viatura – que em meados dos anos 70 era atribuída como carro de serviço aos comandantes das unidades militares – fará parte do acervo do Museu Militar.
“Esta apreensão e detenção surgiu na sequência de uma acção integrada de pesquisa de armas ilegais, quer oriundas dos teatros de operação de África quer da Europa Central e dura há vários meses” disse ao CM o tenente-coronel Nunes, da PJM.
O coronel Salgado Martins, nascido no Continente, vive há mais de 30 anos nos Açores, comandou o Grupo de Artilharia e Guarnição 1, foi Chefe do Estado-Maior do Quartel-General dos Açores e comandou também o Regimento de Guarnição 2.
MUSEU
Salgado Martins fez comissões no Ultramar e já então coleccionava armas. Formado em História, foi ele que liderou a criação do Museu Militar dos Açores, já depois de passar à reserva. O ‘Carocha’ era utilizado diariamente pelo coronel, alegadamente com o conhecimento e autorização dos seus superiores.
DENÚNCIA
Fonte próxima do coronel Salgado Martins, pessoa muito respeitada nos Açores, considera que o oficial foi vítima de uma denúncia de alguém que frequentava a sua casa.
INVESTIGAÇÃO
Tal como o CM noticiou a 25 de Março deste ano, a PJM tem em curso várias investigações sobre o tráfico de armas realizado por militares. Alegadamente serão usados aviões da Força Aérea e navios da Marinha para trazer armas ilegais de missões do exterior. Serão, no entanto, casos individuais.
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