Assistente social sacou mais de 83 mil euros a utentes da Santa Casa
Técnica que trabalhou oito anos na instituição, em Arganil, vai ser julgada por burlar dois idosos.
Doentes e fragilizados pela idade avançada, os utentes eram presas fáceis para uma assistente social, que prestou serviço na Santa Casa da Misericórdia de Arganil, e se apropriou de mais de 83 mil euros de dois idosos. Acusada de burla qualificada, a mulher, atualmente com 48 anos, vai ser julgada no Tribunal de Coimbra.
Os factos que estão em causa ocorreram entre 2018 e 2021. A arguida, que exerceu funções de técnica superior de serviço social na instituição entre março de 2013 e julho de 2021, era responsável pelo acompanhamento dos utentes do centro de dia.
Cumprindo um plano que tinha preparado previamente, aproveitava-se da relação de confiança que tinha com os utentes. A primeira vítima identificada na acusação foi um homem, à data com 88 anos. Para além de vários problemas de saúde, tinha acabado de perder a mulher.
No sentido de reforçar a relação, o despacho refere que a arguida começou a deslocar-se frequentemente a casa do utente, disponibilizando-se para lhe tratar de todos os assuntos, nomeadamente o pagamento de contas.
Convenceu-o a assinar uma procuração, ficando assim com poderes para movimentar as suas contas. Entre 2018 e 2020 apropriou-se de mais de 73 mil euros, deixando o idoso numa “situação económica precária”, descreve a acusação.
No entanto, não pagou as contas, nem os medicamentos na farmácia durante um ano, comprou um frigorífico a pedido do idoso, que não pagou à empresa, tendo sido depois os familiares da vítima a fazê-lo. Por fim, ainda pediu a uma familiar do utente para pagar duas mensalidades que estavam em dívida à Santa Casa da Misericórdia, mas nunca entregou o dinheiro na instituição.
A segunda vítima foi uma mulher, na altura com 80 anos. A assistente social disponibilizou-se para lhe tratar do pedido para passar a receber a reforma francesa numa conta de um banco português. Pediu-lhe os dois cartões bancários e os respetivos códigos. Enquanto fazia transações, ia dizendo à idosa que as contas estavam bloqueadas. Em sete meses levantou mais de 10 mil euros, enquanto a utente acumulava uma dívida superior a nove mil euros de mensalidades na Santa Casa da Misericórdia.
Sequestro e furto arquivados
O inquérito teve início numa queixa apresentada pelo idoso contra a assistente social por o ter institucionalizado no lar contra a sua vontade e sem comunicar à família. Tais factos poderiam configurar um crime de sequestro. No entanto, a investigação, conduzida pela Polícia Judiciária do Centro, não conseguiu determinar que a arguida tivesse atuado com a intenção de o privar da sua liberdade e locomoção e os autos foram arquivados nesta parte.
A mesma decisão foi tomada relativamente à eventualidade da prática de um crime de furto. O idoso disse que forneceu à arguida as chaves de casa, onde tinha peças em ouro que desapareceram. Durante o interrogatório, a assistente social negou que tivesse acesso à casa. Confirmou apenas que acedia à garagem para tratar das galinhas. Também no caso deste crime, foi arquivado devido à dificuldade em o provar.
O Ministério Público requereu a leitura dos depoimentos das vítimas em tribunal. No caso do homem, faleceu já em março de 2022, enquanto a outra utente está impossibilitada de o fazer devido ao seu estado de saúde.
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