Atingido por hélice afoga-se no Tejo
"Ficou para sempre no fundo do rio". Com os rostos cobertos de lágrimas, dezenas de familiares de um mergulhador desaparecido anteontem nas águas do Tejo, na zona de Alcochete, acompanhavam ontem, em desespero, as buscas pelo corpo de Fernando Farinha, de 44 anos, ex-fuzileiro e advogado especializado em Direito Marítimo. O homem e dois amigos faziam apanha ilegal de bivalves através de mergulho com botija quando a Polícia Marítima surgiu, na terça-feira. Fernando mergulhou e terá sido atingido pela hélice do barco, onde ficou um dos colegas. Não voltou à tona.<br/><br/>
"É um dia tão triste, não consigo acreditar. O meu marido morreu para matar a fome à família, mas, acima disso, a lutar e a defender a legalização da apanha de bivalves. E agora, como vou contar aos nossos filhos que o pai se foi?", lamentava-se Tina Mendes, mulher do desaparecido – que passou todo o dia no pontão de Alcochete a acompanhar as buscas.
Apanhador de bivalves desde sempre, Fernando, pai de um menino de um ano, uma menina de dois e uma jovem com 16 anos, "decidiu estudar Direito para aprender a defender-se". Tirou o curso, seguido de um mestrado em Direito Marítimo. Anteontem à noite, foi a primeira vez em vários meses que saiu para o mar. "Já não fazia isto há tanto tempo, até lhe pedi para não ir. Agora aconteceu esta desgraça", contou a mulher de Fernando ao Correio da Manhã.
O alerta foi dado pelas 20h00. Foi o próprio timoneiro que, depois de colher o colega, alertou as autoridades e, de seguida, ligou à mulher da vítima.
O mergulhador que acompanhava o desaparecido foi resgatado com vida. Fernando terá perdido os sentidos depois de ter sido atingido pelo barco. Ontem, durante todo o dia, meios dos Bombeiros de Alcochete, da Polícia Marítima e um helicóptero da Força Aérea percorreram a área onde Fernando desapareceu – 1,5 km da costa em Alcochete a 2000 metros da ponte Vasco da Gama.
"Só espero que o rio devolva o meu sobrinho", desabafou Jacinto, o tio que cuidou de Fernando desde bebé.
AMIGOS JUNTAM-SE A BUSCAS
Bombeiros e Polícia Marítima iniciaram buscas logo depois do alerta para o desaparecimento, anteontem, pelas 20h00. E a procura continuou ontem durante todo o dia. As autoridades apontaram o facto de ser "uma grande área de procura e as águas bastante turvas" como principais dificuldades para encontrar o corpo. Vários amigos e colegas de Fernando decidiram juntar-se às buscas, logo desde a manhã. O primeiro barco a sair, logo pelas 11h00, levava o irmão da vítima, o colega que estava com Fernando na apanha ilegal e que foi resgatado com vida, entre outros. Depois, por volta das 13h00, mais dois barcos repletos de colegas entraram nas águas para tentar encontrar algum vestígio do desaparecido.
REVOLTADOS COM POLÍCIA MARÍTIMA
Enquanto decorriam as buscas por Fernando Farinha, ontem de manhã, em Alcochete, viveram-se verdadeiros momentos de tensão entre os familiares, amigos do desaparecido e vários populares, entre os quais muitos mariscadores, que insultaram os elementos da Polícia Marítima no local – a quem culpavam pelo desaparecimento do homem de 44 anos. A Polícia Marítima tem intensificado as acções de fiscalização para combater a apanha ilegal de bivalves, principalmente na Margem Sul do Tejo, o que contribuiu para a revolta dos mariscadores e pescadores, ontem de manhã – que acusaram a Polícia Marítima de perseguição. "O meu marido foi um dos pioneiros para tentar legalizar a apanha da amêijoa. Era de louvar que se legalizasse a actividade, há outras muito piores", desabafou ontem a mulher, Tina Mendes, ao CM.
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