CARNAVAL DE LOULÉ: A MAGIA DOS BASTIDORES

Plumas, lantejoulas, lamés, tintas e pestanas postiças a condizer com sedas e cetins de cores garridas fazem parte, há dois meses, da vida de cinco costureiras louletanas. Sob a orientação da veterana Júlia Guerreiro, confeccionam cerca de duas centenas de fatos para o desfile carnavalesco, que sai amanhã para a Avenida José da Costa Mealha.

01 de março de 2003 às 02:57
CARNAVAL DE LOULÉ: A MAGIA DOS BASTIDORES Foto: MIRA
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Uma tarefa árdua que a costureira chefe, coordenadora há 16 anos do grupo de modistas que vestem os tripulantes dos carros alegóricos enfrenta com espírito de missão: “Sempre gostei muito de brincar ao Carnaval e de mascarar-me. Talvez seja por isso que gosto tanto deste ambiente", revela Júlia Guerreiro.

Um ambiente que adquire um ritmo cada vez mais dinâmico à medida que a data do desfile se aproxima: "Os últimos dias são os piores, mas a alegria e boa vontade de todas nós alivia o trabalho. Os fatos estão prontos, apenas faltam alguns retoques, mas até domingo tudo estará acabado", promete. Este ano, as costureiras empenharam-se nos fatos de bruxas, palhaços, piratas ou monstros, mas também há disfarces dos Anos 20 destinados a carros como o do ‘Casino’.

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Todos os anos são utilizadas largas centenas de metros de tecido, e embora alguns fatos sejam recuperados de edições anteriores, há sempre a necessidade de renovar trajes em função do tema carnavalesco: “Depois de estruturar os modelos, compro as rendas, os tules e todos os acessórios necessários. Alguns tecidos são comprados em Loulé e outros em Espanha, onde se encontram coisas diferentes. As plumas vêm da China e do Brasil", revela.

Até terça-feira o ‘atelier’ de costura é transferido para o recinto do desfile, onde duas costureiras apetrechadas com um ‘kit’ de emergência (máquina de costura, elásticos, alfinetes, agulhas e linhas) garantem pequenos arranjos. “É um trabalho muito gratificante que vale a pena", refere Júlia Guerreiro, já com saudades da azáfama destes dias mas pronta para brincar ao Carnaval.

IDEIA SURGIU DE MADRUGADA

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PAÍS FELIZ

A ideia para o tema do Carnaval deste ano partiu de Júlio Guerreiro, organizador do evento: "Acordei às 03h00 e liguei de imediato para o artista Luís Furtado. Só lhe disse a frase “Tesos, de tanga, mas felizes”. O resto é contigo’. Ele absorveu a ideia e traduziu na íntegra o que eu tinha pensado", revela o autor da ideia que pretende satirizar a actual situação económica nacional: “Apesar de estarmos tesos, somos um País feliz", ironiza Júlio Guerreiro.

GUERRA AOS OVOS

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Os ovos e a farinha, que todos os anos mancham a alegria carnavalesca, atingindo o público e quem desfila nos carros alegóricos, deverão ter os dias contados nesta edição, garante a organização: “Um dos locais de onde se lançavam ovos era dos quiosques instalados na Avenida José da Costa Mealha, por isso vamos instalá-los todos numa única área. Dessa forma pensamos evitar manifestações menos agradáveis durante o desfile”, revela Júlio Guerreiro.

TUDO COMEÇOU EM 1905

A primeira edição do Carnaval de Loulé começou a ser pensada numa noite de Outubro de 1905. Um grupo de louletanos, reunidos num café local, ouvia atentamente um seu conterrâneo, José da Costa Guerreiro, que mais tarde viria a ser presidente da câmara. Aquele ilustre algarvio, que viajava muito pela Europa em negócios tinha assistido, nesse ano, em Anvers, na Bélgica, aos festejos carnavalescos. Numa noite de Feira Franca em Loulé, José da Costa Guerreiro descreveu àquele grupo de amigos o que viu. Trocaram algumas ideias e de imediato foi constituída uma comissão que organizou o primeiro Carnaval em Loulé no ano seguinte. Os fundos tinham como destino a Santa Casa da Misericórdia local.

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Até 1973, “as receitas permitiram que Loulé tivesse um dos melhores, senão o melhor hospital sub-regional do País, com bloco operatório e tudo", conta Júlio Guerreiro, membro da organização.

Após o 25 de Abril de 1974, devido à nacionalização das misericórdias, assumiram a organização do corso carnavalesco o Sporting Clube Atlético substituído posteriormente pelo Louletano. A autarquia tomou depois as rédeas do evento, ao aperceber-se da projecção turística que o concelho e a região poderiam ter na época baixa. Assim permanece até aos dias de hoje, continuando o Carnaval de Loulé a ser considerado o principal cartaz turístico realizado durante a época baixa no Sul do País.

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