Casados à moda antiga

Ela chega vestida de preto e lenço branco, com muito ouro ao peito. Ele, também de preto e camisa branca, usa chapéu de aba larga. Os convidados ocupam os lugares da frente na nave central do Mosteiro da Batalha. Muitos trajam como nos finais do século XIX e assistem a uma cerimónia comemorativa de bodas de prata e de renovação de votos matrimoniais.

14 de junho de 2007 às 00:00
Casados à moda antiga Foto: Ricardo Graça
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Os protagonistas de celebração religiosa são Fernanda Bagagem e Manuel Gregório, dois elementos do Rancho Folclórico Rosas do Lena, da Rebolaria (Batalha), que há 25 anos casaram envergando trajos tradicionais portugueses, numa recriação histórica até então inédita nos moldes em que foi organizada.

“Eu tinha 11 anos quando entrei para o rancho. Praticamente foi nele que cresci. Conheci o Manel, namorámos e, como fazíamos de noivos nas recriações, o Travaços Santos – historiador e membro do grupo – incentivou-nos a casar como era tradicional e foi o que aconteceu”, conta Fernanda Bagagem, no final da renovação dos votos matrimoniais, terça-feira à noite, no Mosteiro da Batalha.

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“A cerimónia de há 25 anos ficou muito marcada na nossa vida e a nossa filha mais velha – Daniela, de 22 anos, irmã de Beatriz, de 11, ambas elementos do rancho – quis que nós a repetíssemos e foi o que fizemos”, explica.

Quando Manuel Gregório chegou ao Rancho Folclórico Rosas do Lena, há 30 anos, a sua futura mulher já lá andava há quatro: “Começámos a namorar há 28 anos e passámos à prática o papel que desempenhávamos no grupo: ficámos noivos e casámos, seguindo os preceitos tradicionais. Nunca alguém tinha casado assim.” “Foi um caso único e óptimo, porque desta forma não gastámos dinheiro”, diz, a brincar, Manuel Gregório.

Na homília, o padre José Gonçalves – que fez o casamento a 12 de Junho de 1982 – elogiou o exemplo de vida matrimonial do casal Fernanda e Manuel, ambos com 45 anos, e censurou aqueles que pensam que “hoje se vive bem sem a família” e o “egoísmo” dos que, mesmo tendo filhos, “que depois andam de um lado para o outro”, escolhem desfazer o casamento.

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O ritual das bodas de prata e de renovação dos votos matrimoniais foi em quase tudo semelhante ao do casamento. No final da celebração religiosa, os noivos e os 150 convidados seguiram para a sede do Rancho Folclórico Rosas do Lena, onde decorreu o banquete. O grupo dançou alguns temas musicais da sua recolha etnográfica, numa eira entre o edifício-sede, uma Casa da Cultura instalada num palheiro recuperado, e um anexo transformado numa taberna típica.

E não faltaram os tradicionais arcos, enfeitados com verdura e lenços, sob os quais estavam mesas com petiscos e bebidas, como nos finais do século XIX faziam os vizinhos dos noivos para lhes desejar um futuro de felicidade. No caso de Fernanda e Manuel os votos deram resultado.

RECRIAÇÃO HISTÓRICA A DUPLICAR

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Na recriação histórica feita em 1982, os homens vestiam jaqueta, colete e calças de boca de sino, de tecido preto ou serrabeco castanho. Na cabeça, usavam um chapéu de aba larga ou um barrete com borla de pendente atirada para trás. Sobre o corpo, levavam uma camisa de linho ou riscado, mas em qualquer dos casos bordada, e um lenço tabaqueiro a sair de uma algibeira da jaqueta. À frente, a cruzar o colete, usavam uma corrente de prata. Era costume o noivo usar ainda um chapéu de chuva preto.

As mulheres levavam uma saia de riscadilho, chita ou ‘amure’ e por baixo a algibeira. Sobre a saia, tinham um avental. Calçavam sapatos atanados ou de calfe e no pescoço colocavam um cordão em ouro. Na cabeça, sobre o lenço, tinham um chapéu de prato ou janata de ver a Deus. Na terça-feira à noite, o ambiente que se viveu no Mosteiro da Batalha e em Rebolaria era semelhante.

CORTEJO FOI DE CARRO

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Em 1982, o cortejo nupcial percorreu a pé os três quilómetros que separam o Mosteiro da Batalha de Rebolaria. Pelo caminho, havia três arcos com verduras e mesas postas, oferta dos vizinhos. Desta vez, os arcos foram colocados no largo fronteiro à sede do rancho e o cortejo cumpriu a distância em carros particulares.

O Rancho Folclórico Rosas do Lena, fundado em 1963, é um dos mais importantes do País. Representa a etnografia do concelho da Batalha e da Alta Estremadura. Já fez 27 digressões ao estrangeiro, participou em festivais internacionais em nove países e tem 11 trabalhos discográficos editados. Foi premiado várias vezes.

Há 25 Anos. “Casaram-se no Mosteiro com todo o folclore tradicional”, foi como o CM noticiou na sua capa, em Junho de 1982, o casamento de Fernanda e Manuel.

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