Da devastação ergueu-se uma capital mais moderna

O dia de Todos os Santos que amanhã se comemora está associado à maior tragédia da história de Portugal, com várias dezenas de milhares de mortos e vasta destruição na cidade de Lisboa e noutras localidades no Centro e Sul do País.

31 de outubro de 2005 às 00:00
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250 anos depois, o balanço que se faz das suas consequências é, porém, menos gravoso do que o de muitos dias de vã glória nacional. Por paradoxal que pareça, no médio prazo histórico e em termos indirectos, as suas consequências revelaram-se até positivas.

Não há catástrofe que se compare. Os três grandes abalos de terra e os dois maremotos que entre as 9h40 e o meio dia do dia 1 de Novembro de 1755 puseram Lisboa a pensar no fim do mundo provocaram uma mortandade e devastação sem par na vida dos portugueses. Apesar da dissonância dos números calculados na época, é actualmente possível apontar para cerca de 20 mil mortos, o que representaria um pouco mais de 10 por cento dos habitantes da capital. E isto só e sobretudo em Lisboa, já que as extensas destruições registadas de Vila Real de Santo António, na fronteira do Algarve com Espanha, a Guimarães, no Minho, e de Castelo de Vide, na raia alentejana, à Ericeira, na costa Atlântica, foram enormes, mas não fizeram número de vítimas que se lhe comparasse, devido à fraca densidade populacional.

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Derrocadas, mortes, pessoas enterradas vivas debaixo das ruínas ou feridas sem salvação com o eclodir de incêndios depois do arraso dos maremotos foram tragédia sobretudo de lisboetas e também dos habitantes de algumas cidades de Marrocos, no norte de África, onde se aponta também para milhares de vítimas.

A vida acabou para muitos, mas o mundo não acabou. E de uma cidade devastada como ficou Lisboa ergueu-se uma capital mais moderna e organizada. É certo que demorou quase um século a reconstruir, mas não foi por causa do terramoto que o Portugal da epopeia dos descobrimentos e das riquezas do Império se atrasou no concerto das nações europeias a que estava então praticamente limitado o desenvolvimento económico mundial. Faltavam 21 anos para a proclamação da independência dos Estados Unidos da América e a Turquia ainda dominava o Médio Oriente. Por outro lado, a Inglaterra já ultrapassara o seu interregno de monarquia, vivia o advento da revolução industrial e tinha muitos mercadores a negociarem em Lisboa.

CACILHAS RECORDA SISMO

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Os bombeiros voluntários de Cacilhas, Almada, em colaboração com a paróquia local, organizaram ontem, em simultâneo, três simulacros de incêndio. As situações recriaram, respectivamente, situações de fogo acontecidas em 1891, 1930 e 1950. Segundo António Godinho, comandante dos Voluntários de Cacilhas, esta foi a “melhor forma encontrada para assinalar os 250 anos do terramoto que assolou a zona de Lisboa, em 1 de Novembro de 1755”. Nos três simulacros, a corporação de Cacilhas tirou do quartel veículos antigos, consideradas pelo comandante “autênticas peças de museu”. “Esta é uma freguesia muito marcada pelo terramoto. Por isso, assinalámos o aniversário com esta iniciativa”, concluiu António Godinho.

OS EFEITOS BENÉFICOS DA TRAGÉDIA

Dois séculos e meio depois, o balanço do terramoto parece positivo. A conhecida Baixa de Lisboa, que demorou quase cem anos a levantar, dá mesmo uma ideia de modernização de Portugal que só não terá sido melhor por outros atavismos nacionais.

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O terramoto destruiu muito, mas quase não atingiu a incipiente indústria portuguesa como observa o historiador José Vicente Serrão, presidente do Departamento de História do Instituto Superior de Ciências do trabalho e da Empresa (ISCTE). Na sua opinião, não foi o terramoto que desviou o País da industrialização: “A realidade é que a indústria era, à época do terramoto, o sector mais frágil da economia portuguesa. Isso devia-se principalmente a três factores de insucesso que, ademais, eram interdependentes e acabavam por funcionar em círculo, ou triângulo, vicioso: a forte concorrência da oferta externa, facilitada pelo Tratado de Methuen e pela abundância de meios de pagamento em Portugal; a exiguidade do mercado; a incapacidade para atrair o investimento interno.

José Vicente Serrão conclui a sua análise destacando os efeitos positivos: “Os efeitos indirectos do terramoto foram geralmente num sentido positivo. Em primeiro lugar, o movimento de reconstrução criou um importante mercado para as indústrias subsidiárias da construção civil e naval. Em segundo lugar, o esforço financeiro dessa reconstrução, ao reduzir ainda mais a disponibilidade de meios de pagamento das importações, tornou mais premente a necessidade de substituir essas importações pela produção nacional. “Finalmente, é preciso não esquecer que foi precisamente ao novo imposto dos 4%, criado como resposta ao terramoto, que o Estado foi buscar uma boa parte das fontes de financiamento que mobilizou para apoiar a indústria.”

O terramoto do 1 de Novembro de 1755 foi assim uma enorme tragédia, com morte, devastação e um futuro que 250 anos depois se contabiliza positivo.

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09h30 – CCB

Jorge Sampaio assiste à abertura da Conferência Internacional dos 250 Anos do Terramoto.

09h30 – RUÍNAS CARMO

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Cardeal patriarca D. José Policarpo celebra missa em memória das vítimas das catástrofes naturais.

09h40 – SINOS

Tocam a dobrar os sinos de igrejas e capelas de Lisboa.

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19h00 – S. NICOLAU

Celebra missa o bispo auxiliar de Lisboa, D. Manuel Clemente.

21h00 – JERÓNIMOS

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Orquestra e Coro da Gulbenkiam interpretam o ‘Requiem’ de Mozart.

21h20 – MÃE D´AGUA

Manuel Carmo realiza uma perfomance de abertura da exposição ‘1755 – cemitério da Esperança ou as 7 Virtudes para o renascimento’

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21h30 – S. DOMINGOS

Na igreja de São Domingos, ao Rossio, a Orquestra Metropolitana de Lisboa interpreta excertos de óperas estreadas na Ópera do Tejo, destruída pelo terramoto.

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