Epidemia pode alastrar

A “maioria do pessoal médico do Uíge está com medo da epidemia e não quer ir trabalhar. Dizem que falta material e condições de trabalho”, relatou ao Correio da Manhã o padre e director da Cáritas em Angola, Odilon Borjas.

29 de março de 2005 às 00:00
Epidemia pode alastrar Foto: Stephen Morrison (EPA)
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“O país corre o risco de que a doença se alastre”, afirma o padre mexicano há sete anos em Luanda. “O problema está na morgue, onde não se distingue os corpos daqueles que morreram ou não de Marburg”. Mais: as autoridades sanitárias angolanas temem que o vírus atinja os familiares das mais de 80 crianças mortas pela doença.

A última vítima mortal sucumbiu ontem. Trata-se de uma jovem de 19 anos, órfã de mãe também falecida devido à febre hemorrágica. Contam-se 122 mortos. “Estamos à espera que comecem agora a morrer as mães, os pais, os irmãos mais velhos das crianças mortas”, disse à Lusa Carlos Alberto, do Ministério da Saúde angolano.

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Apesar da chegada dos ‘Médicos Sem Fronteiras’ à província do norte de Angola, os técnicos de saúde continuam alarmados.

“Os médicos italianos saíram do país por força da sua própria Embaixada”, conta o português e bispo do Uíge, D. Francisco da Mata Mourisca. É uma consequência da morte de dois médicos, um vietnamita e outra italiana, infectados pelo vírus de Marburg.

Angola ainda não pediu ajuda à AMI e Cruz Vermelha Portuguesa (CVP). “Temos uma delegação no país e estamos a acompanhar a evolução das coisas para ver se é necessário ou não mandar uma missão”, disse Paulo Cavaleiro, da AMI.

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A CVP considera plausível uma intervenção idêntica à ocorrida, há dois anos, na Guiné-Bissau. “Levámos soros e algum material hospitalar”, recorda Ricardo Almeida, um dos responsáveis da organização.

A Cruz Vermelha de Angola (CVA) limita-se a “acções de sensibilização e informação no Uíge”, revelou Ambrósio Casal, da CVA, ao CM.

"MÉDICOS NÃO ESTAVAM PREVENIDOS"

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D. Francisco da Mata Mourisca bispo do Uíge:

Há muitos portugueses no Uíge?

– Ficaram dois ou três que não vão sair. Os últimos que viajaram para Luanda são recém-formados, voluntários no ensino.

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Como estão a reagir os médicos à epidemia?

– No início, os médicos não estavam prevenidos nem pensavam numa epidemia deste género. Quando morreu um médico vietnamita e outra italiana, todos ficaram um pouco assustados.

E com a chegada da ajuda internacional?

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– Chegaram ontem [domingo] dez ‘Médicos Sem Fronteiras’ que nos vão ajudar a informar a população para evitar o contágio da doença.

A população está muito alarmada com a situação?

– Há preocupação mas a vida continua. As escolas e o mercado continuam abertos. A Igreja tem uma nota para todos os párocos lerem durante a missa, onde informam sobre o contágio da doença.

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MEDIDAS PORTUGUESAS LIMITAM-SE A UM FOLHETO

“Não podemos montar um dispositivo despropositado para este tipo de risco”, diz Graça Freitas, da Direcção-Geral de Saúde (DGS) a propósito das queixas dos passageiros que chegam diariamente a Lisboa provenientes de Luanda. A DGS tem um cartaz com o “alerta de saúde” e uma bancada com folhetos informativos sobre o vírus de Marburg na zona das chegadas dos aeroportos portugueses, que parece não ser suficiente para alertar os passageiros sobre os perigos da epidemia e as precauções a ter.

João Pinto foi um dos passageiros que levou a folha informativa para casa, depois da aterragem em Lisboa, no voo das 6h00, de sábado. O emigrante em Luanda fazia-se acompanhar pela mãe, transportada numa maca por força de uma doença oncológica, e mais dois familiares. “No aeroporto de Luanda não nos informaram de nada. Só soubemos da doença por ouvir conversas entre passageiros no avião”, conta.

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Graça Freitas reconhece que “há pessoas que podem não ver os folhetos informativos”, mas duvida que em Angola se desconheça a doença. Afirma, no entanto, que os riscos estão controlados, sendo “impossível reagir de outra forma”.

Luciana Pinto, 52 anos, mãe de João, foi levada de ambulância para casa. Nada tinha a ver com a febre hemorrágica, mas também ninguém lhe fez perguntas. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras justifica que em casos como os de doentes acamados, apenas desloca o controlo da fronteira para a pista do aeroporto. As questões de saúde e sanitárias competem à DGS.

A ORIGEM DA FEBRE HEMORRÁGICA

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PORTUGAL

Até ao momento, os serviços de saúde em Portugal apenas se defrontaram com dois casos de suspeita de febre hemorrágica. Um deles foi o de um indivíduo que morreu no sábado num hospital privado de Lisboa, à primeira vista, com malária cerebral. Outro caso anterior já foi desmentido.

MARBURG

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O vírus foi reconhecido pela primeira vez em laboratórios de Marburg e Frankfurt, na Alemanha, e Belgrado, na então Jugoslávia, em 1967. Na altura 37 pessoas foram infectadas. As primeiras estiveram em contacto com macacos verdes – usados como cobaias – ou com os seus tecidos.

CURA?

Não é ainda conhecida uma forma de tratamento específica para este vírus. No entanto, é importante que as pessoas que sintam os sintomas da doença (ver gráfico) sejam hospitalizadas. Quem esteve recentemente no Uíge e se sentir doente dentro de 21 dias deve ligar para 808 211 311.

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