Executa o noivo da amante a tiro
Luís Neves foi drogado com éter, enfiado na mala do carro até à Arrábida e abatido.
Pronto para dormir, na cama que já partilhava com Sónia Viegas há mais de um ano, Luís Neves nem teve tempo de se defender. O amante e colega da noiva na Prosegur atacou-o por trás, depois de Sónia lhe ter aberto a porta de casa em Setúbal, na noite de 6 de Abril – e começou por drogá-lo com um pano encharcado em éter. O empresário de 36 anos estava dominado, bastou-lhes transportar o corpo inanimado da vítima para a mala do seu próprio carro. Chegados à serra da Arrábida, executaram Luís a tiro.
Sónia e o amante já confessaram o homicídio à Polícia Judiciária de Setúbal, que os foi buscar anteontem – um de cada vez. Primeiro Sónia: os investigadores levaram--na a dar uma volta de carro pela serra da Arrábida, onde, confrontada com as suas mentiras – disse que o noivo não estivera em casa na noite do desaparecimento e que ela não saíra, ao contrário do que a PJ descobriu (ver cronologia em baixo) – acabou por indicar o local onde ela e o amante esconderam o Mazda de Luís Neves com o seu cadáver dentro da mala, há mais de um mês.
Estavam as pontas da investigação quase todas atadas – faltava só ir buscar o cúmplice de Sónia, um técnico de alarmes que trabalha com ela na Prosegur, e confirmar o móbil deste crime: os dois eram amantes, embora Sónia continuasse obcecada pelo noivo, Luís, que entretanto também tinha outra namorada, Joana, que trabalhava com ele na empresa de informática Arquiconsult. E o amante de Sónia Viegas, em troca de juras de amor e da promessa de ficarem juntos, aceitou matar-lhe o noivo. Esclarecido este facto, os investigadores da PJ quiseram saber como é que o funcionário da Prosegur, 43 anos, assassinou Luís Neves. Drogou-o primeiro, tentando também asfixiá-lo – e terá contado com a ajuda de Sónia para enfiar o corpo na mala do carro. Depois conduziu o automóvel da vítima e ela seguiu atrás, noutro carro. Chegaram a um local escondido na Arrábida, abriram a mala e o homem terá executado a vítima a tiro na cabeça.
HOMICÍDIO A PAR E PASSO
19h30
Luís sai da empresa, em Telheiras, Lisboa, e segue para casado pai da namorada e colega, Joana, na zona de Carcavelos.
20h00
Luís chega a casa do pai da namorada, onde combinara ir assistir ao jogo Barcelona-Arsenal, da Liga dos Campeões.
21h40
Luís leva a namorada a casa, naquela zona, e segue sozinho para o apartamento onde vive com a noiva, Sónia, em Setúbal.
22h15
O Mazda 6 SW, com Luís ao volante, passa na Via Verde das portagens de Coina, (A2), sentido Norte--Sul, rumo a Setúbal.
22h30
Luís envia um SMS à namorada, Joana, a dizer que parou nas bombas de gasolina apenas para beber um café.
23h30
Luís já está em casa, em Setúbal, de onde envia um e-mail de trabalho para um cliente da Arquiconsult, onde é sócio.
23h45
Luís envia um SMS à namorada, Joana, a dizer que está a trabalhar a partir de casa, na organização de uns papéis. 00h15
Luís envia um último SMS a Joana, a dizer que está cansado e vai dormir. Combina falarem no dia seguinte de manhã.
00h30
Sónia, no apartamento com Luís, rejeita uma chamada do colega da Prosegur, com quem combinou matar o noivo.
01h00
Sónia telefona ao cúmplice. À mesma hora, o computador portátil de Luís Neves ainda está ligado, em casa.
01h30
A localização celular do telemóvel de Sónia informa que esta já está no centro de Setúbal. Luís está na mala do seu carro.
02h45
A localização celular do telemóvel de Sónia informa esta está na zona da serra da Arrábida – onde o corpo foi deixado.
07h20
Localização do telemóvel de Sónia diz que esta está de volta a casa. Liga ao cúmplice, que ainda está na Arrábida.
08h00
O cúmplice de Sónia telefona-lhe pela última vez naquela manhã – depois de várias chamadas durante a madrugada.
09h40
Sónia telefona aos pais de Luís, dizendo que o noivo não foi dormir a casa na noite anterior, a perguntar se sabem dele.
10h30
Sónia telefona a Joana, que sabe ser namorada de Luís, a insultá-la e a perguntar-lhe se o noivo está na empresa.
'A FAMÍLIA DA SÓNIA ESTÁ DE RASTOS'
Desde a hora do almoço que Sónia e o colega da Prosegur eram ontem esperados no Tribunal de Setúbal, para serem ouvidos por um juiz e lhes serem decretadas as medidas de coacção. No entanto, as duas viaturas da PJ com os suspeitos só chegaram pelas 16h30, perante o olhar atento da mãe de Sónia, outros familiares e também amigos. A família da suspeita recusou falar ao CM, mas uma das suas melhores amigas acabou por tecer um pequeno comentário. 'Primeiro que tudo, lamentamos profundamente o que aconteceu ao Luís. A confirmar-se tudo isto, somos todos apanhados de surpresa. A família só hoje [ontem] soube o que aconteceu pelo jornal [CM]. Como devem calcular, estamos todos de rastos, pois ninguém esperava algo assim.' Os suspeitos abandonaram o tribunal pouco depois, onde regressam hoje, com Sónia a usar um lenço na cabeça, de modo a evitar ser fotografada.
PORMENORES
NAMORADA INVESTIGADA
Desde o momento em que Luís Neves foi dado como desaparecido que a PJ de Setúbal começou a investigar todos os passos da noiva, Sónia. De resto, o CM apurou que logo nos primeiros dias alguns inspectores fizeram vigia à casa a partir de cafés e restaurantes nas imediações do prédio da suspeita.
CARRO NO OUTÃO
O Mazda 6 SW com o corpo de Luís Neves na bagageira foi anteontem encontrado junto à 7.ª Bateria do Outão, em plena serra da Arrábida, Setúbal. Os bombeiros foram chamados pela PJ para fazer o levantamento do corpo, pelas 18h00.
CORPO POR AUTOPSIAR
O corpo de Luís Neves, encontrado em avançado estado de decomposição, só hoje deverá ser autopsiado, para que assim possam ser apuradas com certeza as causas da morte.
POUCA CONVERSA
Sónia e Luís viviam há cerca de dois anos num prédio junto à Estrada das Machadas, em Setúbal. Segundo um vizinho, eram pessoas de poucas falas.
SÓNIA ESCONDE A CARA
Sónia e o colega chegaram a tribunal em carros separados. Ela tentou esconder a identidade com um lenço na cabeça.
'O MEU FILHO NÃO MERECIA NADA DISTO'
Foi com a voz bastante tremida que o senhor Neves, como é conhecido pelos vizinhos o pai de Luís, chegou ontem à tarde até à porta de sua casa, em Setúbal, para trocar umas breves palavras com o CM, cerca de 14 horas depois de a Judiciária de Setúbal o ter chamado às instalações para lhe comunicar o desfecho trágico.
'Só sei que o meu filho não merecia isto. Esta é uma grande dor e perda para a nossa família', começou por dizer o pai da vitima, já vestido com uma camisa preta em sinal de luto. 'O meu filho estava desaparecido há cerca de um mês mas não estávamos à espera de um fim destes. Não sabemos o que aconteceu, a polícia não nos contou e, pelos vistos, vocês sabem mais que nós. Só sei que ontem [anteontem], pelas 22h30, fui chamado à PJ de Setúbal, onde me disseram que o meu filho foi encontrado morto.'
Desde o desaparecimento de Luís Neves, há cerca de um mês, que o assunto é praticamente falado todos os dias na praceta Meia Laranja, entre vizinhos e amigos que viram o empresário do sector informático crescer. 'Fomos todos apanhados de surpresa com esta notícia, nunca pensámos que ele tivesse sido morto. Se havia alguém que não merecia isto, esse alguém era o Luís', disse ao CM uma vizinha, acrescentando: 'Era um bom rapaz, sempre muito sossegado, incapaz de fazer mal fosse a quem fosse. Ele vinha sempre visitar os pais e trazia a filhota dele [de sete anos] para esta ver os avós e estar com eles'.
SEMPRE QUIS VIVER PERTO DO PAIS
Luís Neves era muito chegado à família e presença habitual em casa dos pais. 'Vinha aqui muitas vezes, mostrava-se sempre bem disposto, às vezes ia ao café e conversávamos um pouco', disse ao CM um amigo, que não quis ser identificado. 'Quando ele comprou esta casa, escolheu-a porque também era ao pé da dos pais.' A casa de Luís e Sónia fica a pouco menos de dois quilómetros da dos pais da vítima.
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