Falésia assassina fez cinco mortos num ano
Os nazarenos temem que o Sítio se torne mais conhecido por ser a “falésia assassina” do que pela beleza da paisagem que se desfruta sobre o mar e a Pederneira. No último ano e meio, ocorreram ali cinco mortes violentas, duas das quais no último domingo. O povo exige que sejam tomadas medidas para desincentivar os suicidas.
“Vêm para aqui e pensam que são o D. Fuas Roupinho", diz Joaquim Veríssimo, recordando a lenda atribuída ao destemido cavaleiro e almirante de D. Afonso Henriques, que no último instante foi salvo por Nossa Senhora da Nazaré de uma queda mortal de 100 metros de altura.
Joaquim Veríssimo não acha “nada agradável” que a falésia do Sítio da Nazaré seja notícia por causa dos suicídios. “Isso não tem interesse nenhum”, diz a contragosto. Ao seu lado, outro nazareno, Joaquim dos Santos, usa uns binóculos para ver os destroços do último carro esmagado no fundo da falésia.
“Deviam colocar uma vedação para aumentar a segurança, porque é muito perigoso chegar à beirinha da falésia”, diz Joaquim dos Santos. Até agora, fala-se dos suicídios, mas “um dia destes pode haver também algum miúdo que na brincadeira se descuide e vá parar lá abaixo”.
As preocupações dos dois nazarenos ouvidos pelo CM são partilhadas pelo presidente da Câmara Municipal, Jorge Barroso, e pelo capitão do porto, comandante Loureiro de Sousa. Ambos têm a intenção de escrever ao Ministério do Ambiente, que é o ‘dono’ do espaço, a sensibilizar o organismo para a necessidade de melhorar as condições de segurança.
Jorge Barroso defende uma “solução imediata”, mesmo que “provisória”, para “reduzir os riscos” e afirma que a autarquia está disponível para comparticipar as obras de requalificação da falésia que o Ministério do Ambiente decida fazer e que eliminem a sua perigosidade.
O comandante Loureiro de Sousa também gostaria de ver o problema resolvido e vai enviar um ofício ao Ministério do Ambiente a alertar para a necessidade de ser encontrada uma solução – que, para ser eficaz, deve melhorar as condições de segurança sem adulterar as características do local.
Por seu lado, o comandante dos Bombeiros Voluntários da Nazaré, Alberto Mendes, entende que não se pode falar em falta de segurança.
“São as pessoas que tornam o local perigoso e não conseguimos impedir ninguém de se suicidar”, diz Alberto Mendes.
ALENTEJO TEM DAS MAIS ELEVADAS TAXAS DE SUICÍDIO
O desfazer da família, por exemplo através do divórcio, é um dos factores que leva homens e mulheres a colocarem termo à vida, refere a Sociedade Portuguesa de Suicidologia (SPS), dedicada ao estudo deste comportamento.
De acordo com a SPS, 600 portugueses cometem suicídio por ano. O perfil está definido: homem, com mais de 50 anos, a viver na Grande Lisboa, Alentejo ou Algarve, separado, divorciado ou viúvo, desempregado ou reformado, sem práticas religiosas e que vive isolado socialmente.
Dito de outra forma, em Portugal as taxas de suicídio são baixas a Norte de Santarém e altas a Sul. Por cada mulher que se mata, três homens fazem o mesmo. E 30 por cento dos suicidas têm mais de 70 anos. Conforme adianta Carlos Saraiva, presidente da SPS, o Alentejo é “um verdadeiro caso de estudo”, com taxas das mais altas na Europa, sobretudo no Litoral e entre a população masculina de terceira idade.
São vários os métodos usados pelos suicidas portugueses: precipitação de alturas elevadas (como na Nazaré), enforcamento, arma de fogo, ingestão de pesticidas e afogamento. Antes do suicídio, pode haver sinais: comentários acerca da morte, arrumar documentos, dar objectos pessoais de valor sentimental elevado, afastar-se de amigos e familiares.
O suicida exibe com frequência apatia, tristeza profunda, ansiedade e falta de esperança, explica a SPS, que se encontra na internet em www.spsuicidologia.pt. Conversar com o potencial suicida é um primeiro passo para diminuir o risco. É fundamental levar a sério as ameaças e conseguir ajuda médica especializada.
Na comparação com outros países europeus, Portugal apresenta das mais baixas taxas de suicídio. Mas 24 mil pessoas por ano apresentam comportamentos para-suicidas, ou seja, infligem lesões a si mesmas sem intenção de morrer.
REMOÇÃO DE CARRO É DIFÍCIL
O Peugeot 106 vermelho que no domingo passado se despenhou na falésia do Sítio, de uma altura de 100 metros, vai continuar entalado entre as rochas até o mar o levar.
“Vamos esperar que o mar resolva o problema”, como aconteceu das outras vezes, disse ontem ao CM o capitão da Capitania do Porto da Nazaré, adiantando que a remoção dos destroços é complicada, exige meios técnicos sofisticados e tem custos elevados.
O comandante Loureiro de Sousa acredita que o mar se encarregará de levar os destroços do carro, que depois irão dar à costa, como aconteceu das outras vezes. No entanto, quando chegar o Verão, se os destroços continuarem no local, a Capitania avançará com a remoção, para não prejudicar a época balnear.
O carro pertencia a Pedro Morgado, que no domingo passado se lançou da falésia, levando consigo para a morte o filho de três anos e deixando morta em casa a mulher, Simone Pereira, que assassinou.
Os funerais realizam-se hoje, no cemitério de Turquel. Pedro será sepultado às 11 horas. As urnas com os corpos de Simone e do filho baixarão à terra às 16 horas.
JUNHO 2003
Uma mulher de 43 anos, residente em Aveiro, lançou-se de carro do cimo da falésia, arrastando também para a morte a filha de 10 anos. Foi num sábado, à hora do almoço e já havia muita gente na praia. Nesse dia e à mesma hora o ex-marido e pai da filha casava-se pela segunda vez em Chaves.
MARÇO 2004
Um homem de 50 anos morreu quando o carro que conduzia se despenhou do Sítio e se esmagou nas rochas à beira-mar. O cadáver foi encontrado a meio da falésia.
DÉCADA DE 90
Na década de 90 do século passado, 13 pessoas lançaram-se do Bico da Memória, o que fez daquele promontório o local preferido para os suicídios. Os nazarenos contam que um dos suicidas, que era uma mulher, sobreviveu à queda porque se atirou de saias e ficou presa nos arbustos. Mas o suicídio viria a ser consumado mais tarde, noutra ocasião.
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