Garantia do contabilista: Ricardo Salgado decidia tudo, "quer fosse relevante ou não"
Operação Marquês: Testemunha revela esquema de faturação suspeito dentro do Grupo Espírito Santo.
Um antigo contabilista do Grupo Espírito Santo explicou esta quinta-feira em tribunal a forma como havia centenas de empresas no grupo, mas que todas as decisões eram tomadas por Ricardo Salgado.
Interrogado como testemunha no julgamento da Operação Marquês, Lourenço Lobo, explicou que trabalhava sob a tutela de José Castella (o controlador financeiro do GES, que chegou a ser arguido no processo do banco, mas morreu em 2020), mas que era o 'dono disto tudo' quem tomava as decisões. "Sim, muitas questões ele [José Castella] tinha de perguntar muitas vezes a Ricardo Salgado. Tudo o que fosse relevante, ou mesmo que não fosse. Ele dizia, tenho de perguntar ao patrão", afirmou Lourenço Lobo.
Ao longo de um extenso depoimento, marcado sobretudo por questões técnicas da contabilidade do GES, o homem que chegou a ser diretor da Rioforte admitiu que havia pessoas dentro do grupo que recebiam ordenado através de outras empresas do grupo para as quais não trabalhavam.
"Havia pessoas que recebiam os ordenados processados pela ES Resources apesar de trabalharem para outras empresas do grupo. Esses custos eram transferidos para a 'ES Enterprise'. Eram ordenados pagos assim julgo eu por uma questão de confidencialidade, depois passamos a faturar a outra entidade, não me recordo do nome, recebi instruções do José Castella para faturar assim a outra entidade", explicou. Por exemplo, "uma pessoa que trabalhasse para a Tranquilidade ou outras empresas do GES, nós pagávamos à pessoa e depois cobrávamos à entidade como serviços prestados". "Só fazia o que me mandavam."
Lourenço Lobo admitiu ainda que em meados de 2013 foi convidado por José Castella para ser administrador de 17 empresas de uma vez. "Nem sei quais eram. Primeiro aceitei, mas depois o meu colega Pierre avisou que eu não podia aceitar e rasguei as cartas", garantiu, deixando a entender que se tratavam de empresas 'off-shore'.
O esquema do GES era tão complexo que havia um organigrama com 300 empresas do grupo liderado por Ricardo Salgado. "Era atualizado trimestralmente."
Ricardo Salgado é um dos 21 arguidos da Operação Marquês e responde por oito crimes de branqueamento de capitais e três de corrupção ativa. O antigo primeiro-ministro José Sócrates é o principal arguido do processo, está a ser julgado por 22 crimes, três deles de corrupção.
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