“Guerra do Ultramar tirou-me a mocidade”

"Fui obrigado a ir. Tinha 20 anos e ou ia ou desertava. Voltei já depois dos 23. Perdi um amigo, morto pelo inimigo, mas, acima de tudo, perdi a juventude. A guerra tirou-me a mocidade." É desta forma que José António Cordona, 1º cabo do Esquadrão 149, recorda ao CM o início do conflito, há 50 anos. A data foi assinalada ontem numa cerimónia junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, no Forte do Bom Sucesso, em Belém, Lisboa.<br/>

16 de março de 2011 às 00:30
CAVACO SILVA, CHITO RODRIGUES, COMBATENTES, GUERRA, HOMENAGEM Foto: Miguel A. Lopes/Lusa
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Durante a guerra, à espera do cabo Cordona, em Alter do Chão, ficou Florinda, agora com 69 anos. "Tinha 19 quando ele partiu. Estávamos sempre ansiosos, à espera de notícias. A guerra atrasou a nossa vida", lamenta. Casaram quando a comissão de José António terminou e ainda hoje estão juntos.

O conflito deixou feridas que não chegaram a sarar. "Ainda hoje é complicado recordar tudo o que vi", relata por seu lado, emocionado, António Coutinho Moreira, cabo actualmente com 61 anos que passou "29 meses e 18 dias no Ultramar. Fomos alvo de vários ataques. Perdi dois primos direitos, mas só da minha terra, Marco de Canaveses, morreram 46 jovens enviados para a batalha." As lágrimas interrompem a conversa.

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Para o presidente da Liga dos Combatentes, Chito Rodrigues, o 15 de Março de 1961 "é o marco do sacrifício de muita gente e do próprio País, que foi lançado numa guerra que durou anos demais. Um milhão de portugueses foi chamado para combater. E os sacrifícios pedidos não podem ser esquecidos."

CAVACO APELA À CORAGEM E DETERMINAÇÃO DOS JOVENS

No discurso evocativo dos 50 anos sobre o início da Guerra do Ultramar, o Presidente da República apelou ontem ao contributo dos jovens de hoje para o futuro de Portugal. "Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do País com a mesma coragem, desprendimento e determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na Guerra do Ultramar", afirmou Cavaco Silva.

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O Presidente da República homenageou todos os que estiveram envolvidos no conflito durante quase 14 anos, nomeadamente os nove mil portugueses que perderam a vida, e sublinhou que "para lá da memória, impõe-se o reconhecimento de todos os que, pela sua acção na defesa de Portugal, sofreram no corpo e na alma o preço do dever cumprido. São merecedores do nosso profundo respeito".

Já o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, decidiu ontem aconselhar uma "releitura dos acontecimentos à luz da liberdade e da democracia".

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